Por que quase ninguém em Hollywood quer mais trabalhar com estes atores?

Eles estrelaram grandes sucessos, alguns ganharam o Oscar e encantaram diferentes gerações. Mas não conseguem fazer com que seus colegas de profissão os suportassem nas filmagens

O ator Bill Murray
O ator Bill MurrayJojo Whilden / AP

O espelho em que todos os atores se miram, Marlon Brando, é canônico por ser a primeira estrela de Hollywood que não interpretava, mas apenas sentia. Mas Brando também é o pai da interpretação moderna porque se aproveitava de seu status de ator imprescindível para levar o caos às filmagens com suas excentricidades (em uma ocasião, exigiu atuar com um cubo de gelo na cabeça porque estava com calor), seus imprevistos (não decorava as falas e improvisava) e seu mau temperamento (muitas vezes se recusava a deixar seu trailer e discutia em voz alta com os diretores). Estas estrelas abusaram tanto de seu poder na indústria, tão acostumadas a que todos fizessem suas vontades, que no final Hollywood se cansou e as baniu. É preciso ver se assim as outras aprendem uma lição: por mais que se achem, nenhuma é Marlon Brando.

Edward Norton

Auge: Estreou aos 27 anos em As Duas Faces de um Crime e, dois anos depois já acumulava duas indicações ao Oscar e era comparado, por sua presença animal, perturbadora e transformadora, a Marlon Brando ou Robert De Niro. Ele acreditou.

Queda: Durante a pós-produção da A Outra História Americana ele se meteu na sala de montagem, deixando o próprio diretor de fora. A versão lançada tinha 24 minutos extras de pessoas se abraçando e com Norton ampliando seu protagonismo na história. Como tudo correu bem e o filme se tornou um cult instantâneo, ele pegou o gosto de colocar as mãos no roteiro. O ator apareceu no set de Dragão Vermelho, com suas cenas reescritas, saiu dizendo por aí que havia reescrito o roteiro inteiro de Frida (produzido e estrelado por sua então companheira, Salma Hayek) e durante a leitura do roteiro de Força Policial Nick Nolte se incompatibilizou tanto com ele que acabou abandonando o projeto.

"Não parava de dizer aos atores como deveríamos interpretar nossos personagens", contou Nolte em sua autobiografia. "Quando eu estava lendo meus diálogos, me interrompia aos berros, dizendo: 'É que nenhum pai fala assim com o filho.' Então eu disse ao diretor que não poderia trabalhar no filme porque quebraria o pescoço de Edward antes mesmo de começar a filmar. “

Quando a Paramount forçou Norton a fazer Uma Saída de Mestre porque seu contrato assim estipulava, o ator se rebelou, tratando toda a equipe com hostilidade e se recusando a participar da promoção do filme. Ele também reescreveu o roteiro de O Incrível Hulk e, quando viu que a Marvel havia rejeitado quase todas as suas ideias, boicotou a divulgação. Em Os Vingadores, Norton foi substituído por Mark Ruffalo, e a Marvel divulgou uma declaração dizendo que queria “trabalhar com alguém que compartilhasse o espírito criativo e colaborativo do restante do elenco”.

Por onde anda? Seu papel de ator insuportável em Birdman lhe rendeu a zombaria da imprensa e sua terceira indicação ao Oscar. As críticas a seus dois filmes como diretor, Tenha Fé e Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe, sugerem que o enorme talento como cineasta que ele está convencido de ter não se materializa quando tem a oportunidade. Birdman pareceu o renascer em seu prestígio, mas desde então (2014) ele só trabalhou como dublador em quatro filmes, como ator em dois (um deles dirigido por ele mesmo) e, mais recentemente, em The French Dispatch, de Wes Anderson, cineasta que lhe dá um papel em todos os seus projetos.

Bill Murray

Auge: Ninguém personificou melhor o cinismo resignado da sociedade dos anos 80 do que ele: Os Caça-Fantasmas, Recrutas da Pesada ou Os Fantasmas Contra-Atacam firmaram sua imagem a tal ponto que tudo o que acontece em Feitiço do Tempo é engraçado porque está acontecendo com Bill Murray.

Queda: No set de Nosso Querido Bob, Richard Dreyfuss lhe propôs modificar alguns diálogos e, sem dizer uma palavra, Murray pressionou a testa contra a de Dreyfuss e gritou: “Todo mundo te odeia”. Em seguida, atirou um cinzeiro nele (enorme e de vidro) e tentou lhe dar um soco. Em outra ocasião, jogou a produtora do filme, Laura Ziskin, em um lago durante uma discussão. “Ele também quebrou meus óculos, fiquei furiosa, mas, com o passar dos anos me dei conta de que esse é o comportamento comum em Hollywood”, contou ela. Em Feitiço do Tempo, discutia diariamente com o diretor, seu amigo íntimo Harold Ramis, porque Murray queria dar um discurso existencial ao filme e Ramis preferia apostar na comédia. (Havia rumores de que Murray não estava nada contente por ter sido a segunda opção de Ramis, que queria Tom Hanks no papel.)

“Bill às vezes era irracional e inacessível. Era comum chegar atrasado eu falava com ele como com meus filhos: 'Você não precisa fazer birra para conseguir o que quer, apenas diga o que quer”, lembrou o diretor em entrevista à The New Yorker. O ator chegou a contratar como intermediário um surdo-mudo, mas, quando o estúdio contratou seu próprio intérprete de sinais para se comunicar com Murray, descobriu que o intermediário do ator não conhecia a linguagem de sinais. Murray parou de falar com Ramis durante 21 anos, o que entristeceu o diretor, e eles só se reconciliaram semanas antes de sua morte por câncer em 2004.

Por onde anda? “Minha reputação de ator difícil vem de pessoas com quem eu não gostava de trabalhar ou de gente que não sabia trabalhar ou no que consiste trabalhar”, disse Murray ao The Guardian. “Jim [Jarmush], Wes [Anderson] e Sofia [Coppola], eles sabem o que é trabalhar e sabem como tratar as pessoas”. Esses três cineastas mantiveram e elevaram a carreira de Murray nas últimas duas décadas. Embora continuem a surgir inimizades (Lucy Liu tentou agredi-lo quando ele lhe disse “Por que você está aqui? Não sabe atuar”, em plena rodagem de As Panteras, cujo diretor disse que Murray pressionou a testa contra a dele, no que parece ser o modus operandi do ator com pessoas de quem ele não gosta), Murray é quase um messias zen para a Internet e transformou a fama em uma arte performática. Foi duas vezes seguidas ver o musical Groundhog Day (nome original do filme Feitiço do Tempo) em parte como um aceno metanarrativo para a história em si, mas também porque o comoveu: saiu chorando e exclamou: “A ideia de que precisamos continuar tentando é tão bonita e poderosa!”.

Faye Dunaway

Auge: Dunaway evocava o glamour das estrelas clássicas e o combinava com a intensidade psicológica da nova Hollywood que surgiu na década de 1970: Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, Chinatown e Rede de Intrigas (pelo qual ganhou o Oscar) construíram a carreira mais brilhante da época, mas ela também ganhou a reputação de atriz mais difícil da indústria cinematográfica.

Queda: “Ninguém gostava de Faye. Toda vez que estávamos prontos para rodar, ela exigia que a penteassem de novo”, lembra Estelle Parsons, sua colega em Bonnie & Clyde. “Nunca vi semelhante nível de loucura”, disse Roman Polanski a Faye durante uma discussão nas filmagens de Chinatown. "Eu teria questionado meus próprios métodos se não fosse por você ter tido confrontos semelhantes com todos os seus diretores”, disse ele. “E quem falou isso?”, a atriz respondeu: “Otto Preminger? Que importa? ele é um babaca.” As filmagens de Chinatown foram tão tensas que, segundo os rumores, Dunaway chegou a urinar em um copo e o atirou em Polanski porque ele não lhe permitia fazer uma pausa para ir ao banheiro.

Mesmo quando sua carreira foi para o espaço porque ninguém queria contratá-la, continuou a se comportar como uma diva intratável: ficou furiosa quando descobriu que sua suíte de hotel tinha uma rampa para deficientes de que ela não precisava, armou outro barraco porque uma companhia aérea se recusou a alojá-la na classe executiva (sua passagem era na classe econômica) e obrigou a figurinista de Mamãezinha Querida a abandonar a produção pela metade.

“Se você quisesse entrar no camarim dela”, contou a lendária figurinista Irene Sharaff, “era necessário primeiro atrair a sua atenção com algo bem tentador”. Nesse filme, um drama, Dunaway interpretou outra atriz famosa por seu temperamento difícil, Joan Crawford, e a arqui-inimiga dela, Bette Davis, teve que sofrer com a própria Dunaway em O Desaparecimento de Aimee. “Você pode colocar qualquer pessoa nesta cadeira e todos te dirão que Faye é totalmente impossível”, declarou Davis a Johnny Carson. Uma semana antes da estreia do musical Sunset Boulevard, em 1994, a atriz foi demitida por Andrew Lloyd Webber.

Por onde anda? Faye Dunaway está desaparecida e a última vez que se soube dela foi em outra demissão há um ano, na obra Tea at Five, porque o produtor se cansou de seu comportamento. A atriz chegava atrasada, proibia qualquer pessoa de olhar para ela (incluindo o diretor e o dramaturgo), exigia que ninguém usasse roupas brancas ou se movesse durante os ensaios e jogava pentes, espelhos e caixas de grampo nos trabalhadores. Quando limpavam seu camarim, ordenava que fizessem isso de joelhos. A demissão ocorreu quando Dunaway deu um tapa na mulher que tentava lhe colocar a peruca e dias depois sua assistente a denunciou por abusos emocionais. Em 2015, Faye Dunaway admitiu sua má reputação, ponderando: “Sim, sou difícil de lidar, mas é assim que vocês prestam atenção em mim”.

Dustin Hoffman

Auge: A Primeira Noite de um Homem fez o público de modo geral lhe pendurar a preciosa etiqueta de “um ator e tanto” (que os atores ganham não tanto quando atuam bem, mas quando atuam com muita força) e representante máximo do método em Hollywood: sua geração não recriava emoções, mas vasculhava seu passado para senti-las de verdade. O problema é que eles não se lembravam de avisar os colegas.

Queda: Durante as filmagens de Kramer vs. Kramer, Hoffman improvisou truques como jogar uma taça de vinho em Meryl Streep, dar uma bofetada ou insultar o namorado da atriz, o recém-falecido John Cazale, para também estimular os traumas de Streep, em busca de maior dramaticidade. Já no primeiro encontro, Hoffman se limitou a arrotar e colocar uma mão no peito dela, de modo que desde o início a tensão entre os Kramers se baseava em fatos reais. Quando o garoto que interpretava seu filho tinha que parecer triste, Hoffman se aproximava e lhe sussurrava histórias sobre o cachorro morto do menino. “Se vou passar dois anos e meio envolvido em um projeto, tenho que ser mais do que um ator-fantoche”, explicou ao Irish Times. “Preciso fazer parte do processo criativo.”

Por isso, exigia reescrever os roteiros e, depois de assinar o contrato de O Mistério de Agatha para um papel de duas cenas, indicou que ele deveria ser o protagonista e passou toda a filmagem sem falar com sua colega Vanessa Redgrave, que fazia o papel de Agatha Christie. No entanto, quando outros atores propunham mudanças a ele, o processo criativo não lhe parecia tão importante: quando Meryl Streep sugeriu que seria melhor que seu personagem explicasse suas motivações antes de pedir a custódia do filho, em vez de simplesmente pedi-la, o diretor gostou da ideia e Hoffman gritou: “Meryl, por que você não para de carregar a bandeira do feminismo e se limita a interpretar sua cena?” Talvez tenha sido uma referência à lendária réplica que Laurence Olivier deu a ele durante as filmagens de Maratona da Morte: incapaz de fazer a cena da tortura do dentista, Hoffman confessou a Olivier que estava sem dormir havia três dias para sentir e transmitir um autêntico mal-estar. Olivier respondeu: “Meu querido, e por que você não tenta atuar?”

Por onde anda? Hoffman nunca parou de trabalhar, embora com menos frequência e em projetos de menor envergadura, e se aposentou da vida pública desde que em 2017 foi acusado de assédio sexual por sete mulheres.

Katherine Heigl

Auge: Izzie Stevens rapidamente se tornou o personagem favorito do público em Grey’s Anatomy. Heigl ganhou um Emmy e saltou para o cinema com uma série de comédias românticas pelas quais chegou a ganhar o equivalente a 60 milhões de reais. Parecia destinada a herdar o título de namoradinha dos EUA que antes tinha ficado com Julia Roberts, Meg Ryan e Sandra Bullock. Até o público descobrir que não a queria nem como namorada nem de jeito nenhum.

Queda: A atriz se queixou dos horários de gravação de Grey’s Anatomy (que tinham sido modificados para se adaptarem à rodagem de seus filmes), se retirou do Emmys porque considerou que seu personagem não havia tido enredos à altura e deixou de ir ao estúdio sem avisar. Boicotou a promoção de Ligeiramente Grávidos, criticando o machismo do filme. Mas o que a tornava impossível eram suas constantes exigências: suítes presidenciais nos melhores hotéis, tratamento de luxo também para sua mãe (que é sua empresária desde que estreou em Meu Pai Herói) e cláusulas em seus contratos que lhe davam o direito de reescrever o roteiro e aprovar todo o elenco. “Nunca tinha visto nada parecido com Nancy Heigl [a mãe dela]. Tudo parece errado para ela, tudo ela resolve com insultos e, segundo ela, todos são mentirosos ", explicou uma assessora. Heigl devolvia toda a comida e roupa que levavam para ela, e quando se dignava a aparecer no set, era apenas para reclamar.

Por onde anda? Heigl tentou voltar com duas séries, ambas canceladas na primeira temporada, e manteve sua renda fazendo anúncios de comida para gatos. Em 2013, o Hollywood Reporter publicou uma dessas reportagens fatais para a carreira de qualquer ator: uma lista das experiências de várias pessoas que tiveram que sofrer com a atriz. “Tínhamos um papel que era perfeito para ela em todos os níveis”, confessou um produtor “, mas, no final, todos concordamos que não valia a pena contratá-la”.

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