EUA retiram embaixador e equipe diplomática de sua Embaixada em Bagdá após ataque

Milhares de pessoas se manifestam diante da embaixada norte-americana para condenar o bombardeio dos EUA que causou 25 mortes no domingo

Grupo de milicianos põe fogo na Embaixada dos EUA em Bagdá.
Grupo de milicianos põe fogo na Embaixada dos EUA em Bagdá.THAIER AL-SUDANI / Reuters
Pablo Guimón|Agencias
Washington / Bagdá - 31 dic 2019 - 15:51 UTC

Aos gritos de “morte à América”, milhares de manifestantes e milicianos atacaram nesta terça-feira a Embaixada dos EUA em Bagdá para condenar o bombardeio norte-americano, na fronteira sírio-iraquiana, contra uma facção pró-iraniana que Washington acusa de prejudicar repetidamente os interesses dos EUA no Iraque. Os ataques aéreos mataram pelo menos 25 combatentes iraquianos mortos e feriram 51 na noite de domingo e também provocaram uma onda de indignação no Iraque que deixou em segundo plano a rebelião espontânea contra a classe política e seu principal mentor, o Irã, reavivando também o sentimento contrário à presença dos norte-americanos no país.

Os manifestantes não entraram nos principais edifícios da Embaixada, mas cruzaram por curto período os postos de controle que normalmente restringem o acesso à zona verde, de alta segurança, onde está localizada a legação diplomática. Jogaram pedras e objetos, e ameaçam acampar indefinidamente junto ao perímetro do complexo. Eles também queimaram bandeiras norte-americanas e arrancaram câmeras de vigilância, depois que as forças especiais de segurança do Iraque se posicionaram em frente às portas do edifício para impedir a entrada. O embaixador e parte do pessoal diplomático foram retirados da embaixada, explicaram dois funcionários do Ministério das Relações Exteriores do Iraque à agência Reuters. Dentro do edifício, de acordo com uma fonte oficial, permanecem membros da equipe de segurança.

O presidente dos EUA, Donald Trump, reagiu com fúria ao ataque, acusando o Irã de orquestrar a invasão e instando o Iraque a proteger a embaixada. “O Irã matou um empreiteiro dos EUA e feriu vários. Nós respondemos com força, e assim faremos sempre. Agora o Irã está orquestrando um ataque à Embaixada dos EUA no Iraque. Nós responderemos plenamente a isso. Além disso, esperamos que o Iraque use suas forças para proteger a embaixada e nós já o notificamos sobre isso”, tuitou o presidente de sua residência de férias em Mar-a-Lago, na Flórida.

Ao entrar nas instalações da sede diplomática, os manifestantes queimaram parte do muro que a rodeia, além de algumas cabines e torres de vigilância. Irromperam em uma área de recepção, derrubando portas fortificadas e janelas blindadas, segundo The Washington Post, e lhes atearam fogo. Os guardas de segurança estavam tentando dispersar os manifestantes com gás lacrimogêneo, de acordo com um fotógrafo da Efe e relatos da Reuters. Além disso, o pessoal de segurança da legação lançou granadas de efeito moral para tentar dispersar os manifestantes, segundo a Reuters. É possível ver soldados dos EUA no terraço do recinto e áreas próximas, informou a Associated Press, mas eles não dispararam.

Os manifestantes vestem o uniforme de combatentes das Forças de Mobilização Popular (FMP), uma coalizão de paramilitares dominada por facções xiitas pró-iranianas às quais pertencem as Brigadas do Hezbollah, a facção atacada nos bombardeios dos EUA no domingo. O líder das FMP –também conhecidas como Hashd Al Shaabi–, Qais al-Khazali, e outros chefes milicianos se juntaram a essa mobilização, na qual tremulam bandeiras das Brigadas do Hezbollah como um gesto de apoio a esse partido-milícia, considerado uma organização terrorista pela UE e pelos Estados Unidos. "Os americanos não são bem-vindos no Iraque. Eles são uma fonte do mal e queremos que vão embora”, disse al-Khazali à Reuters. As FMP são uma coalizão de milícias –muitas delas apoiadas pelo Irã– formada para lutar contra o Estado Islâmico e agora integradas às forças de segurança iraquianas.

Na manifestação, havia faixas que diziam "O Parlamento tem que expulsar as tropas dos EUA, caso contrário nós as expulsaremos" ou "Fechem a embaixada dos EUA em Bagdá". Os manifestantes entoavam cânticos como "os Estados Unidos são o grande Satanás" ou "não, não à América! Não, não a Trump!" .A manifestação também contou com a presença do número dois das FMP, Yamal Yaafar Ibrahimi, conhecido como Abu Mahdi al Muhandis, segundo a Reuters.

Os incidentes desencadeados depois dos bombardeios norte-americanos constituem a crise política mais grave nos últimos anos para os Estados Unidos no Iraque e representam um grande revés nas relações entre Washington e Bagdá, e ameaçam minar o poder dos EUA na região. É o que indica a irada reação do Governo iraquiano ao ataque dos EUA e a aparente decisão, pelo menos tácita, de permitir o acesso dos manifestantes à área mais protegida da capital. As forças de segurança iraquianas não impediram que os atacantes entrassem na zona fortificada depois do funeral dos mortos no ataque norte-americano, deixando-os passar por um posto de controle.

Os atentados, que os EUA ordenaram em retaliação pela morte de um prestador de serviços norte-americano na semana passada, em um ataque com foguete contra uma base no Iraque, instigaram o sentimento anti-EUA. A ação que resultou na morte do empreiteiro não foi reivindicada por nenhuma milícia, mas os Estados Unidos, que já haviam sofrido vários ataques contra seus interesses em Bagdá, pelos quais prometeram uma resposta dura, culparam a facção das Brigadas do Hezbollah. A escala da resposta dos EUA –cinco bombardeios no Iraque e na Síria, com 25 mortos e meia centena de feridos– provocou condenação quase unânime no Iraque.

As autoridades políticas e religiosas condenaram os bombardeios, que descreveram como “violação da soberania iraquiana”. O proeminente clérigo xiita Muqtada al Sadr disse na segunda-feira em um comunicado que está disposto a “expulsar” os EUA do Iraque “por meios políticos e legais” e, para isso, pediu colaboração entre instituições e partidos políticos.

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