Catalunha

Prisão do rapper Pablo Hasél provoca onda de protestos e choque com a polícia na Espanha

Manifestantes pedem liberdade do músico condenado por glorificar o terrorismo em postagens e canções. Atos reuniram milhares de pessoas desde terça em cidades como Barcelona e Valência

Manifestante em Barcelona durante protesto contra a prisão do rapper Pablo Hasél.
Manifestante em Barcelona durante protesto contra a prisão do rapper Pablo Hasél.EL PAÍS

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Manifestantes tomam há três dias as ruas de Barcelona e outras cidades da Espanha contra a prisão do rapper Pablo Hasél —preso na terça-feira sob acusação de enaltecimento do terrorismo, injúrias e calúnias contra a Coroa espanhola. Na capital catalã, cerca de 500 pessoas se reuniram nesta quinta em frente ao Departamento de Interior, onde começaram a lançar objetos na direção das forças policiais. Posteriormente, os manifestantes seguiram pela rua Diputación, causando danos às vidraças do El Periódico de Catalunya, que também picharam. Seis pessoas foram detidas. Em Valência, a Polícia Nacional também investiu contra os manifestantes que protestavam na cidade pelo segundo dia. Os protestos e a resposta agressiva da polícia geraram reação de políticos.

Pablo Rivadulla, conhecido como Pablo Hasél, foi condenado em 2018 a nove meses de prisão pelo conteúdo de 64 publicações no Twitter e uma música no YouTube (leia trechos aqui, em espanhol). Hasél já havia sido condenado por atos semelhantes pelo Supremo Tribunal Federal em 2015. Entre outras mensagens nas redes sociais que motivaram a mais recente pena, ele publicou em março de 2016 uma fotografia de um membro do grupo terrorista GRAPO (Grupos de Resistencia Antifascista Primero de Octubre) com o seguinte texto: “As manifestações são necessárias, mas não o suficiente, apoiamos aqueles que foram mais longe”. Na página, o rapper tinha então 54.000 seguidores. A justiça considerou que suas mensagens representavam um “risco real” para as pessoas. Sua prisão, na última terça, ocorreu após o rapper descumprir a ordem de se apresentar à polícia e se abrigar com apoiadores na Universidade de Lérida, na cidade onde mora.

Os protestos em Barcelona chegaram a reunir 4.500 participantes na terça-feira e 1.700 na quarta-feira, segundo fontes policiais. Nesta quinta, os distúrbios começaram depois que as primeiras barricadas feitas com caçambas de lixo foram incendiadas no centro da cidade. A polícia catalã passou por cima do fogo e alguns moradores também jogaram água de suas varandas. Um jornalista afastou um carro para evitar que queimasse. Os policiais posteriormente dispersaram as pessoas concentradas no local e a situação se espalhou pelas ruas do Eixample [distrito onde está a parte central da cidade], com vários pontos com incidentes. Um policial ficou ferido ao receber pedrada dentro do veículo em que estava.

Em Sabadell, na região de Barcelona, a polícia catalã também informou incidentes com “grupos violentos” que atiraram “ovos, barreiras e garrafas” nos agentes em frente à delegacia da Polícia Nacional. Em Tarragona, mais de 100 pessoas se manifestaram em algumas ruas da cidade, respondendo a uma convocação de protesto contra a prisão de Hasél e contra a repressão policial. Os momentos mais tensos aconteceram perto do campus Catalunya da Universidade Rovira i Virgili, quando um jovem manifestante tentou subir na capota de um carro da Guarda Urbana. O veículo não parou e o jovem caiu de cabeça no chão, ficando ferido com o golpe, informa Marc Rovira.

Nos dois primeiros dias de manifestações, 51 pessoas foram presas na Catalunha e 55 foram atendidas por profissionais de saúde (31 delas eram da polícia catalã). O caso mais grave é o de uma menina de 19 anos que perdeu a visão de um olho devido a um impacto que a polícia catalã está investigando se é de foam, as bolas de espuma viscoelástica usado pela corporação. O protesto de hoje na cidade é também foi contra a repressão policial.

A onda de protestos também chegou a Valência, onde centenas de pessoas se reuniram à tarde para mostrar seu apoio ao rapper preso Pablo Hasél e rejeitar as investidas policiais que aconteceram em várias cidades espanholas que condenavam sua entrada na prisão. Um dos manifestantes leu no celular um discurso no qual denunciou a repressão policial e avisou: “Se quiserem guerra, terão guerra”, informa a agência Efe. Os manifestantes tentaram marchar em passeata no centro da capital valenciana, mas um forte dispositivo policial bloqueou seu caminho. Em seguida começaram as investidas dos policiais e as perseguições pelas ruas ao redor da praça de San Agustín, onde o protesto acontecia.

Pablo Hasél reunido com apoiadores antes de ser preso, na terça.
Pablo Hasél reunido com apoiadores antes de ser preso, na terça. EL PAÍS

Os manifestantes viraram caçambas, bloquearam ruas e gritaram insultos à polícia. Há pelo menos um ferido e oito presos. Jovens e estudantes predominavam entre os manifestantes que exigiam a liberdade do rapper.

A concentração, convocada pelas redes sociais por alguns grupos nacionalistas e de esquerda, sob o lema Estem fartes (estamos fartos), começou por volta das 19h (15h em Brasília) com um forte dispositivo policial para conter as centenas de jovens reunidos no centro da capital valenciana. Na terça-feira também houve incidentes entre a polícia e os manifestantes na cidade.

As perseguições aconteceram em muitas ruas. Os policiais usaram cassetetes contra os manifestantes e dispararam rajadas para afugentá-los. Guiados por um helicóptero, os policiais foram desalojando dezenas de jovens do centro.

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Reação da classe política

Os tumultos e as investidas policiais provocaram reações imediatas entre os partidos políticos e seus representantes. Enquanto o valenciano Compromisso denunciou a “agressão” contra o deputado Carles Esteve e o Unidos Podemos lamentou a “bestialidade” da polícia, o Partido Popular e o Cidadãos mostram seu apoio às forças de segurança.

O prefeito de Valência, Joan Ribó, do Compromisso, destacou que “uma ação desproporcional da Polícia Nacional não aumenta a segurança”, mas “aumenta a tensão social de forma gratuita”. A coligação pediu explicações à delegada do Governo na Comunidade Valenciana, a socialista Gloria Calero, diante de uma gestão que considera “no mínimo muito questionável”.

A porta-voz do Unidos Podemos, Pilar Lima, criticou no Twitter que “a polícia agiu com violência desde o início”. “Muitos tiros. Nós vivemos isso na primeira pessoa. É inadmissível o maltrato a que os cidadãos estão sendo submetidos pela polícia sob as ordens de Gloria Calero. Tomem medidas”, acrescentou, dirigindo-se à delegada do Governo na Comunidade Valenciana.

Unidos Podemos e Compromisso fazem parte do Governo de coalizão da Generalitat Valenciana, presidida pelo socialista Ximo Puig.

O porta-voz do Cidadãos, Toni Cantó, expressou seu “apoio a todos os policiais que, mais um dia, têm de enfrentar esses energúmenos violentos”. “Servem ao Estado de Direito e protegem a todos nós. Força e honra”, acrescentou.

A presidenta do Partido Popular da Comunidade Valenciana, Isabel Bonig, também manifestou seu apoio às forças de segurança e defendeu: “Direito ao protesto, sempre. À violência, não. jamais. Quando os Governos empurram as ruas assim, quem se machuca é a democracia. Hoje Valência nos machuca”.

Da bancada parlamentar do ultradireitista Vox, José María Llanos denunciou que “os totalitários incentivam seus filhotes”.

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