Queda e desaparecimento do bilionário dono do Alibaba

Alvo de uma campanha judicial do Governo chinês, Jack Ma permanece há meses em paradeiro desconhecido, em meio a dúvidas sobre seu futuro legal

Jack Ma, fundador do site de vendas Alibaba, em Hangzhou, China, em 2019.
Jack Ma, fundador do site de vendas Alibaba, em Hangzhou, China, em 2019.GEtty

Durante décadas, Jack Ma parecia capaz de voar. Esse homem de origem humilde conseguiu, à base de empenho e tenacidade, erguer do nada uma das empresas mais valiosas do mundo, o site de vendas Alibaba, e entrar nas listas dos indivíduos mais ricos, poderosos e famosos do planeta. Mas no seu sonho esqueceu que acima dele também havia limites. Sua altura se tornou excessiva aos olhos do Partido Comunista da China e, tal qual Ícaro, suas asas começaram a derreter. Agora, em meio a uma campanha contra suas empresas, o magnata desapareceu dos olhares do público, despertando rumores sobre seu futuro e sua situação legal.

Toda queda sempre é precedida de uma ascensão. No caso dele, vindo bem de baixo. Nascido em Hangzhou, Ma foi rejeitado várias vezes em inúmeros empregos e escolas. Sem desanimar, começou uma carreira como professor de inglês até que, durante uma viagem aos Estados Unidos em 1995, descobriu uma coisa chamada Internet. Quatro anos mais tarde, fundaria no seu apartamento o Alibaba, hoje a nona maior empresa do mundo por cotação em Bolsa.

O Alibaba começou como ponto de encontro para fornecedores chineses e empresários estrangeiros interessados em fazerem negócio com o gigante asiático: a porta de entrada ideal para um mercado do qual todos queriam participar, mas ninguém sabia como. A partir daí, sempre sob a direção de Ma, a empresa foi crescendo até se tornar um gigante do comércio eletrônico, com presença em vários campos tecnológicos, de serviços financeiros a inteligência artificial.

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Em setembro de 2019, já bilionário e como celebridade global, Ma deu um passo para o lado. “Não quero morrer no escritório, quero morrer na praia”, declarara um ano antes ao anunciar sua decisão de deixar o Alibaba. Já naquela época, sua aposentadoria prematura motivou especulações a respeito da sua relação com o Governo e hipotéticas pressões, algo que ele, membro do Partido Comunista da China ―basicamente por imperativo social―, sempre negou.

Ma completava 55 anos naquele dia. De acordo com a sua filosofia, “dos 50 aos 60 é preciso formar a geração seguinte”, por isso ele pretendia dedicar grande parte do seu tempo à filantropia, ao meio ambiente e à formação de novos empreendedores. Desde então, sua colaboração com diversas agências da ONU, através da sua Jack Ma Foundation, contribuiu para melhorar a imagem internacional da China. Quando a pandemia se espalhou, em março, ele doou dezenas de milhões de máscaras e equipamentos médicos a países de todo o mundo.

Ás na manga

Mas sua aposentadoria não era definitiva. Ma, que tem o empreendedorismo nas veias, guardava uma última cartada ganhadora. Tratava-se do Ant Group, a empresa de serviços financeiros digitais que nasceu do Alibaba e da qual ele é o acionista majoritário. A companhia estava destinada a protagonizar a maior abertura de capital em Bolsas na história, em novembro passado, mas as autoridades chinesas congelaram a operação quando faltavam menos de 48 horas para a data marcada.

Esse movimento foi motivado pelo enorme poder que o Ant e, portanto, Ma acumulariam. Se a oferta pública inicial de ações tivesse se concretizado, a empresa estaria em condições de superar os maiores bancos estatais, com a ambição e a capacidade, além disso, de controlar uma percentagem significativa do crédito nacional graças a seus empréstimos, investimentos e seguros personalizados. Em seus seis anos de história, o Ant já proporcionou liquidez a 500 milhões de pessoas. Como o próprio empresário ilustrou, “se você pede emprestado 100.000, vai ficar com medo do banco; se pede um bilhão emprestado, é o banco que vai ter medo de você”.

O Partido, além do mais, não assumiria riscos com uma pessoa que havia gerado dúvidas sobre sua fidelidade absoluta. Por muito tempo, Ma sempre se mostrou complacente. “Se o Governo precisar do Alipay [serviço de pagamentos eletrônicos do Ant], eu dou”, chegou a afirmar em 2013. Entretanto, pouco antes da lançar ações do Ant, se desvinculou desse compromisso com declarações que as autoridades receberam como um desafio. Durante um fórum empresarial, criticou a legislação financeira do país e sua mentalidade de “casa de penhores”. “Devemos substituir essa mentalidade por um sistema de crédito baseado em big data, empregando as possibilidades tecnológicas atuais”, proclamou.

Jack Ma tinha voado alto demais. A estreia do Ant na Bolsa foi paralisada, e teve início uma campanha contra o Alibaba. Desde então, os corretivos foram constantes. Em dezembro, a Administração Estatal para a Regulação do Mercado anunciou a abertura de uma investigação por práticas monopolísticas. Por causa disso, a cotação do Alibaba nas Bolsas encolheu quase um terço desde o final de outubro, o que equivalente à evaporação de 340 bilhões de dólares (1,82 bilhão de reais).

Ma não é visto em público desde então. Não apareceu nem sequer na final de um concurso televisivo criado por ele. “O senhor Ma não poderá mais participar por causa de um problema de agenda”, alegou um porta-voz do Alibaba ao jornal Financial Times. Aquele que fora o homem mais rico da China viu seu patrimônio minguar de 331,5 para 259,9 bilhões de reais nos últimos meses, de acordo a dados da Bloomberg. Alguns meios de comunicação apontavam, inclusive, que as autoridades o teriam advertido a não sair do país. Ma ganhou altura excessiva e esqueceu-se de que na China nada pode nem sequer se aproximar muito do Partido, muito menos superá-lo. Resta ver se o dano às suas asas é transitório, ou se ele está destinado a cair no mar.

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