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Os 10% mais ricos com 76% do patrimônio do planeta, o retrato da desigualdade na pandemia

Relatório mostra que disparidade entre ricos e pobres continuou crescendo entre 2019 e 2021, a era da covid-19. Brasil é mais desigual que EUA e China, e parcela mais rica ganha quase 30 vezes mais do que a base de 50% mais pobre

Homem revira lixo em Tegucigalpa, em novembro de 2021.
Homem revira lixo em Tegucigalpa, em novembro de 2021.LUIS ACOSTA (AFP)

Um mundo mais desigual é o legado imediato da pandemia. A disparidade entre ricos e pobres continuou crescendo entre 2019 e 2021, quando a covid-19 impôs um abrupto parêntese na etapa de crescimento que a economia global vinha vivendo. No topo da pirâmide, um reduzido e seleto clube de multimilionários —0,001% da população— viu suas fortunas crescerem 14%. Em uma amplíssima base, 100 milhões de pessoas a mais caíram na pobreza extrema. Segundo um macroestudo elaborado pelo World Inequality Lab, ao qual o EL PAÍS teve acesso, nos últimos dois anos ocorreu uma aceleração do processo de concentração das rendas e da riqueza que começou na década de oitenta. “Observamos um mundo ainda mais polarizado: a covid-19 amplificou o fenômeno da ascensão dos multimilionários e deixou mais pobreza”, afirma Lucas Chancel, que liderou o estudo.

Esse prestigioso think tank francês, codirigido por Lucas Chancel, Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, expõe com clareza, mais uma vez, o processo de desigualdade de rendas e riqueza, que se agravou como resultado da onda de políticas desreguladoras e privatizadoras dos anos oitenta. Esse foi o começo. Nas duas últimas décadas, a distância entre a renda (incluindo trabalho e capital) dos 10% mais ricos da população e dos 50% mais pobres se duplicou. E a concentração da riqueza chegou a uma cota “extrema”, porque os 10% mais poderosos já possuem três quartos de todo o patrimônio mundial. O coronavírus não truncou essa tendência. Pelo contrário: acelerou o processo até chegar a uma espécie de nova belle époque para as elites de todo o mundo, porque a desigualdade entre os de cima e os de baixo nunca tinha sido tão grande desde o começo do século XX. “Não se observa que o processo iniciado no começo dos anos oitenta tenha mudado até agora. Essa tendência se mantém, e o que cabe esperar é que tenha se acentuado, especialmente em 2020″, afirma Luis Bauluz, pesquisador do World Inequality Lab (”laboratório da desigualdade mundial”, em inglês).

A globalização se apresentou como uma oportunidade para reduzir as desigualdades entre os países. E assim foi: ascenderam novas potências, como a China, a Índia e o Brasil. Mas as desigualdades dentro das nações continuaram se ampliando: o topo da pirâmide de todos os países segue nadando em abundância. “No capitalismo moderno, o grupo de renda de um indivíduo (se pertence aos 50% de baixo ou ao 1% de cima) importa mais que sua nacionalidade para determinar os níveis de desigualdade global”, aponta o relatório. Os 517 milhões de cidadãos que estão entre os 10% mais ricos captam 52% dos 550 trilhões de reais repartidos em renda e 76% do enorme bolo de 3,27 quatrilhões de reais que constitui o patrimônio mundial. Metade da população, por sua vez, continua lidando com a escassez. E boa parte dela, com a pobreza. Somada, a metade mais pobre dos habitantes adultos do planeta (2,5 bilhões) consegue reunir apenas 8% da renda e 2% da riqueza. O relatório constata, além disso, uma regra: quanto mais rico é um cidadão, mais sua riqueza cresce. Desde os anos noventa, o 0,01% mais rico viu seu patrimônio crescer 5% a cada ano; o 0,001%, 5,9%; e o 0,00001% mais rico (menos de 1.000 indivíduos no mundo), 8,1%. “Uma coisa é certa: se as taxas de desigualdade das últimas décadas continuarem no futuro, a desigualdade global continuará subindo até alcançar níveis enormes”, acrescenta o estudo.

Segundo o relatório, o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo: os 10% mais ricos concentram 59% da renda nacional total, enquanto a metade inferior da população leva apenas cerca de 10%. O fosso é maior do que nos EUA, onde o ‘top 10%’ capta 45% da renda nacional total, e na China, onde essa parcela leva 42% da renda. No Brasil, a renda média nacional do adulto é de 43.680 reais. Enquanto a base de 50% ganha 8.800 reais por ano, os 10% mais ricos ganham quase 30 vezes mais (255.760 reais).

Redução da pobreza nos EUA e Europa

Essa tônica se repete em todas as regiões do mundo, embora algumas tenham tido maiores aumentos das desigualdades desde a década de oitenta (Estados Unidos, Rússia e Índia) que outras (Europa e China). Ainda é cedo para ver todas as cicatrizes deixadas pela pandemia, mas algumas já são patentes. O Banco Mundial estima que os sucessivos surtos de covid-19 tenham engrossado em 100 milhões a cifra de cidadãos que se encontram na pobreza extrema, totalizando 711 milhões, em especial na África e Ásia. E enquanto isso acontecia, um punhado de multimilionários, 0,001% da população, ampliou sua riqueza em 14%. Alguns estudos na França já mostram que os indivíduos com mais renda e patrimônio aproveitaram as restrições da pandemia para economizar ou reduzir suas dívidas, enquanto os mais pobres se viam obrigados a pedir empréstimos para enfrentar o temporal.

Entretanto, nem tudo são más notícias. A pandemia obrigou inúmeros países a estenderem redes de proteção aos seus cidadãos. Nos Estados Unidos, a eclosão da covid-19 atingiu desproporcionalmente os cidadãos mais vulneráveis. As taxas de emprego caíram 37%. “E, entretanto, vimos que não se produziu um aumento da pobreza. Pelo contrário: houve uma queda”, destaca Chancel. A atuação da Administração, fazendo gastos diretos e transferências sociais, não só protegeu esses cidadãos como também permitiu reduzir em 45% as taxas de pobreza no último ano em comparação a 2018. Ao todo, 20 milhões de pessoas escaparam dessa situação de vulnerabilidade. “O que significa isso? Que as políticas sociais são efetivas, que podemos reduzir a extrema pobreza nos países ricos. E isto enfatiza uma mensagem crucial: a desigualdade e sua redução não são uma questão de limitações econômicas, e sim uma escolha política sobre o tipo de sociedade onde queremos viver”, acrescenta o economista. Essas ajudas, porém, não são suficientes para reduzir as desigualdades, por causa da elevada taxa de crescimento da renda e patrimônio dos mais ricos.

Por outro lado, a pandemia acelerou outro processo que já vinha ocorrendo desde a crise financeira de 2008: a perda de patrimônio do setor público para o privado. Os Estados já vinham perdendo patrimônio nos últimos 50 anos, de modo que em países como os EUA e o Reino Unido toda a riqueza foi privatizada. “Os governos hoje são muito mais pobres do que há 40 anos. É uma tendência secular que observamos: o setor público se empobrece, e o privado se enriquece”, ressalta Chancel. A pandemia intensificou esse processo, porque os governos protegeram seus cidadãos elevando seus déficits públicos e endividando-se em grande escala, até chegar a níveis recordes. E esse aumentou da dívida corroeu ainda mais o setor público.

Esse fenômeno leva à seguinte pergunta: quem pagará essa dívida? A futura recomposição das finanças públicas começa a alimentar o debate sobre possíveis saídas: desde reestruturações até ajustes orçamentários e o efeito da inflação. Em suma: se os planos de austeridade serão retomados, como se fez há uma década, causando um aprofundamento ainda maior das desigualdades. “Está tudo aberto. Não sabemos se haverá mais impostos sobre o consumo, se os serviços públicos serão reduzidos, o que afetará os grupos de baixa renda… Seria lógico que se pedisse mais aos mais ricos em lugar de exigir às novas gerações, que são as que sofreram mais nesta crise”, conclui Chancel.

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