Oriente Médio

Trump apresenta plano de paz que respalda os interesses-chave de Israel

Batizada de ‘Acordo do Século’, proposta já nasce marcada pela rejeição dos dirigentes palestinos

Donald Trump e Benjamin Netanyahu, nesta terça-feira na Casa Branca.
Donald Trump e Benjamin Netanyahu, nesta terça-feira na Casa Branca.JOSHUA ROBERTS / Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou nesta terça-feira na Casa Branca o chamado Acordo do Século para o Oriente Médio, um nome grandiloquente para um plano de paz que nasce ferido de morte, apesar de ter passado quase três anos em elaboração. A proposta concede a Israel boa parte de suas aspirações históricas, enquanto oferece às autoridades palestinas um itinerário rumo a um Estado próprio, mas sujeito a tantos condicionantes que tornam seu cumprimento improvável. Que Trump tenha apresentado a proposta na companhia de apenas uma das partes, o exultante primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, já dá conta do voo galináceo que aguarda o projeto.

"Hoje Israel dá um grande passo em direção à paz", disse Trump da Sala Leste da Casa Branca. Esta é, disse ele, "uma oportunidade para ambas as partes vencerem, uma solução realista de dois estados que resolve o risco do Estado palestino para a segurança de Israel", enfatizou.

O plano forjado por Washington mais do que duplica o território sob controle palestino e congela durante quatro anos a construção de novos assentamentos, mas exige das autoridades palestinas o reconhecimento de Jerusalém como capital indivisível de Israel e descarta o desmantelamento dos assentamentos já existentes, dois pontos que complicam o aval de Abbas, o presidente da Autoridade Palestina.

A proposta congela por quatro anos a construção de novos assentamentos, a fim de permitir a solução dos “dois Estados”, mas pede às autoridades palestinas que reconheçam Jerusalém como a única capital de Israel, descartando o desmantelamento dos assentamentos existentes. e estabelece a consideração de Israel como um estado judeu, três pontos que complicam a aprovação do presidente palestino, Mahmoud Abbas.

A proposta inclui uma chuva de 50 bilhões de dólares (cerca de 200 bilhões de reais) em investimentos por 10 anos para promover a prosperidade, mas isso não basta para convencer as autoridades palestinas. Metade seria, em princípio, para Gaza, Cisjordânia e países vizinhos como Jordânia e Egito.

“Presidente Abbas, se aceitarem este caminho para a paz, os Estados Unidos e muitos outros países estaremos lá para ajudá-los”, disse Trump na Casa Branca, depois de admitir que sua Administração tinha sido muito favorável a Israel, mas que agora seu desejo é de que seja “muito boa também para os palestinos”.

“Faz muitos, muitos anos, décadas e séculos, que procuramos a paz no Oriente Médio. E esta é uma oportunidade”, enfatizou Trump após receber Netanyahu, assim como seu principal opositor dem Israel, o centrista Benny Gantz. “É o mais perto que já estivemos de um acordo”, acrescentou o republicano.

Jerusalém, onde culturas e crenças se misturam, é o coração do conflito na Terra Santa. No plano de partição original da Palestina, sob mandato britânico aprovado pela ONU em 1947, um estatuto internacional foi reservado, além dos planejados estados judaico e árabe. Mas foi dividido pela força de armas em 1949, com o setor oriental sob controle da Jordânia, e ocupado inteiramente por Israel na Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. Um terço de seus 900.000 habitantes são palestinos, com o direito de residência, mas sem nacionalidade em sua cidade natal. O Acordo do século parece apontar para um retorno à Autoridade Palestina de vários distritos no leste e norte que somam 100.000 vizinhos, separados de fato por 15 anos pelo muro de separação erguido pelo Exército após a explosão da violência no país na Segunda Intifada.

Os palestinos sempre exigiram retornar às fronteiras de 1967, o que implicaria estabelecer a capital de seu futuro Estado em Jerusalém Oriental, onde o recinto amuralhado da Cidade Velha está incluído nos lugares sagrados do cristianismo, judaísmo e islamismo. Em todos os planos de paz anteriores, os mediadores preferiram adiar o estatuto final da Cidade Santa até que um acordo definitivo entre israelenses e palestinos fosse alcançado. Trump encerrou o consenso internacional em 2017 com uma declaração reconhecendo Jerusalém como a capital de Israel. Desde então, todas as pontes entre a Casa Branca e a Autoridade Palestina estão quebradas e nesta terça-feira o americano colocou um novo prego no caixão.

Para Trump, a apresentação de um plano tão ambicioso como este representa uma espécie de chave de ouro para seus últimos movimentos na política externa. Nas últimas semanas, conseguiu que o Congresso aprove a reformulação do acordo comercial com o México e o Canadá, assinou um princípio de acordo com a China para deixar para trás a guerra comercial e assassinou um poderoso general iraniano acusado por Washington de colaboração com o terrorismo, Qasem Soleimani, sem que a operação tenha desembocado, ao menos até agora, numa escalada bélica. Tudo isso num momento mais do que complicado na política nacional, em pleno julgamento do impeachment pelo escândalo das pressões sobre a Ucrânia.

Também a Netanyahu a proposta é útil, pois ele já foi indiciado em três casos de corrupção e disputa uma nova eleição no mês que vem. Na terça-feira, o procurador-geral de Israel solicitou que o primeiro-ministro seja levado a julgamento por corrupção. Na Washington de Trump, ele encontrou um firme aliado, começando pelo fato de que a pessoa a quem o republicano confiou esse espinhoso assunto não é outro senão Jared Kushner, genro do presidente e amigo pessoal de Netanyahu.

Este, como se participasse de um comício eleitoral, prometeu que a absorção do estratégico Vale do Jordão e dos assentamentos afetaria 40% da Cisjordânia, em um corte que ameaça a viabilidade, devido à falta de continuidade territorial, do futuro Estado Palestino. Será o caso da área conhecida como E-1, entre Maale Adumin e Jerusalém, cuja anexação praticamente dividirá a Cisjordânia entre o norte e o sul, por meio dos bantustões do apartheid da África do Sul. “Isso nos dará uma fronteira oriental permanente para nos defendermos”, disse Netanyahu.

A solução “realista” dos dois Estados, mas com menos de um Estado, oferecida por Trump aos palestinos em uma carta enviada ao presidente Mahmoud Abbas justifica-se apenas em uma enorme injeção de fundos internacionais em Gaza e na Cisjordânia, mas não garante uma solução política duradoura para um conflito que passa dos 70 anos.

Para os milhões de refugiados palestinos, dos quais pelo menos cinco milhões são supervisionados por uma agência da ONU para subsistir, o primeiro-ministro israelense declarou apenas que seu problema “deve ser resolvido fora do Estado de Israel”, excluindo assim qualquer perspectiva do direito de retornar às casas e terras que possuíam em 1948. Seu destino parece permanecer, até agora, nas mãos da comunidade internacional, dos países vizinhos e da compensação econômica que poderiam receber em troca de renunciar ao seu passado.

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