Eleições EUA 2020

Trump larga em vantagem nos Estados-chave que decidirão disputa com Biden

Presidente abre vantagem na Flórida e em Ohio, enquanto a Pensilvânia e Arizona se inclinam a favor de Biden, segundo os resultados preliminares

Apoiadores de Trump e se confrontam fora de um local de votação em Houston, Texas, nesta terça-feira.
Apoiadores de Trump e se confrontam fora de um local de votação em Houston, Texas, nesta terça-feira.GO NAKAMURA / Reuters
El Paso (Texas) / Cidade do México - 04 nov 2020 - 07:59 UTC

Todos os olhares na noite eleitoral estão voltados para um punhado de Estados onde Joe Biden e Donald Trump disputam praticamente voto a voto. Em alguns o republicano abre vantagem, como na Flórida, e a batalha será resolvida na Pensilvânia e no Arizona, além de Michigan e Wisconsin. Ohio, que sempre costuma votar no candidato que acaba sendo eleito, era uma moeda no ar até os republicanos garantirem seus votos eleitorais.

Na falta dos resultados definitivos, todos os olhos estão postos nestes territórios com prognóstico em aberto. São cruciais porque têm muitos votos, estão mais polarizados que o resto, não estão completamente atados a uma tradição partidária e podem proporcionar a chave do êxito para alcançar os 270 votos necessários que um candidato precisa reunir no Colégio Eleitoral para se tornar o presidente dos Estados Unidos.

Flórida, uma vitória apertada para Trump

As apurações preliminares prenunciam uma disputa muito acirrada, que começou com Joe Biden à frente, até a virada de Donald Trump na reta final, com uma vantagem de mais de 200.000 votos, segundo a última totalização. O presidente desponta como ganhador no Estado, o terceiro com a maior quantidade de votos eleitorais (29) e o maior entre os considerados Estados-pêndulos, ou seja, aqueles suscetíveis de mudar de cor de uma eleição para outra.

Nas últimas quatro votações presidenciais, o candidato mais votado na Flórida foi eleito para a Casa Branca, e por isso ambos os candidatos voltaram várias vezes ao Estado durante a campanha. As comunidades latinas, cujos votos são decisivos, foram submetidas a intensas campanhas de desinformação. Na noite de segunda, a média das pesquisas dava uma ligeira vantagem ao candidato democrata: 48% a 46% (a diferença havia oscilado entre 1 e 3 pontos percentuais nas últimas semanas). Os ânimos mudaram com o fechamento das urnas, e nas ruas de Miami os seguidores de Trump já comemoravam a vitória, antes mesmo dos resultados definitivos.

Pensilvânia, o foco das preocupações

A Pensilvânia vem logo atrás da Flórida em importância como campo de batalha. Historicamente, conseguir seus 20 votos no Colégio Eleitoral era uma tarefa relativamente simples para os candidatos democratas. Nas últimas sete eleições, desde 1992, tinha sido um Estado azul. Mas em 2016 Donald Trump conseguiu ali uma de suas mais relevantes vitórias da noite eleitoral frente a Hillary Clinton, embora por menos de um ponto de diferença. Hoje as coisas estão apertadas entre os candidatos. As pesquisas põem Biden ligeiramente à frente no seu Estado natal, com uma diferença de 2,5% (49,3% x 46,8%), mas Trump focou grande parte de seu esforço final ali para obter a que seria uma das surpresas da noite.

Além da batalha eleitoral, a Pensilvânia foi também foco de uma disputa judicial pela apuração das cédulas. À demora natural na totalização de uma quantidade inédita de milhões de votos por correio neste ano ―e aqui as leis estabelecem que só podem começar a ser apurados após o fechamentos das urnas―, o Estado contempla um prazo de até três dias para receber votos que ainda cheguem pela via postal, desde que tenham sido selados até esta terça. Isso significa que, se os resultados desta noite acabarem sendo muito ajustados, terá início um prazo de incerteza ―que poderia se prolongar até sexta-feira― em que todas as expectativas estarão voltadas para a apuração final da Pensilvânia.

Ohio, a cobiçada bússola do ganhador

Com três quartas partes dos votos apurados, Ohio começou a se pintar de vermelho. Trump tem uma vantagem de aproximadamente 5 pontos percentuais sobre Biden, mas nenhum meio de comunicação norte-americano se sentia à vontade para apresentar uma projeção sobre quem será o ganhador, até a CNN fazê-lo no início da madrugada. O democrata começou em vantagem graças aos votos emitidos por correio, mas não conseguiu mantê-la. Com 18 votos eleitorais, é o terceiro Estado pendular com maior quantidade de eleitores. Em 2016, o voto republicano de condados semirrurais em Estados como Ohio e Iowa ―somado ao de zonas com passado industrial e hoje em decadência, como Pensilvânia e Wisconsin― rendeu os maiores avanços ao Partido Republicano com relação a 2012. Nestas eleições, Joe Biden era favorito ali até setembro, mas agora o presidente lidera nas pesquisas e pode repetir o feito de 2016. A mística de Ohio é que sempre consegue predizer o ganhador, uma coincidência que pode se romper em uma das eleições mais atípicas e incertas da história.

Geórgia, oxigênio para Trump

A Geórgia tem 16 votos eleitorais e é considerada, junto com Ohio, um dos Estados que pode dar um balão de oxigênio ao atual mandatário. Uma vitória de Biden foi descrita como uma possibilidade remota, mas os votos que conseguiu arrancar provocaram um efeito de arrasto para candidatos democratas ao Legislativo. Embora as pesquisas mostrassem um empate, a balança se inclina em favor do republicano, já que a Geórgia não vota num presidente democrata desde 1992. Trump chegou a reivindicar a vitória no Estado, mas o fato é que a distância entre ele e Biden diminuía ao longo da apuração dos votos.

Carolina do Norte: 60.000 votos separam os candidatos

Na Carolina do Norte, que representa 15 votos do Colégio Eleitoral e onde já foram apurados 93% dos votos, Trump supera Biden por pouco mais de 60.000 votos. Ambos estão quase em um empate técnico, embora as pesquisas antecipem uma vitória democrata: 49% para Biden contra 47% para Trump, de acordo com as pesquisa da CNN. O Estado, tradicionalmente republicano, ajudou a eleger Trump em 2016. Mas uma vitória de Biden ali não é improvável. Em 2008, como candidato a vice-presidente, ajudou Barack Obama a marcar esse tento, quando o democrata se impôs a John McCain por 0,3% ponto percentual. Voltar ao azul seria um golpe que deixaria Trump quase fora de combate na noite eleitoral.

Trump se aferra a Wisconsin

A apuração em Wisconsin avança um pouco mais lenta que nos outros Estados. Trump tem uma ligeira vantagem de quase 3%, de acordo com resultados preliminares. Foram apurados apenas cerca de 30% dos votos emitidos. Wisconsin tem 10 representantes. Trump ficou com eles em 2016 por menos de 30.000 votos de diferença. Seu eleitorado tinha vivido no bolso democrata até que as classes trabalhadoras desta região do Meio Oeste encontraram em Trump uma figura na qual despejar seu desencanto. Antes do triunfo do ex-apresentador do programa O Aprendiz, era preciso remontar a Ronald Reagan para encontrar outro republicano ganhador no Estado. Biden ainda continua na briga por recuperar um velho bastião democrata.

Arizona, um Estado vermelho que pouco a pouco se tinge de azul

Biden avançou pouco a pouco e já tem uma vantagem ampla de quase 8 pontos sobre Trump no Arizona, de acordo com os primeiros resultados. A maior parte da imprensa norte-americana ainda não se dispôs a dar o democrata como ganhador definitivo, mesmo com mais de 75% dos votos apurados―apenas a Fox News o fez, e sob críticas dos reprublicanos. A batalha pela fronteira é uma das mais gélidas. O Arizona, que tem 11 votos eleitorais, era uma vitória segura para Biden em meados de setembro. A diferença nas pesquisas caiu até chegar ao dia da eleição em situação de empate. Há quatro anos Trump ganhou ali, mas hoje uma aliança conservadora pode dar as costas ao presidente.

Texas, a surpresa que mantém o sul em vigília

Biden conseguiu entrar na batalha para ganhar o Texas e seus 38 votos eleitorais, mas uma vitória para o democrata seria uma das maiores surpresas da noite. Com mais de 75% dos votos apurados, Biden está a menos de 2 pontos percentuais de arrebatar o triunfo de Trump. Há algumas semanas ninguém olhava para o segundo Estado mais populoso dos EUA, porque era dado como certo que votaria no republicano, como faz desde 1980. Algo mudou. Os analistas o consideram hoje um Estado toss up, em aberto. A maioria das pesquisas favorecia Trump sobre Biden. Há quatro anos, o republicano tinha ali uma vantagem de 11 pontos. Agora, é inferior a dois. A última palavra será da comunidade latina.

A apuração

A eleição desta terça-feira é complexa. O alto número de votos recebidos antes da jornada eleitoral e as leis de cada um dos 50 Estados tornam impossível prever o desenrolar da noite. A Flórida, por exemplo, já havia começado a apurar os mais de nove milhões de votos antecipados, que representam 95% dos votos totais dados no Estado em 2016. O mesmo ocorre no Arizona, Carolina do Norte e nas grandes cidades de Michigan.

Há outras regiões que só começariam a apurar os votos antecipados depois do fechamento das seções de votação, entre as 19h e 20h na maioria dos Estados (hora local), ou inclusive depois de contar os emitidos nesta terça. Os decisivos Wisconsin e Pensilvânia estão neste caso. Isto tornava improvável uma vitória de Biden em questão de poucas horas, a menos que o democrata conseguisse triunfos determinantes na Flórida ou Texas. Há quatro anos, a estocada final foi dada por 80.000 votos na Pensilvânia, Wisconsin e Michigan. Os dados foram anunciados na ocasião com bastante prontidão, mas neste ano tudo será diferente pela quantidade de cédulas a apurar.

Quase metade dos Estados anunciou que validará os votos postais que cheguem após a terça-feira, desde que tenham carimbo de postagem até 3 de novembro. Isto pode retardar ainda mais os resultados. Por exemplo, a Carolina do Norte (15 votos), um dos Estados mais disputados, terá 80% dos votos apurados depois do fechamento das urnas. As vitórias precisariam ser suficientemente amplas para não ter que esperar a apuração o último voto postal.

Há quatro anos, Hillary Clinton reconheceu sua derrota por volta de 2h30 da madrugada (hora de Washington, 4h30 em Brasília). Uma hora antes, já era claramente considerada a perdedora. Neste ano, uma recusa dos resultados por parte de Trump poderia atrasar o ritual da vitória e gerar mais confusão sobre o processo. Biden falou no início da madrugada para dizer que “não cabe a mim nem a Donald Trump dizer quem ganhou, é uma decisão do povo americano”.

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