Trump pressionou alto funcionário da Geórgia para reverter resultados eleitorais: “Só quero achar 11.780 votos”

Em uma gravação obtida pelo ‘The Washington Post’, presidente adverte ao secretário de Estado, o republicano Brad Raffensperger, de que pode estar “cometendo um delito”

(FILES) In this file photo US President Donald Trump speaks to reporters after participating in a Thanksgiving teleconference with members of the United States Military, at the White House in Washington, DC, on November 26, 2020. - President Donald Trump pressured the Georgia secretary of state in an extraordinary phone conversation Saturday to "find" enough votes to overturn Joe Biden's victory in the Southern state, news media reported on January 3, 2021. The secretly taped conversation with fellow Republican Brad Raffensperger, first reported by the Washington Post, includes threats that Raffensperger and another Georgia official could face "a big risk" if they failed to pursue his request. (Photo by ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP)
(FILES) In this file photo US President Donald Trump speaks to reporters after participating in a Thanksgiving teleconference with members of the United States Military, at the White House in Washington, DC, on November 26, 2020. - President Donald Trump pressured the Georgia secretary of state in an extraordinary phone conversation Saturday to "find" enough votes to overturn Joe Biden's victory in the Southern state, news media reported on January 3, 2021. The secretly taped conversation with fellow Republican Brad Raffensperger, first reported by the Washington Post, includes threats that Raffensperger and another Georgia official could face "a big risk" if they failed to pursue his request. (Photo by ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP)ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

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A cruzada sem precedentes do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para anular sua derrota nas urnas passou por um ponto sem retorno neste sábado, numa longa ligação telefônica em que ele pressionou o secretário de Estado da Geórgia, o republicano Brad Raffensperger, para que “encontrasse” os votos suficientes que revertessem a vitória eleitoral do democrata Joe Biden. Numa gravação obtida pelo jornal The Washington Post, com uma hora de duração, o mandatário adverte Raffensperger que este pode estar cometendo um “crime” por não atender aos seus pedidos. “Só quero achar 11.780 votos, que é um a mais do que temos. Porque ganhamos esse Estado”, afirma o magnata nova-iorquino, que continua em sua batalha contra o pleito, embora a Justiça tenha rechaçado suas acusações de fraude.

Biden, que assumirá a presidência em 20 de janeiro, venceu Trump no Estado da Geórgia por 11.779 votos, segundo a apuração ―realizada duas vezes― certificada pelo Estado. O presidente tentou anular esse resultado e o de outros Estados que foram fundamentais em sua derrota, como Arizona, Wisconsin, Pensilvânia e Michigan, mas bateu de frente contra os tribunais, incluindo a Suprema Corte, e contra o secretário de Justiça nomeado por ele mesmo, William Barr, que não encontrou irregularidades importantes o suficiente para mudar o resultado. Ainda assim, o presidente e seus acólitos mantêm uma ofensiva por terra, ar e mar para anular a vontade dos norte-americanos expressada nas urnas.

A tensão transmitida no telefonema deste sábado para alterar a contagem é desconcertante. “As pessoas da Geórgia estão com raiva, as pessoas do país estão com raiva [...] E não há nada de ruim em dizer isso, sabe? Acho que seus cálculos falharam”, diz Trump ao funcionário da Geórgia, segundo o trecho publicado pelo The Washington Post. Raffensperger responde: “Bem, senhor presidente, o desafio que o senhor enfrenta é que seus dados estão errados.” Em outro momento, o presidente faz uma ameaça velada. “Isso é um crime”, afirma, argumentando que foram destruídos milhares de votos trumpistas. “E você não pode deixar que isso aconteça. É um grande risco para você e seu advogado, Ryan [Germany, o advogado do secretário de Estado da Geórgia].”

A conversa reflete as pressões utilizadas pelo presidente dos Estados Unidos para submeter as autoridades eleitorais de seu próprio partido, que têm tido que defender a integridade do sistema eleitoral do país que se vangloria de ser a primeira democracia do mundo. Trump admitiu seu telefonema ao alto funcionário da Geórgia neste domingo em sua conta do Twitter e o acusou de “não ter nem ideia” e de não ser “capaz” ou não estar “disposto” a responder às suas perguntas a respeito da gestão das cédulas, sobre a qual a Justiça não detectou problemas.

A maioria dos republicanos, após semanas de conivência, já virou a página e reconheceu Biden como presidente eleito. A revelação desta ligação telefônica despertou críticas de figuras importantes do partido. O ex-presidente da Câmara de Representantes (deputados) Paul Ryan, que aparece muito pouco nos meios de comunicação, rompeu sua discrição com um comunicado em que denuncia: “É difícil conceber um ato mais antidemocrático e anticonservador que uma intervenção federal para reverter os resultados certificados pelos Estados e privar milhões de norte-americanos do direito ao voto.” O senador Mitt Romney (Utah), crítico habitual de Trump, afirmou que nunca poderia ter imaginado “que essas coisas acontecessem na maior democracia do mundo”.

A cruzada de Trump conta ainda com alguns apoios em Washington, que desejam fazer mais barulho até 20 de janeiro. Nesta quarta-feira, será realizada na capital uma sessão bicameral (do Senado e da Câmara de Representantes) para contar os votos eleitorais de Biden e confirmá-lo como vencedor das eleições presidenciais, último trâmite antes da sua posse. Cerca de uma dúzia de senadores e várias dezenas de deputados estudam apresentar objeções e, assim, forçar uma votação sobre o resultado, o que simplesmente atrasará e complicará a jornada. Trump, que continua acusando uma fraude eleitoral, convocou uma grande manifestação de seus seguidores para esse mesmo dia.

O polêmico telefonema veio à tona dois dias antes de uma eleição crucial para a era Biden que será realizada justamente na Geórgia. Democratas e republicanos disputam as duas cadeiras que correspondem a esse Estado no Senado e que decidirão o controle da Câmara Alta, fundamental para a margem de manobra na nova Administração de Trump.

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