Vinicius Junior, a paz com Zidane e o exemplo de LeBron

Depois de terminar a temporada passada sem jogar um minuto contra o City, Vini Jr. é o maior goleador do Real Madrid e voltou a ser convocado pela Seleção Brasileira

Vinicius Júnior comemora seu gol contra o Levante no dia 4 de outubro.
Vinicius Júnior comemora seu gol contra o Levante no dia 4 de outubro.Alex Caparros / Getty Images

Vinicius Júnior saiu de férias em agosto ruminando seu descontentamento por ter assistido à eliminação do Real Madrid da Liga dos Campeões da arquibancada do City of Manchester Stadium, sem um minuto na grama. Não foi um desgosto em linha reta. Começou dirigido a Zinedine Zidane, que nem o colocou no aquecimento. No entanto, durante seu périplo pelas ilhas mediterrâneas (Sardenha, Ibiza, Maiorca), foi apontando para si mesmo, segundo fontes de seu círculo. Não podia ser apenas culpa do treinador. O episódio de desatenção durante a conversa pré-jogo que o afastou em Manchester, ao qual o jogador não dera muita importância, na realidade não era tão leve. Já no ano anterior, lesionado naquela vez, Vinicius teve de assistir a eliminação contra o Ajax de fora, e não quer ficar no banco novamente enquanto seu time perde.

A paz com Zidane não exigiu que falassem do desencontro. O brasileiro começou a trabalhar já no final das férias e o treinador, que lhe dedicou muitas horas a sós para afinar sua pontaria, continuou a guiá-lo. Pede-lhe que pise com mais frequência em territórios mais centrados, longe das linhas laterais. Sem esquecer a vertigem que provoca nos rivais quando atua aberto na ponta, Zidane quer que nem sempre comece tudo tão longe do gol. E o gol e Vinicius certamente se aproximaram. Dos cinco últimos tentos marcados pelo Real Madrid, três foram do brasileiro, hoje o maior goleador da equipe.

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Impensável antes da pandemia, mas antes do clássico, e com os homens comandados por Zidane como a grande equipe mais seca da Europa, Vinicius aparece como uma discreta e inesperada referência goleadora. Na quarta-feira, contra o Shakhtar, Sergio Ramos o invocava desesperadamente da arquibancada do estádio Di Stéfano enquanto o time tentava virar o placar: “Vai, tenta, Vini!”, gritava quando recebia a bola o brasileiro, o único em que o capitão lesionado confiava. “Tenta, tenta, Vini!”

Naquela ocasião o atacante já havia anotado o 2x3. A jogada resume o essencial de sua transformação desde que chegou à Europa até este breve florescimento. E também que está superando alguns de seus concorrentes. Vinicius entrou aos 14 minutos do segundo tempo no lugar de Jovic, retraído na finalização e na pressão, que assistiu de longe. O brasileiro veio com tudo. Com a mesma corrida com que entrou em campo, roubou a bola, ficou diante do goleiro e marcou: 14 segundos, o gol mais rápido de um reserva na história da Champions League. O gol foi muito parecido com o que fez três semanas antes contra o Valladolid no Campeonato Espanhol: entrou no lugar de Jovic aos 13 minutos do segundo tempo, e aos 20, pressão, roubada de bola e gol.

Existe muito de Zidane por trás dos dois gols. Vinicius atua com um mantra do francês gravado na mente: “Perde e pressiona, perde e pressiona”. Acostumado com a fantasia despreocupada do drible de sua adolescência no Flamengo, foi seu despertar na defesa que o salvou de definhar no banco no inverno passado.

Motivação e convicção

Isso e uma determinação acima de seus apetites. “Se algo me faz ganhar um segundo, então o farei para melhorar e ganhar esse segundo”, conta em um dos capítulos da série Vini for Real, que começou a publicar em sua conta no Instagram, onde tem 10,5 milhões seguidores. Seu preparador pessoal, Thiago Lobo, também explica na série: “Vinicius não se baseia na motivação, mas na convicção. Faz as coisas por convicção: ‘Não gosto disso, mas preciso fazê-lo’”, conta em um fragmento gravado em Maiorca, onde o atacante o chamou para afiá-lo antes de retornar a Valdebebas.

Por trás de suas horas de academia doméstica (cinco em alguns dias), está sua admiração por LeBron James, sua figura esportiva favorita, de quem destaca que assim que termina uma temporada já está de volta à academia. Por essa dedicação também respeita especialmente Sergio Ramos, Cristiano Ronaldo e Casemiro.

Com o meio-campista voltará a dividir o vestiário da Seleção Brasileira. Depois de ter deixado de convocá-lo, Tite o chamou novamente nesta sexta-feira para as próximas partidas de classificação para a Copa do Mundo do Catar: “Ele é um jogador com virtudes físicas extraordinárias. Se um carro normal tem cinco marchas, ele tem sete. Vinicius Júnior vive seu melhor momento em seu clube”, explicou o treinador.

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