O efeito bumerangue do impeachment de Trump

Bases eleitorais do presidente cerram fileiras com ele, assim como o seu Partido Republicano. Alguns democratas moderados temem que o processo acabe ajudando a reeleição do magnata

Decorada com antiguidades da Segunda Guerra Mundial e reconhecível de longe pelo cilindro de faixas brancas, vermelhas e azuis, a barbearia de Jason Romage chama a atenção nesta rua comercial de Martinsburg, uma cidade de 17.000 habitantes na Virgínia Ocidental. “Tio Joe. Fundado em 1915”, diz o cartaz na entrada. Dentro, Romage elabora um moderno corte de cabelo em um jovem professor do ensino médio e rompe a norma tácita de um lugar assim, segundo a qual apenas o cliente pode se dar ao direito de enveredar por assuntos como política, religião ou esporte. Nesta semana, afinal de contas, ocorreu algo muito excepcional nos Estados Unidos: a Câmara de Representantes (deputados), graças à maioria democrata, aprovou submeter o presidente Donald Trump a um processo de impeachment, cabendo agora ao Senado a decisão de destituí-lo ou não.

“Este impeachment é muito partidarista”, protestou Romage, de 50 anos. O presidente é acusado de cometer abuso de poder ao pressionar a Ucrânia — inclusive com o congelamento de ajudas militares — para que o Governo desse país investigasse um rival político de Trump, Joe Biden, e o filho dele, Hunter, a soldo de uma empresa de gás ucraniana na época em que seu pai era vice-presidente (2009-2017). Também enfrenta a acusação adicional de obstrução ao Congresso, por ter boicotado a investigação sobre o caso. “Ele pediu que se olhasse o caso de Joe Biden, e é legítimo, um milhão de pessoas, eu inclusive, acham isso necessário. Qual é a verdade? Não sei”, afirma.

Mas o barbeiro só falará de tudo isso mais tarde. A conversa, mantida nesta sexta-feira, começa com elogios ao local: um estabelecimento com mais de um século de história, um luxo… Romage, muito afável, interrompe em seguida e esclarece que, na verdade, o negócio abriu em 2015, mas, por questão de marketing, põe 1915.

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“A verdade não é verdade”, já disse o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, alguns meses atrás, fabricando ipso facto uma entrevista legendária que serve para falar de quase tudo em Washington, mas que se referia à recusa do presidente em depor sobre a trama russa. Também serviria para o caso ucraniano. Ele levou os republicanos a cerrarem fileiras de tal forma, sem uma só fissura, que o assunto não parece objeto de debate jurídico, político ou criminal, mas sim de pura lealdade ao partido, a mesma que se respira em um feudo trumpista como o da Virgínia Ocidental. “Trump é ofensivo e grosseiro, mas também agradavelmente sincero, e suas políticas estão demonstrando ser muito produtivas”, afirma o barbeiro.

Já depois das 14h, entra no salão o promotor de Justiça da localidade de Martinsburg, Kin Sayre, democrata declarado, pedindo um corte de cabelo. No entender dele, o impeachment “é uma perda de tempo, com as eleições agora em 2020, quem não estiver contente tem ocasião de tirá-lo”. Para Sayre, as manobras do presidente para forçar a investigação sobre os Biden são “uma decisão muito ruim, mas não está tão claro que represente um delito grave ou uma falta”, que é o que a Constituição norte-americana exige para a destituição. “A acusação de obstrução ao Congresso, por outro lado, me preocupa mais, porque aparentemente o presidente se acha acima dele, mas, de novo, chega ao nível de um impeachment? Não tenho certeza”, acrescenta.

Isto é a Virgínia Ocidental, o Estado que em 2016 concedeu a Trump a maior vantagem eleitoral em todo o país, o lugar de onde procede Joe Manchin, o único senador democrata que no ano passado votou a favor da nomeação do juiz conservador Brett Kavanaugh, acusado de abusos sexuais, e que agora se confessa “dividido” sobre este assunto. Desde a última eleição presidencial, esta parte da América virou um dos símbolos trumpistas por excelência, o lugar certo para tentar explicar por que um multimilionário de Manhattan conseguiu se conectar tanto com o trabalhador em decadência: a crise das minas, o fechamento das fábricas, a epidemia de opioides, o descontentamento geral.

A poetisa afro-americana Crystal Good, de 45 anos, nascida e criada no Estado, tira qualquer estereótipo do prumo: “Existe essa narrativa de que se alguém apoia Trump é porque é estúpido. Os eleitores da Virgínia Ocidental costumam ser mostrados como idiotas, como hillbillys [forma depreciativa de se referir à população branca e operária de zonas rurais]. Isso acaba mobilizando ainda mais as bases de Trump e acredito que todo o tema do impeachment também mobilizará o voto para 2020”, diz Good. “Eu não me encaixo demograficamente no que se pensa da Virgínia Ocidental, mas sou daqui e muito orgulhosa de sê-lo”, acrescenta.

O medo do efeito bumerangue do impeachment está presente entre os democratas de distritos centristas ou conservadores que temem um castigo nas urnas, ou que rejeitam seriamente o processo aberto contra o mandatário. Mesmo assim, também a lealdade se impõe: só 3 dos 233 congressistas do partido (de Nova Jersey, Minnesota e Maine) votaram contra, e um deles, Jeff Van Drew, acaba de migrar para o Partido Republicano.

Há motivos para o cálculo eleitoral: em comparação a outubro passado, quando a investigação acabava de começar no Congresso, a popularidade de Trump melhorou, e o apoio ao processo minguou. A pesquisa do Gallup divulgada na última quarta-feira, bem no dia da votação, indicava que a taxa de aprovação do presidente havia subido de 45% para 51%, enquanto o apoio ao julgamento político e posterior destituição tinha caído de 52% para 46%. Se a pergunta se dirige exclusivamente aos republicanos, o respaldo ao impeachment não passa de 5%.

Trump será o primeiro presidente na história norte-americana a disputar a reeleição durante ou depois de um julgamento político destas características – o que não foi o caso nos dois precedentes históricos, de Andrew Johnson (1868) e Bill Clinton (1998). Diz Rick Tayler, estrategista republicano, mas crítico a Trump, que o desenlace do caso da Ucrânia não corroerá as bases trumpistas, mas recorda “que Trump não pode ganhar sozinho com sua base; para ganhar ele precisa de mais”, e por isso esta crise é importante.

Bill Clinton, o caso mais recente, viu sua popularidade melhorar após superar no Senado o processo pelo escândalo sexual com a estagiária Monica Lewinsky, num contexto de bonança econômica. Também ocorre agora. A economia cresceu de forma sólida ao longo destes três anos de era Trump, a taxa de desemprego está no nível mínimo desde a Guerra do Vietnã, e os temores de uma recessão iminente, que dominavam as análises econômicas, se dissiparam. Na Virgínia Ocidental, apear dos problemas crônicos de alguns dos condados mais pobres, também se respira otimismo. A Procter & Gamble, um gigante da indústria de bens de consumo, está construindo uma nova fábrica perto de Martinsburg, que dará emprego a 1.800 pessoas, e a Amazon tem um centro de distribuição no vizinho condado de Frederick (Maryland).

Sob a Administração do republicano, a Virgínia Ocidental viu inclusive o anúncio da abertura de algumas poucas minas de carvão, um setor em pleno declínio, e seus seguidores o atribuem às políticas do Trump, que revogou boa parte dos planos ambientais do Governo Obama. “Os mineiros voltaram a trabalhar”, sentencia Chris Hamilton, vice-presidente da Associação do Carvão de Estado e firme defensor do presidente. Todo o escândalo da Ucrânia e o julgamento parlamentar lhe parecem “uma martelada desproporcional, motivada politicamente pela extrema esquerda”.

A cozinheira Lindy Frise, de 59 anos, mudou de emprego há um mês, como conta no seu dia de folga, enquanto toma o café da manhã no balcão do Palace Lounge, um bar cheio de trabalhadores com coletes amarelos. Trabalhava havia seis anos num restaurante na mesma rua, até que pediu aumento e, quando negaram, foi para o Momma’s Country Chicken. Para Frise, a economia não é precisamente a chave do sucesso de Trump, não acha que é por causa do Governo que as coisas estão indo bem para ela, mas é republicana de toda a vida e, além disso, gosta da ideia de que um bilionário deixe seus negócios e opte por entrar na política. O impeachment é, na opinião dela, “uma brincadeira, uma perda de tempo, a imprensa está sendo ridícula”. “Que provas eles têm?”, pergunta. Quando questionada se acompanhou os detalhes do caso, responde convicta: “Sim, vejo todo dia na televisão, na CNN”, um canal muito crítico a Trump.

“Não sei se você sente isso também como jornalista, mas sempre houve desconfiança nos meios de comunicação”, afirma o barbeiro Jason Romage. Trump “é um nova-iorquino, que tem um estilo próprio de um empresário de Nova York, mas, de novo, é revigorante ter alguém franco”. Nascido numa família católica e conservadora, hoje se sente libertário mais do que republicano, e é um devoto do trabalho. “O tio Joe começou trabalhando em uma mina aos seis anos, sabia?”, comenta.

― Mas o tio Joe existiu realmente?

― Claro, nem tudo é marketing, sempre há algo real.


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