Parlamento do Iraque aceita renúncia do primeiro-ministro após dois meses de protestos

Províncias sunitas se solidarizam com o dia de luto pelas 400 mortes causadas pela repressão policial

O primeiro-ministro do Iraque, Adel Abdul Mahdi, em abril.
O primeiro-ministro do Iraque, Adel Abdul Mahdi, em abril.

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O Parlamento do Iraque aceitou neste domingo a renúncia do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi e seu Governo. A inusitada renúncia de Abdul Mahdi, sem precedentes na incipiente democracia iraquiana, não é suficiente para acabar com os protestos contra a corrupção do sistema político, que entraram neste domingo no terceiro mês. Foi isso que deixaram claro os manifestantes, cujo luto pelas vítimas da repressão policial gerou apoio nas províncias de maioria sunita, que até agora tinham se mantido à margem da revolta.

“Depois de Abdul Mahdi, fora com o Parlamento, os partidos políticos e o Irã”, continuam gritando em coro os iraquianos que, depois das últimas mortes, transformaram os protestos em cortejos fúnebres em memória dos caídos, a quem se referem como “mártires”.

Abdul Mahdi anunciou sua renúncia na sexta-feira, depois que a máxima autoridade religiosa xiita, o grão-aiatolá Ali Sistani, conclamou a Assembleia Nacional a reconsiderar seu apoio ao Governo. O dia anterior havia sido um dos mais sangrentos desde que começaram, em 1º de outubro, as manifestações populares contra o regime de 2003, o sistema de divisão de poder confessional que foi instaurado pelos Estados Unidos depois da derrubada de Saddam Hussein e agora é controlado pelo Irã. Pelo menos 65 pessoas morreram naquela quinta-feira. O número total chega a cerca de 400 mortos e 15.000 feridos.

A gravidade dos acontecimentos de quinta-feira levou vários chefes tribais a mobilizar suas forças para impedir que as forças de segurança e as milícias enviassem reforços para Nassíria e Najaf, as duas cidades onde se ocorreram os incidentes mais graves. Em um gesto ainda mais significativo, que pode ser decisivo para a evolução da crise atual, começam a surgir demonstrações de apoio aos manifestantes nas regiões de maioria sunita.

O elo mais frágil

O primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi (Bagdá, 1942) era o elo mais fraco do sistema político contra o qual se manifestam dezenas de milhares de iraquianos. Sem um partido e sem base popular, chegou ao poder há 13 meses, por meio de um acordo entre as duas forças mais votadas nas últimas eleições, o Sairun (movimento sadrista) e a Aliança da Conquista (Fatah).

Depois de ter feito oposição a Saddam e trabalhado em vários Executivos posteriores à sua derrubada, Abdul Mahdi tinha abandonado a militância política ativa e era visto como um homem de diálogo capaz de construir pontes com o Irã, os EUA e os curdos, embora seus críticos o taxassem de vira-casaca em busca do poder. Esse economista doutorado na França, que também se expressa com fluência em inglês, deveria administrar o dia-a-dia do Governo, depois da expulsão do Estado Islâmico. Até que surgiram os protestos.

Centenas de estudantes vestidos de preto desfilaram neste domingo em Mossul, no norte do país, informou a agência France Presse. Trata-se de uma demonstração de solidariedade com o dia de luto declarado nas oito províncias ao sul de Bagdá, que são habitadas majoritariamente por xiitas e nas quais, juntamente com a capital, têm se concentrado os protestos.

Na sexta-feira, a província de Saladino também declarou três dias de luto.

Até agora, as áreas de população sunita, libertadas do Estado Islâmico há dois anos, vinham se mantendo à margem da revolta popular. Embora os habitantes dessas áreas tenham os mesmos problemas que revoltam o sul, o medo de ser taxados de simpatizantes desse grupo ou de nostálgicos de Saddam os fazia ser prudentes. Também pesava a violenta repressão com que se depararam quando se manifestaram em 2013, durante a Primavera Árabe.

Outro elemento que deve reforçar a confiança dos manifestantes é a condenação à morte de um oficial de polícia por ter matado dois manifestantes em Kut, 175 quilômetros a sudeste de Bagdá. É a primeira punição imposta depois que um relatório oficial reconheceu, em meados de outubro, o “uso excessivo da força” em alguns lugares. Já na sexta-feira as autoridades destituíram o general Jamil al-Shamari, enviado por Abdul Mahdi para reprimir os protestos em Nassíria, cuja atuação desencadeou a matança que se tornou um ponto de inflexão da crise.

O presidente do Parlamento, Mohamed al Halbusi, anunciou que vai comunicar a renúncia de Abdul Mahdi ao presidente do país, Barham Salih, para que este nomeie um novo primeiro-ministro. De acordo com a Constituição, o chefe de Estado deve pedir ao maior bloco da Câmara que proponha um candidato. Enquanto isso, o atual Governo permanece no cargo. Mas sob a aparência de normalidade institucional se abre um período de incerteza política tanto pela novidade do processo como, principalmente, pela falta de credibilidade da elite política, cuja renovação total é exigida pelos iraquianos mobilizados nas principais cidades do país.

“Estamos longe de uma solução política e a renúncia do Governo poderia complicar as coisas em vez de resolvê-las; os manifestantes vão continuar [com sua mobilização] e podem até intensificá-las devido ao sucesso que acreditam ter conseguido”, afirma Farhad Alaaldin, presidente do Conselho Consultivo do Iraque, uma organização sem fins lucrativos que assessora os governantes iraquianos. “Os partidos políticos vão travar uma longa batalha para determinar qual é o maior bloco [no Parlamento] e [tentar] nomear um de seus membros [como chefe de Governo]”, acrescenta. As últimas eleições deixaram a Câmara muito fragmentada, o que possibilita diferentes alianças.

Embora, pressionados pela revolta popular, os partidos se esforcem para acelerar o processo e encontrar soluções rápidas, poucos acreditam que seja possível formar um novo Governo em menos de três meses. E, se de forma paralela, conseguirem aprovar uma nova lei eleitoral, que teoricamente já está em processo de debate, poderiam ser convocadas novas eleições para o final de 2020.