Pandemia amplia a diferença econômica entre os Estados Unidos e a Europa

Corrida da recuperação será vencida pelos países que demorarem menos a vacinar sua população e os que destinarem mais dinheiro a famílias e empresas a sair do abismo em que o vírus as lançou

Um cartaz anuncia, na sexta-feira, novas contratações em uma loja de vinho em Larkspur (Califórnia).
Um cartaz anuncia, na sexta-feira, novas contratações em uma loja de vinho em Larkspur (Califórnia).JUSTIN SULLIVAN (AFP)

O oceano Atlântico é hoje, mais do que nunca, um abismo econômico de grandes proporções. Como já aconteceu após a Grande Recessão, os Estados Unidos sairão mais rápido e com mais força da recessão causada pela pandemia do que a Europa, segundo todas as projeções disponíveis. Quase desde o começo da crise, os caminhos tomados pelos dois maiores blocos de economias avançadas foram divergentes: em 2020, o PIB norte-americano caiu somente 3,5%, levantado pelas restrições menores, contra o desabamento de 6,8% da zona do euro. E neste 2021, marcado em vermelho como o primeiro repique, a diferença caminha para aumentar ainda mais: a atividade crescerá 6,5% nos EUA, contra 3,9% do bloco do euro, pela última projeção da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A corrida da recuperação será vencida pelos países que demorarem menos a vacinar sua população e os que destinarem mais dinheiro a famílias e empresas a sair do abismo em que o vírus as lançou. E o gigante norte-americano marcha com uma vantagem confortável em relação à Europa nas duas frentes. Quase um de cada três norte-americanos já recebeu pelo menos uma injeção e mais de 17% a imunização completa, mais do que o dobro e o triplo ―respectivamente― do que a União Europeia.

Esses números se traduzem em algo mais do que um algarismo: é só olhar para Israel ―indiscutível líder mundial nesse quesito, com mais da metade de sua população já plenamente vacinada― para observar como a relação entre imunização e retorno à vida das constantes econômicas é algo mais do que diretamente proporcional. Na semana passada, o Fundo voltou a insistir no mais óbvio: mesmo que a recuperação tenha raízes um pouco mais fortes do que o esperado, o ritmo de vacinação abrirá uma brecha de desigualdade difícil de gerir. “Estamos em um ponto de inflexão: o que fizermos agora moldará o futuro pós-pandemia”, disse a diretora-gerente do órgão, Kristalina Georgieva.

A assimetria na proteção fiscal mobilizada contra a crise é ainda mais relevante. Se no final do ano passado os EUA e a zona do euro estavam praticamente empatados em ajudas públicas, com a mudança de ano e a chegada de Joe Biden à Casa Branca, a situação mudou completamente: após a aprovação do Congresso ao colossal plano de estímulo do democrata ―1,9 trilhão de dólares (10 trilhões de reais), uma vez e meia o PIB espanhol―, o gasto comprometido por seu Governo quase duplica o de seus pares europeus.

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“Este último pacote, o de Biden, precisa ser somado, além disso, aos dois planos anteriores de Trump”, diz por telefone Òscar Jordà, analista da Reserva Federal de San Francisco e professor da Universidade da Califórnia em Davis. “Somando os três, a injeção total é de magnitude muito maior do que o europeu”. Enquanto Washington rega a economia com dinheiro levantado a custo mínimo nos mercados, em algumas capitais europeias começa a se olhar com receio cada centavo gasto. E, conforme o FMI, não é o momento de contar o que foi gasto. “Não é que a Europa não tenha feito nada; é que aqui foram com muito, muito, muito mais energia. E a diferença será notada, principalmente, na parte final deste ano e na primeira metade do próximo”, diz Gian-Maria Milesi Ferreti, hoje na Brookings Institution após quase uma década como número dois do departamento de estudos do Fundo.

Maurice Obstfeld, um dos mais próximos assessores de Barack Obama quando era presidente, diz por e-mail que “há um risco real de que esta divergência persista após a recuperação, especialmente se for bem-sucedido em seu plano de infraestrutura”. Nada próximo do que ele mesmo previa no verão passado, quando em uma entrevista ao EL PAÍS projetava um futuro pós-pandemia mais brilhante na Europa do que em seu país. Mas muitas coisas mudaram desde então: a chegada do democrata à Casa Branca deu novos brios à política fiscal, enquanto a “desordenada” entrega da vacina na UE ameaça “afetar a confiança econômica”.

No início da recessão, o Velho Continente deu mostras de ter aprendido a lição da última crise. O plano de recuperação de 750 bilhões de euros (5 trilhões de reais) ―hoje paralisado provisoriamente pelo Tribunal Constitucional alemão, um dejà vu de conotações perigosas― introduzia uma dose importante de solidariedade entre Estados membros e significava o mais poderoso mecanismo de integração europeia em anos. Em paralelo, as políticas de sustentação de rendas dos trabalhadores ―com instrumentos como os ERTE (regulação temporária de emprego) na Espanha― se erigiram desde o minuto zero como a primeira rede de segurança a milhões de pessoas.

Pilhas de cadeiras sem uso, diante de uma cafeteria em Paris, em maio do ano passado.
Pilhas de cadeiras sem uso, diante de uma cafeteria em Paris, em maio do ano passado. BERTRAND GUAY (AFP)

Mas, diante da prontidão norte-americana, que optou por ágeis entregas de cheques à sua população para reativar o consumo pela via rápida, os fundos europeus ―majoritariamente focados em projetos de fôlego a longo prazo― ainda não chegaram aos cofres nacionais e, muito menos, à economia real. “O plano não é só muito maior nos EUA do que na zona do euro: está sendo implementado mais rápido e é dirigido aos lares”, diz Aida Caldera, chefa de divisão no departamento de Economia da OCDE. “A ideia da Europa de investir em crescimento a longo prazo é boa: é o que se deve fazer. O problema é a lentidão em uma recessão tão grande como esta”.

Os últimos dados de emprego, a melhor variável para comparar a saúde real de uma economia, são claros: enquanto vários países da Europa – principalmente os mediterrâneos, onde a exposição ao turismo amplificou o impacto econômico dos fechamentos – ainda precisam da muleta dos ERTE (e seus equivalentes) para conter a sangria sobre milhares de trabalhadores, o mercado de trabalho norte-americano começa a dar sinais de otimismo. Mesmo que ainda existam 8,4 milhões de postos de trabalho a menos do que antes da pandemia, março teve o saldo da criação de quase um milhão de empregos, o melhor número desde agosto do ano passado.

O vírus piorou as coisas, mas a dupla velocidade nas duas margens do Atlântico vem de antes. Os EUA cresceram mais do que a zona do euro em sete dos últimos dez exercícios, e essa brecha passou à renda per capita, a melhor medida de prosperidade econômica. Entre 2009 ―o pior ano da Grande Crise― e 2019, o rendimento por habitante passou de 47.000 dólares (268.000 reais) anuais a mais de 65.000 (370.000 reais), um aumento de 38%. Na zona do euro, esse crescimento ficou em 25%: de 28.000 euros (187.000 reais) a 34.800 (233.000 reais), prejudicado em boa medida pela crise da dívida soberana ―e a posterior cura de austeridade―, que esteve prestes a destruir a moeda única.

A brecha atlântica persistirá após este ano. Em 2022 o plano fiscal de choque de Biden contra a crise ainda sustentará o consumo, de longe o maior pilar sobre o qual se assenta o crescimento norte-americano. E é igualmente faraônico o programa de investimento em infraestrutura apresentado na quarta-feira ―mais dois trilhões de dólares (11 trilhões de reais), um décimo do PIB― promete dar um impulso adicional. Até mesmo antes de incorporar esse último anúncio, a OCDE já projetava um crescimento dois décimos maior na principal potência mundial em relação à zona do euro: 4% contra 3,8% dos países da moeda única.

“Cegamente, sem saber de qual crise estamos falando, posso prever que sairá mais rápido. Aconteceu depois de 2008 e voltou a ocorrer agora”, diz Enrique Rueda-Sabater, professor da Esade. “O que existe é algo com raízes mais profundas: a capacidade da economia norte-americana de recuperação é muito maior do que a europeia, porque a flexibilidade de sua economia também é muito maior. Tem muitos problemas em outras coisas, é verdade, mas essa é uma das grandes vantagens de seu sistema: sempre se recupera mais rápido”.


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