Eleições EUA 2020

Trump recorre aos seus poderes presidenciais para tentar subverter as eleições dos EUA

O presidente americano tenta pressionar legisladores de Michigan para trair o voto popular. Maior parte dos políticos republicanos assiste à estratégia sem questionar o mandatário

O presidente Donald Trump escuta ligação telefônica em seu posto na Casa Branca.
O presidente Donald Trump escuta ligação telefônica em seu posto na Casa Branca.MANDEL NGAN / AFP

Donald Trump e seus aliados mergulharam em um território alarmante e desconhecido. O que eles fazem agora não é apenas contestar a apuração das eleições presidenciais dos EUA, mas também tentar subverter o processo utilizando o poder da Casa Branca. Praticamente esgotada a via judicial e certificada na sexta-feira a vitória de Joe Biden na Geórgia, Trump orquestra uma campanha de pressão para persuadir as autoridades republicanas dos Estados onde perdeu a reverterem o voto popular. Uma tentativa sem precedentes de forçar uma manipulação do sistema.

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Numa iniciativa absolutamente insólita, o presidente convocou para uma reunião na Casa Branca na sexta-feira uma delegação de legisladores estatais de Michigan, Estado em que Biden se impôs nas urnas. A ideia, segundo fontes citadas por diversos jornais da imprensa americana, era pressionar diretamente os legisladores republicanos ―que têm maioria num Estado com governadora democrata― a subverterem o resultado do pleito. A tentativa terminou em um novo fracasso para Trump. Os congressistas republicanos de Michigan disseram, após a reunião, que não tinham conhecimento “de nenhuma informação que pudesse mudar o resultado das eleições de Michigan”, informou a rede NBC. Afirmaram que continuarão com “o processo normal” de certificação dos votos.



Em outra guinada de um roteiro não menos surreal, também na sexta a Geórgia certificou a vitória de Biden no Estado. Na sequência, fez uma retificação, ao dizer que um funcionário havia se precipitado ao enviar o comunicado. Pouco depois, as autoridades estaduais voltaram atrás novamente e certificaram, agora sim, o resultado: após uma nova apuração manual dos cerca de cinco milhões de votos ―a maior recontagem da história do país ―, foi corroborado que o presidente eleito Joe Biden ganhou nesse território por mais de 12.000 votos, uma variação de 0,0099% em relação à contagem original.

Dano colossal

Com a confirmação da Geórgia, a possibilidade de contestar os resultados dos votos da eleição 3 de novembro desaparece para Trump. Praticamente descartada a via matemática, a Casa Branca colocou em marcha uma nova fase em sua estratégia de deslegitimar as eleições. Uma ofensiva de uma audácia sem precedentes, cujas chances de sucesso são mínimas e cujo potencial de dano à democracia é colossal.

Os Estados votam no presidente através de uma lista de eleitores reunidos no Colégio Eleitoral e que representam o voto cidadão. De acordo com o resultado, Biden tem 306 desses eleitores e Trump, 232. O mandatário parece apostar na ideia de que os resultados não sejam certificados e que o Legislativo apresente sua própria lista. Em parte, ele já conseguiu o primeiro passo, quando dois membros republicanos da junta de certificação dos resultados em Michigan se negaram a assinar os resultados. Trump ligou pessoalmente para ao menos um deles.

Ou seja: o presidente parece explorar a possibilidade de que os legisladores republicanos de Michigan subvertam o voto de seus cidadãos e apresentem eleitores que votem nele. Embora seja uma teoria muito difícil de colocar em prática, já que essas listas precisam passar pelo filtro dos governadores e da Câmara de Representantes (deputados), trata-se de um ataque ao processo eleitoral sem precedentes por parte do presidente dos EUA.

Alterar o resultado em Michigan, contudo, não seria suficiente para Trump se proclamar presidente eleito. Ele precisaria pressionar pelo menos outros dois Estados para que também virassem as costas aos eleitores e o apoiassem. Os dois candidatos mais lógicos seriam Geórgia e Arizona, ambos com governadores e câmaras legislativas republicanos. Mas a possibilidade de que as autoridades de três Estados decidam ignorar o voto de seus cidadãos, e que o Congresso tolere isso, parece remota.

Sem questionamento

Acontece que os líderes republicanos, até o momento, assistem ao espetáculo sem questionar. Apenas alguns rebeldes habituais, como o senador e ex-candidato presidencial Mitt Romney, denunciaram publicamente os rumos autoritários. “Tendo falhado em apresentar um caso plausível de fraude ou conspiração perante qualquer tribunal, o presidente recorre agora à pressão aberta para que as autoridades estatais e locais subvertam a vontade do povo e anulem a eleição. É difícil imaginar uma ação pior e mais antidemocrática de um presidente dos EUA em exercício”, afirmou.

Trump conta com pouco tempo para concluir a ofensiva. A data-limite para a resolução de qualquer disputa em torno das listas de eleitores é o próximo 8 de dezembro, e a maioria dos Estados onde ele precisaria vencer Biden deve certificar seus votos no início da próxima semana. O Colégio Eleitoral se reunirá em 14 de dezembro para eleger Joe Biden presidente dos EUA. O democrata assumirá o cargo em 20 de janeiro.

“Estou convencido de que ele sabe que não ganhou”, disse o presidente eleito Biden na quinta-feira. “É intolerável o que está fazendo”, acrescentou, lamentando “as mensagens prejudiciais que estão enviando ao resto do mundo sobre como funciona a democracia”.

Outra manobra que pode influir no processo seria que a campanha de Trump pedisse uma terceira contagem manual, antes da próxima terça, o que obrigaria um novo escrutínio de todas as cédulas. O advogado de Trump, Rudy Giuliani, numa disparatada coletiva na quinta-feira, afirmou que tem a intenção de apresentar ações judiciais na Geórgia e em outros Estados, sem explicar os fundamentos. Falou de “fraude maciça”, sem provas, e acusou os democratas de “roubarem as eleições ao povo americano”, embora dias antes, ao comparecer sob juramento a um tribunal, ele tenha dito expressamente que não estava ali para denunciar nenhuma fraude.

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