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Leite, pão e meio quilo de amor, por favor

Sem perceber, sujeitamos os relacionamentos à lógica capitalista. Quantas pandemias teremos que viver para entender como os abraços são necessários?

ALEJANDRO LLAMAS (EPS)

“Se não vai falar, não curta”, reza o perfil no Tinder de Jorge, 33 anos, que posa sorridente em frente ao Coliseu Romano. “Procuro alguém que me dê paixão no dia a dia”, diz Ana María, de 41 anos, no programa First Dates da TV Cuatro. Tornamos algo normal que as relações afetivo-sexuais sejam mais exigentes. Que logo de cara as pessoas queiram algumas características e rejeitem outras. Procuramos amor como se estivéssemos indo atrás de liquidações: em busca do melhor custo benefício.

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Aqueles de nós que têm o Tinder sabem (ou não?) que nos sujeitamos a parecer um primor em troca de colecionar outros tantos. Sem nos darmos conta (ou não?), sujeitamos nossos afetos ao absurdo da lógica capitalista vigente. Nós os convertemos em objetos em troca de objetificar os outros.

Já tinha sido previsto pelo sociólogo Zygmunt Bauman quando falava de “amor líquido” (Amor líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos): as relações interpessoais se caracterizam cada vez mais pela “falta de solidez, calor, e tendência a serem mais fugazes e superficiais”. Procuramos no trato com os semelhantes algo típico do consumismo: utilidade e imediatismo.

Isso —não estou falando nenhuma novidade— estimula a superficialidade e a frustração: o objeto não nos satisfaz de todo, nos entedia ou tem alguns contrapesos que não estamos dispostos a assumir. Mercantilizamos os outros e impomos condições, ao invés de nos entregarmos ao outro e à experiência. O conceito tradicional de casal nos entedia porque temos que aguentar, temos que nos sacrificar e temos que viver para o outro. Assemelha-se a uma taxa de hipoteca. Um investimento caro demais para o benefício que se pode obter (e ninguém nos dá garantia!).

Acontece no trabalho, em nossa projeção digital e em nossa interação com o mundo: nos exploramos e nos objetivamos para entrar no jogo da aceitação. Trabalhamos muito duro para que nos deem um valor e um status.

Bauman deixou escapar, sim, um pequeno detalhe: o gênero. Quer estejamos conscientes ou não, fomos socializados de acordo com o gênero atribuído. E nesta loucura mercantil as mulheres são colocadas como a oferta e os homens, como a demanda. Essa separação permeia até mesmo relacionamentos fora da heteronormatividade. A sedução torna-se um jogo de compra e venda, de exibição vazia e alarde obsceno de capital.

Muitos não foram preparados para viver para o companheiro ou para cuidar, mas para si próprios. No máximo, eles agem como protetores, mas como a encarnação do herói que se impõe pela força. Elas veem as imperfeições do mito do amor romântico, com um invólucro de papel de vítima; sim: rosa e com purpurina.

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Se a instrução sexual se dá na pornografia —isso também não é novidade—, baseia-se em uma noção distorcida da humilhação feminina. É muito provável que a aprendizagem emocional seja, portanto, o recipiente formal de um relacionamento díspar, violento e tendencioso. O sofrimento feminino é o passaporte para a normalização da desigualdade. E a frustração que isso gera é suprida como tudo o mais na sociedade capitalista: consumindo tudo: ansiolíticos, dietas, terapias, corpos...

Sob falsos mantras de liberação, nós nos desumanizamos por não nos importarmos com as pessoas com as quais trocamos suores e fluidos. Internalizamos o discurso individualista e neoliberal a ponto de evangelizar a promiscuidade, admirando mais a quantidade de corpos que consumimos do que a qualidade das relações que estabelecemos com eles.

Enquanto escrevo isto, olho para minha cachorra e ela olha para mim. Devo aprender algo sobre a irracionalidade do vínculo e do instinto. Eu me pergunto se é possível ofuscar no tempo parceiros sexuais sem submetê-los à lógica do consumo. Embora normalizemos que essas pessoas “não significam nada”, nosso instinto animal nos ensina que sim, essa cessão mútua de tempo, de intimidade é, afinal, um ato de generosidade e de amor.

Me dá a sensação de que esse “sistema afetivo” está entrando em colapso. Quantas pandemias teremos que viver para entender como os abraços são necessários? Por que nos limitamos a dizer que os relacionamentos são mais ou menos tóxicos em vez de construir alianças igualitárias, projetos de compaixão, admiração e afeto?

Eu me propus cuidar de meus amantes e reivindicar o vínculo que merecemos. Olhar como a minha cachorra me olha—mesmo havendo o risco de que saiam correndo e não parem ou não compreender o idioma falado ao redor. Dar antes de expor minha lista de exigências, preocupar-me com os outros e assumir a responsabilidade afetiva.

Tenho a convicção de que vamos valorizar e exigir novos modelos relacionais, distantes do consumo e cada vez mais próximos da comunicação, do riso e da ternura. Acho que não temos escolha... Estou ansiando por ver generosidade e altruísmo no Tinder e no First Dates ... Sou idealista demais? (tomara que não).

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