Minutos que antecederam detenção e morte de George Floyd vêm a público pela primeira vez no julgamento

Gravação de loja mostra que o norte-americano comprou cigarros supostamente com nota falsa. Câmera acoplada a uniforme de policial revela que agentes lhe apontaram pistola para que saísse do carro

Imagem da câmera corporal de um policial mostra a sua pistola apontando para George Floyd dentro do seu carro. Em vídeo, seus últimos minutos de vida.
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FILE - In this June 7, 2020, file photo, Alondra Cano, a City Council member, speaks during "The Path Forward" meeting at Powderhorn Park on Sunday, June 7, 2020, in Minneapolis. On Wednesday, Dec. 8, 2020, the Minneapolis City Council will decide whether to shrink the city's police department while violent crime is already soaring and redirect funding toward alternatives for reducing violence. (Jerry Holt/Star Tribune via AP, File)
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Em 25 de maio do ano passado, George Floyd estava de bom humor. Antes do vídeo que o mostra agonizando com três policiais sobre ele, o afro-americano comprou cigarros com uma nota de 20 dólares, supostamente falsa, na loja Cup Foods, na zona sul de Minneapolis. Lá ele se movia com desenvoltura e parecia sociável. Uma vez dentro do seu carro, com uma pistola apontando para a sua cabeça, um agente lhe ordena que desça, e Floyd, aterrorizado, responde: “Não atire em mim”. No terceiro dia do julgamento contra o ex-agente Derek Chauvin, acusado de assassinar o homem que se tornou símbolo do movimento contra o racismo nos Estados Unidos, foram apresentadas ao público pela primeira vez as imagens gravadas no interior da loja e pelas câmeras acopladas aos uniformes dos policiais, o que permitirá ao júri entender o contexto que levou aos brutais oito minutos e 46 segundos durante os quais Floyd foi asfixiado, até que seu coração parou.

Christopher Martin, de 19 anos, trabalhava como caixa no Cup Foods no dia do crime. Em seu depoimento, divulgado nesta quarta-feira no tribunal do condado de Hennepin, que abrange Minneapolis, ele contou que imediatamente notou que a nota de 20 dólares usada por Floyd na sua compra podia ser falsa. Seguindo a política do estabelecimento, Martin sofreria um desconto no seu salário se aceitasse dinheiro falso, mas mesmo assim o recebeu. “Achei que George realmente não sabia que era uma nota falsa, então achei que estava lhe fazendo um favor”, disse Martin ao advogado de Chauvin, Eric Nelson. Depois da transação, seu chefe lhe disse para que fosse atrás de Floyd no seu carro e pedisse que voltasse à loja para esclarecer o assunto. O afro-americano, de 46 anos e pai de cinco filhos, negou-se a voltar. O dono da Cup Foods mandou novamente seu funcionário para buscá-lo, mas não funcionou, e então pediu que chamassem a polícia.

O jovem relatou que presenciou com “incredulidade” como o agente Chauvin cravava o joelho no pescoço de Floyd e sentiu “culpa” por isso. “Se simplesmente não tivesse aceitado a nota, isto poderia ter sido evitado”, lamentou Martin, somando-se à narrativa das testemunhas do fato, atormentadas por não terem feito nada para evitar a detenção que acabou na morte de Floyd. Até agora, os 14 membros do júri ―dos quais 12 deliberarão― tinham visto o caso apenas pela perspectiva dos transeuntes que gravaram a agressão com seus celulares, mas na tarde desta quarta puderam observar o episódio que desencadeou o homicídio e com os olhos dos policiais implicados, graças aos vídeos das câmeras incorporadas aos seus uniformes.

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Essas imagens mostram a agressividade dos policiais assim que teve início a interação deles com Floyd, que estava sentado em seu carro, visivelmente nervoso. Com uma pistola apontada para si, Floyd suplica à polícia que não lhe faça nada e começa a chorar. Os dois primeiros agentes que o detêm e algemam tentam depois acalmá-lo. “Você me deixa nervoso”, lhe diz um, ao que Floyd lhe responde: “Estou aterrorizado”. As câmeras dão uma clara imagem de como o detido relutou insistentemente em subir no carro policial, embora, algemado, não seja visto como uma ameaça real aos agentes.

Nesta quarta-feira vieram à tona pela primeira vez as imagens captadas pela câmera do ex-agente Chauvin. O policial chegou à cena quando Floyd tentava impedir que dois agentes o pusessem no carro, alegando que sofria de claustrofobia. Chauvin agarra com força o pescoço de Floyd por trás, o que aparentemente faz sua câmera se soltar do uniforme, indo parar embaixo do veículo policial. Dos quatro agentes na cena, a única câmera que grava apenas alguns breves segundos da detenção é a do réu, Chauvin.

Com o material registrado nas outras câmeras dos outros policiais, observa-se que eles conversam calmamente entre si enquanto Floyd se queixa de que não consegue respirar, diante de uma dúzia de testemunhas cada vez mais alteradas. “Acho que ele desmaiou”, comenta um policial. Outro diz a Chauvin que não sente o pulso do detido. Nenhuma dessas intervenções, nem o clamor das testemunhas, leva o agora acusado a mudar de postura. Mesmo quando a ambulância chega, Chauvin espera um momento antes de tirar seu joelho do pescoço de Floyd, que jaz inconsciente no asfalto depois de repetir 27 vezes que não conseguia respirar.

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