O Papa em Mossul: “Não é lícito fazer guerra em nome de Deus”

O Pontífice visita a cidade iraquiana em ruínas, na qual o Estado Islâmico declarou o califado em 2014 e onde quase não restam famílias cristãs

El Papa llega a la plaza de las Cuatro Iglesias de Mosul para realizar su oración, este domingo. En vídeo, el pontífice da su discurso.Vídeo: AFP | REUTERS
Daniel Verdú
Qaraqosh -
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A photo released by the Grand Ayatollah Ali al-Sistani Office shows the meeting between Pope Francis, right, and Shiite Muslim leader Grand Ayatollah Ali al-Sistani in Najaf, Iraq, Saturday, March 6, 2021. Pope Francis arrived in Iraq on Friday to urge the country's dwindling number of Christians to stay put and help rebuild the country after years of war and persecution, brushing aside the coronavirus pandemic and security concerns to make his first-ever papal visit. (AP Photo)
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Abu Bakr Al-Baghdadi proclamou em 29 de junho de 2014 o califado do Estado Islâmico (EI) na mesquita Al-Nuri de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque. O grupo entrou quase sem resistência, ante forças armadas que fugiram como coelhos, e transformou a cidade em seu quartel-general. Começou assim um período de guerra e terror, que devastou a cidade e essa zona do Iraque. Hoje, sete anos depois, a poucos metros da mesquita onde o regime sanguinário teve início, na praça das Quatro Igrejas de um município ainda em ruínas, onde restou somente uma dúzia de famílias cristãs, o Papa rezou diante de uma cruz. “Se Deus é o Deus da vida ―e é―, então não é lícito matar nossos irmãos em Seu nome. Se Deus é o Deus da paz ―e é―, então não é lícito fazer a guerra em Seu nome”, afirmou, iniciando uma prédica inimaginável poucos anos atrás.

Francisco solta uma pomba entre os escombros da praça de Hosh al-Bieaa, em Mossul.
Francisco solta uma pomba entre os escombros da praça de Hosh al-Bieaa, em Mossul.- (AFP)

Francisco, rodeado de edifícios destruídos após a liberação da cidade, rezou pelas vítimas e recordou o sangue com o qual o EI semeou os últimos anos de história neste lugar. A organização terrorista prometeu invadir Roma, mas foi seu monarca que veio até aqui para acompanhar as vítimas. “Em Mossul, as trágicas consequências da guerra e das hostilidades são muito evidentes. É cruel que este país, berço da civilização, tenha sido atingido por uma tempestade tão desumana, com antigos lugares de culto destruídos e milhares e milhares de pessoas deslocadas à força ou assassinadas. Hoje, apesar de tudo, reafirmamos nossa convicção de que a fraternidade é mais forte que o fratricídio, a esperança é mais forte que a morte, a paz é mais forte que a guerra. Essa convicção fala com voz mais eloquente que a voz do ódio e da violência. E nunca poderá ser silenciada no sangue derramado por aqueles que profanam em nome de Deus percorrendo caminhos de destruição.”

O EI marcava as casas dos cristãos em Mossul para que pudessem ser saqueadas com maior precisão. A barbárie provocou o êxodo de cerca de 500.000 pessoas, 120.000 delas cristãs. Hoje resta apenas um punhado de famílias. Uma tendência que se repetiu nesta zona do norte do país. Por isso, o terceiro e último dia da histórica visita do Papa ao Iraque foi destinado a dar consolo às minorias cristãs da região, perseguidas e obrigadas pelo EI a ir embora. Em 2013 havia cerca de 1,4 milhão de cristãos no país; hoje eles oscilam entre 200.000 e 300.000. Somente 50% dos que fugiram durante a invasão jihadista retornaram para casa no Iraque.

O Papa presidiu a oração em meio às ruínas da cidade de Mossul.
O Papa presidiu a oração em meio às ruínas da cidade de Mossul. Andrew Medichini (AP)

O Papa seguiu depois para a cidade de Qaraqosh (32 quilômetros a sudoeste de Mossul), de maioria cristã, onde celebrou uma missa na catedral da Imaculada Conceição, reinaugurada há pouco, após sua destruição em 2014, quando o EI a queimou e a utilizou como campo de tiro. Aqui o esperavam milhares de famílias que resistiram, apesar do assédio do grupo terrorista. E também pessoas que tiveram que fugir em plena noite com a roupa do corpo, como Mounir Jibrahil, professor de matemática de 61 anos. Ele emigrou para Erbil (capital do Curdistão iraquiano), retornou em 2016 e teve que esperar outros quatro anos para reconstruir sua casa. “Agora está mais seguro. É maravilhoso ver o Papa, nunca imaginamos que viria a Qaraqosh. Talvez isso ajude a reconstruir o país, trazendo finalmente paz e amor”, afirma. Na mesma igreja esperava Andy Abd, 27, vestido para a ocasião. Ele também precisou fugir em 2014 e sobreviveu como refugiado em Erbil, onde ficou durante três anos. Abd pôde voltar porque encontrou trabalho, mas muitos de seus amigos emigraram para o Canadá ou a Austrália.

Francisco visita a comunidade cristã de Qaraqosh.
Francisco visita a comunidade cristã de Qaraqosh. ALESSANDRO DI MEO (EFE)

Algumas famílias ficaram separadas irremediavelmente. Os pais de Adara, uma menina de 26 anos vestida com as roupas tradicionais de Qaraqosh e que esperava fora do templo, nunca quiseram regressar. Francisco confortou-os e convidou os que fizeram as malas a retornar. “Com muita tristeza, olhamos ao nosso redor e percebemos outros sinais, os sinais do poder destruidor da violência, do ódio e da guerra. Quantas coisas foram destruídas. E quanto precisa ser reconstruído. Nosso encontro demonstra que o terrorismo e a morte nunca têm a última palavra”, afirmou.

O Papa pediu aos fiéis, que o esperavam dos dois lados da estrada e no interior da catedral, sem respeitar quase nenhuma medida de segurança sanitária, que refizessem suas vidas aqui. “Este é o momento de reconstruir não apenas os edifícios, mas sobretudo os vínculos que unem comunidades e famílias, jovens e idosos”, declarou. Mas muitos ainda vivem aterrorizados, como Doha Sabah, que perdeu o filho num bombardeio. Ela relatou sua história ao Pontífice durante a celebração religiosa na Igreja da Imaculada Conceição de Qaraqosh. “Dizemos não ao terrorismo e à instrumentalização da religião”, insistiu o Papa.

O Papa, ao chegar ao estádio Hariri em Erbil, neste domingo.
O Papa, ao chegar ao estádio Hariri em Erbil, neste domingo. YARA NARDI (Reuters)

A jornada de domingo terminou com uma missa multitudinária em Erbil, dando fim a três intensos dias da primeira viagem realizada pelo Papa depois de 15 meses. Foi uma missão bem-sucedida, segundo fontes do Vaticano, e um ponto de inflexão em sua política de construir pontes com o islã. A ideia de Francisco, após ele e os profissionais que o acompanham serem vacinados, é retomar sua agenda de compromissos internacionais.


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