Gita Gopinath (FMI): “Estagflação? A economia mundial crescerá 5,9% este ano”

A economista-chefe do organismo não vê problemas de sustentabilidade da dívida na zona do euro e confia numa redução dos preços da energia na primavera

A economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, na última quarta-feira.
A economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, na última quarta-feira.ANDREW CABALLERO-REYNOLDS (AFP)

Justo quando o trem da economia mundial vê a luz no fim do túnel, dois novos riscos cruzam os trilhos. Os gargalos na indústria e o encarecimento da energia fizeram soar o alarme nos grandes centros de decisão, e o aumento dos preços ameaça se tornar um obstáculo de grandes dimensões: para o bolso das famílias e para os bancos centrais, que suportam uma pressão cada vez maior dos que consideram iminente uma alta dos juros. Esse coquetel levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a reduzir marginalmente suas previsões nesta semana, mas sua economista-chefe, Gita Gopinath (Calcutá, 49 anos), mantém um tom muito mais cauteloso do outro lado da tela. A estagflação – crescimento estagnado com inflação alta, o maior pesadelo para um economista – está longe de ser uma realidade, afirma. Gopinath espera que a energia dê trégua a partir da próxima primavera boreal. A incerteza é enorme, sim. Mas, com o crescimento global beirando os 6%, a economista indiana não vê motivos para pensar num descarrilamento iminente.

Pergunta. Até que ponto a recuperação está em risco?

Resposta. Os riscos são elevados e aumentaram nos últimos três meses: pelas interrupções prolongadas nas cadeias de fornecimento, pela tempestade perfeita nos mercados energéticos e porque os dilemas da política econômica se tornaram mais complexos. Tudo isso nos levou a um debilitamento e a um ambiente mais incerto.

P. Esses fatores continuarão pesando por mais quanto tempo?

R. Minha expectativa é que esses ventos contrários, especialmente o alto preço da energia, comecem a se diluir em meados de 2022. O aumento do gás natural foi muito rápido, e o inverno pode ser difícil: se for normal, estaremos em melhores condições; mas se for frio, poderemos ver escassez e apagões generalizados, o que afetaria a economia. Mas, se olharmos além da primavera, o que dizem as projeções é que os preços [energéticos] diminuirão bastante. Pensamos que assim será: que se trata de algo transitório. No caso das cadeias de fornecimento, acreditamos que [os gargalos] persistirão até meados do ano que vem. O risco mais importante, entretanto, continua sendo uma nova variante do vírus.

Minha expectativa é que esses ventos contrários, especialmente o alto preço da energia, comecem a se diluir em meados de 2022

P. O consenso continua indicando que a pressão inflacionária se diluirá ao longo de 2022, mas cada vez há mais vozes dizendo que pode ser um episódio não tão transitório...

R. As projeções estão sujeitas a uma alta incerteza, mas esperamos que a inflação também regresse a um patamar mais moderado em meados do ano que vem.

P. Acredita que os bancos centrais estão sendo suficientemente vigilantes em relação aos preços?

R. Eles também estão tendo que enfrentar essa incerteza que eu mencionava: o ambiente atual é um desafio, com choques de oferta que debilitam a atividade econômica ao mesmo tempo em que aumentam os preços. Têm a vantagem de poder seguir as cifras bem de perto antes de agir, evitando assim um endurecimento prematuro [da política monetária]. Devem ser muito vigilantes, basear suas decisões em dados e comunicar da melhor forma possível.

P. Nem um aumento dos juros nem uma redução nas compras de dívida solucionaria os fatores que estão por trás da escalada da inflação: a energia e os gargalos.

R. Certamente. Se você endurecer a política monetária agora, a atividade diminuirá. Além disso, você não solucionará a pressão sobre os preços. A solução deve estar do lado da oferta, aumentando a produção.

P. Teme, de todo jeito, um endurecimento prematuro da política monetária?

R. Se isso ocorrer, seria traduzido em um forte aumento dos custos de financiamento, sobretudo nos países emergentes e em desenvolvimento. Alguns deles construíram importantes reservas de moeda estrangeira e emitiram em divisa local. Isso os protege, mas os demais sofrerão.

P. Um aumento as taxas de juros também seria uma má notícia para os países europeus com muita dívida: Itália, Espanha...

R. Não vejo problema de sustentabilidade da dívida na zona do euro. Os níveis atuais são certamente elevados, mas as taxas de juros se manterão baixas durante vários anos. Entre outras coisas, porque as projeções de inflação a médio prazo continuam abaixo do objetivo do BCE [Banco Central Europeu]. O fundo de recuperação também ajuda.

P. Há quem já fale em estagflação para se referir à atual conjuntura. O que lhes diria?

R. Esperamos que a economia mundial cresça 5,9% este ano e 4,9% no que vem. É um crescimento muito saudável. É certo que estamos vendo choques do lado da oferta e uma energia mais cara, o que afeta a indústria e a atividade e se traduz em preços mais altos. Mas daí a falar de estagflação... Para falar de estagflação, a economia teria que estar estancada e a inflação, fora do controle. E esse não é nosso cenário-base.

P. Os países ricos estão saindo da crise muito mais rápido que os emergentes, com a China à margem. Essa diferença a preocupa?

R. É uma divergência perigosa. As economias avançadas retornarão ao caminho pré-crise em meados do ano que vem, ao passo que em vários países em desenvolvimento o PIB continuará 5% ou até 10% abaixo do nível em que estaria se não tivéssemos passado por uma pandemia. Em tempos normais, os emergentes costumam ser o motor do crescimento [mundial]. E as cicatrizes com as quais saem da crise são uma preocupação tanto para a demanda global como pelas tensões sociais e políticas [que ela pode ocasionar].

Para falar de estagflação, a economia teria que estar estancada e a inflação, fora do controle

P. A América Latina, embora continue sendo a região mais castigada, acaba de ter melhores previsões econômicas.

R. A região está indo bem na vacinação, e isso se traduz em menos contágios. Mas a recuperação continua sendo desigual e incompleta, e as cicatrizes, significativas. O espaço fiscal e monetário é, em geral, bastante limitado.

P. A dívida pública está em níveis máximos históricos em quase todo o mundo.

R. Aumentou substancialmente, sobretudo nas economias avançadas, mas a relação entre os juros dessa dívida e a receita tributária continua bastante plana. O problema está mais em alguns países de renda média e baixa, onde as taxas aumentaram e a recuperação está longe de ser completa.

P. A resposta à crise na Europa tem sido diametralmente oposta à de uma década atrás, a ponto de superar o tabu das emissões conjuntas de dívida.

R. A resposta europeia tem sido importante e muito bem-vinda, incluindo o fundo de recuperação e os eurobônus. São uma parte importante da solução para garantir uma recuperação forte, e deveriam estar entre os elementos a serem mantidos na caixa de ferramentas.

O espaço fiscal e monetário na América Latina é, em geral, bastante limitado

P. A Espanha foi o país rico em que o PIB mais caiu no ano passado. E será, juntamente com a Itália, a economia europeia que mais vai demorar para recuperar os níveis pré-pandemia. Além da grande dependência do setor turístico, o que deu errado?

R. A estrutura econômica espanhola, com essa dependência do turismo, é um fator muito importante. Mas a Espanha está indo muito bem em termos de vacinação, se a comparamos com a média da zona do euro. E os fundos europeus deveriam ajudar para uma recuperação ainda mais forte.

P. O FMI tem tido semanas de enorme turbulência. A diretora-gerente, Kristalina Georgieva, esteve a ponto de perder sua continuidade no organismo. Acredita que ela poderá desempenhar seu trabalho com normalidade após esse episódio?

R. Estou feliz que o comitê executivo tenha resolvido esse assunto e expressado sua total confiança na diretora-gerente. São muitos os assuntos importantes na economia mundial que devem concentrar nossa atenção.

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