Esquerda francesa usa protestos contra reforma da Previdência como salva-vidas

Atual mobilização contrasta com a dos ‘coletes amarelos’, conhecidos por não ter ideologia, programa ou liderança

O líder esquerdista Jean-Luc Mélenchon fala com um grupo de ferroviários em Paris.
O líder esquerdista Jean-Luc Mélenchon fala com um grupo de ferroviários em Paris.LIONEL BONAVENTURE / AFP

A esquerda francesa, debilitada desde a vitória de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais de 2017, volta à cena. Os protestos contra a reforma previdenciária, um projeto central de Macron, unem a heterogênea sopa de letras que vai do institucional Partido Socialista até o populismo do A França Insubmissa. Em parte por convicção ideológica e em parte por oportunismo, seus líderes subiram no trem das manifestações e greves. O conflito social deste dezembro contrasta com a revolta sem ideologia, sem rostos visíveis e sem programa dos coletes amarelos, um ano atrás.

A situação da esquerda francesa beira o desespero. Nas eleições europeias de maio passado, o Partido Socialista (PS), que há três anos ainda dominava o Executivo e a Assembleia Nacional, obteve 6,2% dos votos. A França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon – que depois da vitória de Macron chegou a despontar como principal alternativa de poder – conseguiu apenas 6,3% A lista de Benoît Hamon, que havia sido candidato a presidente pelo PS em 2017, foi ainda pior: 3,3%. O consolo foi o notável resultado do Europa Ecologia Os Verdes, que ficaram em terceiro, com 13,5%.

A revolta dos coletes amarelos, alguns meses antes, havia demonstrado a desorientação deste campo ideológico decisivo na França moderna. O movimento surgiu sem que a esquerda o tivesse visto se aproximar. Desconcertou a todos, incluindo os sindicatos, que observavam com estupor uma nova forma de mobilização social rompendo sua disciplina e seus métodos. Os esforços de Mélenchon em aderir foram infrutíferos. Os coletes amarelos careciam de ideologia, ou esta era difusa e transversal, com ingredientes da extrema esquerda e da extrema direita: uma genuína expressão populista da insatisfação com as elites.

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Nem nas urnas nem na rua a esquerda conseguia se fazer ouvir. Em 5 de dezembro passado, isso mudou, com a primeira jornada de greves e manifestações nacionais contra a reforma da Previdência – já são três, enquanto a greve nos transportes está prestes a completar três semanas.

Não é surpreendente que naquele dia Mélenchon e a esquerda radical estivessem nas ruas. A novidade era a presença do PS, o partido do ex-presidente François Hollande, mentor de Macron, e responsável por pôr em marcha algumas das reformas que o atual presidente desenvolveu.

Olivier Faure, líder do PS, pede a retirada do projeto previdenciário, uma posição mais ousada até mesmo que a da central sindical tradicionalmente próxima de seu partido, a reformista CFDT. “É hora de começar do zero, de abrir uma verdadeira negociação em que se comparem as soluções que permitam novos direitos sem que haja regressões”, declarou Faure ao jornal Libération.

À frente antirreforma ganhou a adesão inclusive de Ségolène Royal, candidata do PS à presidência em 2007, ex-ministra de Meio Ambiente e atual embaixadora de Macron para os polos Norte e Sul, um cargo quase figurativo, que oficialmente ela continua ocupando.

Os cientistas políticos Jérôme Fourquet e Sylvain Manternach, autores de L’Archipel Français (“o arquipélago francês”), falam no jornal Le Figaro do “despertar da França de esquerda”. Estudando o mapa das manifestações de 5 de dezembro, que reuniram mais de 800.000 pessoas em toda a França, eles detectaram uma maior mobilização no sudoeste do país que nos feudos de Marine Le Pen, no norte e na costa mediterrânea. E sobretudo em cidades onde, em 2017, Mélenchon e Hamon obtiveram bons resultados ou com uma forte presença do funcionalismo público.

As pensões oferecem à dividida esquerda francesa uma causa comum e poderosa: a defesa do Estado do bem-estar contra um presidente supostamente neoliberal. Que seja suficiente para uni-la, ou que surja um líder capaz de encarnar este campo aniquilado por Macron em 2017, já é outra coisa.

Faure – e o próprio Hollande – sonham com uma nova plataforma política que agrupe sociais-democratas, ecologistas e eleitores de centro-esquerda desencantados com Macron. Mas a possibilidade de se unir ao LFI de Mélenchon parece remota. Suas posições eurocéticas e soberanistas, seu histrionismo antissistema e seus acenos ao eleitorado de Le Pen, a líder da extrema direita, complicam a união.

Dos ‘coletes amarelos’ aos sindicatos

Embora haja coletes amarelos nas manifestações sindicais, não está claro que venha a ocorrer a chamada “convergência ou coagulação”, uma soma de todos os descontentamentos. O tipo de manifestante não é exatamente o mesmo: eram trabalhadores precários daquela vez, são funcionários do setor público agora. Nem o dia dos protestos é igual: há um ano era no sábado; hoje, nos dias úteis. Nem a maneira: caótica e violenta no caso dos coletes amarelos; pacífica agora. Nem a geografia: segundo uma pesquisa do instituto IFOP, sentem-se afetados pelas greves 9% dos franceses em municípios rurais, 27% em cidades do interior, e 60% na região de Paris.

Os coletes amarelos eram habitantes de cidades pequenas que, dada a falta de transporte público, precisavam de um carro. Agora é a França do transporte público que faz greve. E isto obriga a usar o carro (ou a bicicleta ou o patinete, ou ir a pé). “É uma inversão dos coletes amarelos. Há um ano o problema eram os automóveis, agora eles são a solução”, diz o cientista político Jérôme Jaffré. “Não acredito que haja uma coagulação das lutas."

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