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As pessoas “muito especiais” de Trump

Invasão violenta do Capitólio por manifestantes, num momento simbólico como o da ratificação de Biden, é um sério problema de segurança

Seguidores de Trump no Capitólio, nesta quarta-feira.
Seguidores de Trump no Capitólio, nesta quarta-feira.SAUL LOEB / AFP

A cumplicidade de Donald Trump com os invasores violentos do Capitólio, na solene sessão de ratificação de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos da América, é algo mais do que política. É talvez uma cumplicidade que deverá ser examinada pela Justiça. Trump, em um vídeo gravado, depois da comedida e prudente declaração de Biden, referiu-se aos invasores como pessoas “muito especiais”. Trump, sem condenar a violência e a irrupção antidemocrática de seus seguidores, limitou-se a dizer: “Roubaram as eleições de nós, de vocês e de mim, mas vocês precisam ir para a casa, porque será bom para vocês [...]. Vocês são pessoas muito especiais.” Essas foram suas palavras.

O dia começou com a última derrota eleitoral de Trump. Desta vez na Geórgia, o Estado decisivo, que elegia na terça-feira dois senadores cruciais para a governabilidade dos EUA. Estes são os pontos-chave:

1. A derrota eleitoral e política. Os democratas Raphael Warnock, primeiro a ser declarado eleito, e Jon Ossoff, o segundo, já são senadores-eleitos pela Geórgia, depois das eleições desta terça-feira. Os democratas precisavam deles para ter o controle do Senado, e fazia muitos anos que o partido democrata não o tinha. Isso significa que Biden poderá legislar sem muitos problemas. Os trumpistas ficam sem capacidade de bloqueio.

2. A derrota simbólica. O reverendo Warnock, que prega na mesma igreja onde pregava Martin Luther King, é o primeiro afro-americano a ser senador pela Geórgia, uma fortíssima carga estética e ética. Um símbolo político.

3. A derrota de sua narrativa. Era o mais importante, porque reafirma que a Geórgia deixa de ser republicana. Acabam os argumentos das teorias conspiratórias de Trump. Ele fica sem “realidade alternativa”. Ou mente, ou nega, ou enlouquece. E, diante do ocorrido na tarde desta quarta, parece que estamos diante da última opção.

4. A derrota pessoal. Donaldo Trump perdeu —de novo— ao ser protagonista de uma eleição. Isolado, derrotado e teimoso. Trump perde 2020 e hipoteca, quase definitivamente, seu futuro político. Sem vitória na Geórgia não há teoria alternativa.

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Essas derrotas deveriam ter sido suficientes para acabar com a tensão extrema a que Trump submeteu o sistema democrático norte-americano. Mas não foi assim. Donald Trump procurou esse perigo institucional que vimos em Washington. É o único responsável por alimentar a concentração da manhã com sua participação e validá-la com seu discurso. Seu tuíte acusando seu vice, Mike Pence, de traição por levar adiante com sua missão institucional de ratificar a nomeação de Joe Biden é de uma gravidade extraordinária. Trump lidera não só a loucura, mas a insurreição antidemocrática.

Agora entendemos o que significou o que disse a seus seguidores mais radicais, os supremacistas dos Proud Boys, algumas semanas atrás: “Esperem o sinal”. O sinal chegou nesta quarta, e Trump é o líder desse desafio democrático. Não é seu símbolo nem seu herói. É seu chefe. É seu responsável. E o sinal foi claro: “Joe Biden será um presidente ilegítimo”, “Nunca nos renderemos. Nunca aceitaremos”, “vamos parar a roubalheira”, dizia Donald Trump à multidão que se manifestava em Washington horas antes do senador nomear Biden como presidente.

A irrupção violenta dos manifestantes no Capitólio, em um momento tão simbólico como o da ratificação de Biden, é um sério problema de segurança. O que aconteceu e o que fizeram Trump e sua equipe para evitar? Será preciso analisar atentamente essas perguntas e depurar responsabilidades, inclusive penitenciárias, pelo grave dano que esses fatos estão causando para a imagem dos EUA.

Finalmente, agora entendemos também o que significava quando Trump disse não estar “preparado para a derrota”. Agora sabemos até onde foi capaz. Um presidente que perdeu não só as eleições como também a prudência e a responsabilidade. Um triste final com sequelas perigosas para a governabilidade. Biden confirmou: “Isto não é um protesto, é uma insurreição”.

Antoni Gutiérrez-Rubi é assessor de comunicação.

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