Pandemia de coronavírus

Velório de tio de Piñera, morto com coronavírus, abre crise política no Chile

Presidente é acusado pela oposição de violar o protocolo da quarentena para se despedir do sacerdote Bernardino Piñera, de 104 anos. Ministério Público vai investigar caso

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, em 9 de junho.
O presidente do Chile, Sebastián Piñera, em 9 de junho. / Europa Press

Em plena crise do coronavírus no Chile, com 4.502 mortos confirmados de covid-19, o funeral de um tio do presidente Sebastián Piñera gerou um insólito debate sobre as normas dos sepultamentos em tempos de pandemia. Como mostra o vídeo do velório e enterro do sacerdote Bernardino Piñera (de 104 anos), realizado no domingo e divulgado pelo próprio cemitério, uma integrante da família presidencial abre a tampa superior de madeira de um ataúde com vidro lacrado. O religioso havia sido diagnosticado com o vírus em 26 de maio. A polêmica obrigou membros do Governo a darem explicações sobre o ocorrido, e um deputado da oposição, o democrata-cristão Gabriel Ascencio, denunciou eventuais descumprimentos dos protocolos, o que será investigado pelo Ministério Público.

De acordo com as imagens divulgadas pelo cemitério em um canal do YouTube, e que depois foram retiradas, uma mulher anuncia: “Sebastián quer vê-lo”. Alguns dos presentes respondem que “não se pode abrir” o caixão, entre eles um primo do presidente, o ex-ministro do Interior Andrés Chadwick, que não se move do seu lugar. Finalmente, apesar das advertências, a mesma mulher abre a tampa —“Veja-o, veja-o”, ouve-se— e o chefe de Estado chileno, de máscara, se aproxima para observar. Outro dos presentes se queixa: “São teimosos”.

“Não é casualidade que tenha morrido no Dia dos Pais [no Chile e outros países] e vítima de uma doença que tem causado tanta dor e sofrimento a tantas famílias chilenas”, afirmou o presidente no discurso de despedida ao tio.

Paula Daza, subsecretária de Saúde pública do Governo, precisou abordar o episódio duas vezes. Em sua entrevista coletiva diária para informar sobre o avanço da epidemia —que já deixou 246.963 contagiados—, foi perguntada sobre o assunto e afirmou: “Devido às perguntas que ocorreram com relação ao funeral de dom Bernardino Piñera, quero dizer que a família está passando por momentos difíceis, por isso não nos parece adequado este tipo de comentários. Cumpriu-se 100% o protocolo para poder assistir a um funeral”, afirmou Daza. O Ministério da Saúde falou por sua vez em “instrumentalização” do episódio, em referência à denúncia do deputado Ascencio.

O sacerdote Piñera foi diagnosticado com a covid-19 em 26 de maio e em 13 de junho saiu da clínica e voltou a um asilo onde, por segurança, permaneceu isolado e sob observação médica, de acordo com o Executivo chileno. Durante o tratamento não precisou de ventilador mecânico. Por causa da idade avançada, entretanto, não se recuperou e morreu na manhã de domingo, quase um mês depois do diagnóstico.

Segundo a versão oficial, o velório respeitou as normas sanitárias de distanciamento social e participação inferior a 20 pessoas, como determina o protocolo de funerais da subsecretaria de Saúde para a pandemia, embora no vídeo apareçam pelo menos mais 11 pessoas, entre sacerdotes, músicos e fotógrafos. O Palácio de la Moneda, sede da presidência, informou que o caixão estava lacrado e que, mesmo que a tampa tenha sido aberta, não houve violação das normas, pois o vidro protegeria seu hermetismo.

A morte do sacerdote Bernardino Piñera provocou reações de dirigentes de diferentes tendências políticas. O ex-presidente socialista Ricardo Lagos (2000-2006) disse que “com a partida de monsenhor Bernardino Piñera se vai um grande que honrou a Igreja Católica. Seu extenso caminho apostólico sempre esteve do lado dos mais necessitados e marcou a vida de muitos. Seus ensinamentos ficarão como uma fonte de inspiração para todos os chilenos”.

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