Conflito árabe-israelense

Israel e Hamas acertam cessar-fogo em Gaza após 11 dias de conflito

Governo Netanyahu e milícia palestina anunciam trégua nos combates. Biden agradece ao Egito por mediação e afirma que os EUA vão colaborar na reconstrução da região

Menino de 10 anos recebe atendimento médico por ferimentos causados pela ofensiva israelense, nesta quinta-feira, na cidade de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza.
Menino de 10 anos recebe atendimento médico por ferimentos causados pela ofensiva israelense, nesta quinta-feira, na cidade de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza.Yousef Masoud / AP

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O Gabinete de Segurança de Israel, órgão governamental que decide sobre as ofensivas militares, aprovou nesta quinta-feira um acordo de cessar-fogo com o Hamas em Gaza, após 11 dias de confrontos com as milícias palestinas. As autoridades aceitaram a proposta de mediação do Egito para uma trégua “recíproca, simultânea e incondicional” dos combates. A entrada em vigor do cessar-fogo permanente —sob o princípio da calma na frente em troca da calma nas fileiras do adversário— vale a partir 2h de sexta-feira (20h desta quinta, pelo horário de Brasília).

A pressão exercida sobre Israel pelo presidente dos EUA, Joe Biden, na quarta-feira para forçar a redução imediata da escalada parece ter surtido efeito. Segundo informa a repórter María Antonia Sánchez-Vallejo, de Nova York, o democrata pôde marcar o sucesso de sua diplomacia “intensiva e silenciosa”, como ele mesmo a definiu. O presidente compareceu à imprensa no meio da tarde para aplaudir o cessar-fogo, afirmando que palestinos e israelenses “merecem viver em segurança e desfrutar de liberdade, prosperidade e democracia”. Os Estados Unidos mostraram seu compromisso de colaborar “junto com a comunidade internacional e a ONU na reconstrução de Gaza” após os bombardeios israelenses, acrescentou, garantindo que seu país também ajudará Israel a reabastecer o sistema de defesa antimísseis.

O anúncio foi precedido de intensa atividade diplomática por parte da Casa Branca. Pela manhã, Biden falou por telefone com seu homólogo egípcio, Abdel al-Sisi, devido ao papel de liderança do Cairo na construção do acordo, e a quem o veterano democrata agradeceu especialmente por sua mediação. “Os dois líderes analisaram os esforços para chegar a um cessar-fogo para encerrar as atuais hostilidades em Israel e Gaza”, explicou a Casa Branca em um comunicado.

Nesta quinta, à medida que as negociações para chegar a um acordo se intensificavam, as hostilidades prosseguiam sem interrupção na Faixa de Gaza. Enquanto o Governo de Benjamin Netanyahu reiterava ao longo do dia o mantra de que as operações militares não iriam parar até que todos os seus objetivos fossem cumpridos, os chefes do Exército israelense já reconheciam aos analistas de defesa da imprensa de Israel que a missão estava praticamente cumprida em Gaza. A destruição de grande parte da capacidade ofensiva e defensiva do Hamas e da Jihad Islâmica, a eliminação física de muitos de seus comandantes e o restabelecimento da esmagadora força de dissuasão bélica de Israel são o resultado de um confronto assimétrico, agora, deve chegar ao fim.

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Uma barragem de mais de 4.000 foguetes —incluindo no coração econômico do país, na região de Tel Aviv, com dezenas de milhares de civis fugindo para abrigos antiaéreos— foi o preço a pagar por Israel, que registrou oficialmente 12 mortes (incluindo dois menores de idade) pelo impacto de projéteis no seu território. Centenas de bombardeios aéreos e de artilharia destruíram blocos inteiros de apartamentos e torres de escritórios no enclave palestino, onde 232 pessoas, incluindo 65 crianças e 39 mulheres, foram mortas, de acordo com o Ministério da Saúde palestino. Porta-vozes militares israelenses afirmam que mais de 160 dos mortos em seus ataques eram milicianos islâmicos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha e a Organização Mundial da Saúde pediram uma trégua urgente para dar um respiro à população civil após 11 dias de bombardeios.

Embora a intensidade das hostilidades e a lista diária de vítimas estivessem em queda gradual desde segunda-feira, a diplomacia tentou abrir caminho para um cessar-fogo. O enviado das Nações Unidas para o Oriente Médio, Tor Wennesland, se reuniu no Qatar, país também envolvido na mediação, com o líder do Hamas, Ismail Haniya.

Em Jerusalém, o ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, se reuniu com Netanyahu e lhe expressou o total apoio da Alemanha ao direito de Israel de se defender, como também responsabilizou o Hamas por desencadear a escalada bélica. O disparo de sete mísseis de Gaza sobre a região de Jerusalém no dia 10 deu início a uma ofensiva israelense em grande escala. Durante o recente mês do Ramadã, confrontos com a polícia registrados na mesquita de Al Aqsa, em Jerusalém, acirraram os ânimos na comunidade palestina, incluindo aqueles que vivem na Cisjordânia e têm a nacionalidade israelense. O ministro Maas endossou perante o primeiro-ministro israelense “os esforços internacionais em favor de um cessar-fogo, tendo em vista o rápido aumento das mortes entre os civis”, antes de ser recebido em Ramallah, sede da Autoridade Palestina, pelo presidente Mahmud Abbas.

A Assembleia Geral da ONU também se reuniu com urgência nesta quinta-feira para debater a situação no Oriente Médio. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, se mostrou “profundamente impressionado com os contínuos bombardeios aéreos e de artilharia de Israel em Gaza e com os disparos indiscriminados de foguetes do Hamas”, relata a Reuters. Em intervenção perante a Assembleia Geral, Guterres afirmou que as hostilidades causaram graves danos à infraestrutura civil, razão pela qual mais de 50.000 pessoas tiveram de abandonar as suas casas em meio aos ataques.

A embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Linda Thomas-Greenfied, argumentou perante a Assembleia Geral que seu país “respondeu a esta crise concentrando-se em conseguir o fim do conflito o mais rapidamente possível”, relata a Efe. “Não creio que haja nenhum outro país que tenha feito mais”, insistiu a diplomata diante das críticas de outros membros do Conselho de Segurança, onde Washington impediu várias tentativas de aprovar uma declaração de consenso pedindo um cessar-fogo. Os EUA descartaram a possibilidade de apoiar uma proposta francesa no Conselho para exigir que ambas as partes interrompessem os combates ao mesmo tempo em que expressaram sua confiança em que a redução da escalada se mantenha nos próximos dias.

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