Crise econômica

PIB brasileiro tem crescimento de 7,7% no terceiro trimestre, mas incerteza fiscal sobre 2021 ofusca resultado

Economia brasileira, no entanto, recua 3,9% em comparação com o terceiro trimestre de 2019, o que deve gerar queda no PIB em 2020. Segunda onda da covid-19 e fim do auxílio emergencial turvam expectativas de recuperação rápida

Rua no centro do Rio de Janeiro alterna lojas fechadas devido à pandemia com ambulantes a todo vapor, numa amostra das contradições frente à covid-19
Rua no centro do Rio de Janeiro alterna lojas fechadas devido à pandemia com ambulantes a todo vapor, numa amostra das contradições frente à covid-19Antonio Lacerda / EFE

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil teve um crescimento de 7,7% no terceiro trimestre deste ano na comparação com os três meses anteriores, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (3) pelo IBGE. No entanto, frente ao mesmo período de 2019, o indicador mostra um recuo de 3,9%― uma mostra de que ainda há muito pouco a comemorar na economia brasileira, afetada pela crise gerada pelo novo coronavírus e pelas incertezas diante de uma possível segunda onda da doença e dos efeitos do fim do auxílio emergencial do Governo, previsto para dezembro. No acumulado do ano até o fim de setembro, o PIB caiu 5% em relação a igual período de 2019, colocando a economia do país no mesmo patamar de 2017.

O PIB é um indicador que representa a soma de todos os produtos, bens e serviços produzidos no país e é usado como um termômetro da economia nacional. Os resultados desse trimestre, relativos ao período ente julho e setembro, vieram abaixo da expectativa do mercado e do Governo, que trabalhavam com um indicador de alta em torno de 8,5%. Com o crescimento, o Brasil sai da recessão, que é como se chama o período quando se acumulam dois trimestres seguidos de encolhimento no PIB. “A recessão é um estado no qual a economia do país decresce junto aos indicadores de bem-estar”, explica a explica a economista Juliana Inhasz, do Insper. No segundo trimestre o país registrou uma queda revisada de 9,6%. Já no primeiro trimestre de 2020, o recuo foi de 1,5%.

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O motivo principal para o crescimento desse trimestre é a base de comparação baixa. Os períodos anteriores foram a fase na qual o país mais foi afetado pela covid-19, causando fortes interrupções na atividade econômica. Com o gradual relaxamento dos últimos meses ―que gera preocupações na área da Saúde em torno do aumento no número de casos da doença― houve um reaquecimento da economia, puxada também pela concessão do benefício de 600 reais de auxílio do Governo federal.

“Crescemos sobre uma base muito baixa, quando estávamos no auge da pandemia, o segundo trimestre. Houve uma recuperação no terceiro, contra o segundo trimestre, mas se olharmos a taxa interanual, a queda é de 3,9% e no acumulado do ano ainda estamos caindo, tanto a indústria quanto os serviços. A agropecuária é a única que está crescendo no ano, muito puxada pela soja, que é a nossa maior lavoura”, informou por meio de nota a coordenadora do IBGE, Rebeca Palis. A agropecuária caiu 0,5% no terceiro trimestre, mas cresceu 0,4% em relação a igual período de 2019. Isso é explicado pelo crescimento da produção e ganho de produtividade do setor em relação ao ano passado. A expectativa é um crescimento anual da produção de café (21,6%), cana de açúcar (3,5%), algodão (2,5%) e milho (0,3%).

O consumo das famílias ajudou a garantir uma recuperação do PIB com alta de 7,6% no terceiro trimestre. As despesas de consumo do governo também cresceram 3,5%. Na comparação com 2019, no entanto, o consumo das famílias caiu pelo terceiro trimestre seguido (-6,0%), fortemente influenciado pela pandemia e pela crise no mercado de trabalho. As despesas do governo também caíram 5,3% em relação ao mesmo período do ano passado.

A atividade industrial teve o melhor resultado no trimestre, alta de 14,8% em relação ao período imediatamente anterior. Já na comparação com o mesmo trimestre de 2019, a queda no setor foi de 0,9%. Serviços também apresentaram recuperação de 6,3% no terceiro trimestre, puxado por comércio (15,9%) e transportes (12,5%). “O consumo de serviços teve crescimento, mas foi bem menor do que a queda anterior, pois as famílias não voltaram a consumir no patamar anterior à pandemia”, ressalta Palis. Frente ao mesmo período de 2019, o setor de serviços caiu 4,8%.

As exportações tiveram retração 2,1% no terceiro trimestre, assim como as importações, que caíram 9,6% em relação ao trimestre anterior. “A importação cai devido à baixa atividade econômica e ao câmbio desvalorizado. Por outro lado, a exportação não cresceu devido aos problemas de parceiros comerciais. Além das quedas na importação e exportação de serviços como viagens internacionais, que despencou assim como transporte aéreo de passageiros”, diz a coordenadora do IBGE. A taxa de investimento ficou praticamente estável neste trimestre em relação ao mesmo período de 2019, em 16,2% do PIB.

A recuperação do terceiro trimestre não deve ser suficiente para evitar o encolhimento da economia no ano. De janeiro a setembro, o país acumula perdas de 5% em relação a igual período de 2019. Só a agropecuária cresceu 2,4% neste período, indústria e serviços tiveram perdas, respectivamente, de 5,1% e 5,3%. A maior parte dos analistas espera uma queda entre 4% e 6% no PIB em 2020. Na terça-feira, por exemplo, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE, grupo que reúne as economias avançadas) publicou um relatório prevendo recuo de 6% e com a expectativa de que o país chegará a 2022 sem ter recuperado o PIB anterior à pandemia. O grupo destacou a “forte” resposta tanto fiscal como monetária para fazer frente a uma crise sem precedentes, como o programa de auxílio emergencial. Mas advertiu que a recuperação vai demorar a se solidificar, insistindo na necessidade de reformas estruturais que melhorem a produtividade. Pelo relatório, o país latino-americano em pior situação é a Argentina, que deve registrar uma queda histórica de quase 13% em sua economia.

“Começamos o ano achando que, se tudo desse certo, a gente cresceria pouco, 1,5%. No começo da pandemia, o cenário era caótico, com tudo fechando. Achamos que ia cair muito, 8%, 9%”, diz Juliana Inhasz. Mesmo que os números de queda não cheguem a esse ponto, o país ainda se vê diante de uma doença que já matou mais de 173.000 brasileiros e 14,1 milhões de desempregados. Um quadro que pode ser tornar ainda mais dramático a partir de 31 de dezembro, com o fim do auxílio emergencial, a principal aposta do Executivo e do Legislativo federal para segurar a crise. “Neste cenário de inflação baixa devido ao desemprego, com uma taxa de juros que não consegue estimular a economia e dívida pública elevada, que impede a manutenção do auxílio, temos um estado de constante deterioração”, diz a economista.

Sinal amarelo

O Governo Bolsonaro se mantém otimista. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia reviu de 4,7% para 4,5% a estimativa de queda do PIB para este ano, com expectativa de crescimento de 3,2% em 2021, conforme o boletim mensal de projeções da pasta. Os bons resultados da indústria e do comércio e à expectativa da aceleração da retomada do setor de serviços influenciaram na melhoria da estimativa. Mas essas projeções têm como base um cenário de retomada das atividades passado o pior da pandemia, mesmo com o coronavírus não dando sinais de ir embora tão cedo. O boletim até fala da possibilidade de uma segunda onda, “ainda que muito pequena”. “Até o momento, não há sinais de elevação de casos no Brasil. Pelo contrário, observa-se uma redução da média nacional nos últimos meses”, informou a secretaria.

Um dia após o segundo turno das eleições de São Paulo, no entanto, o governador do Estado, João Doria, voltou atrás no plano de retomada das atividades econômicas e sociais e determinou que todo o Estado retorne para a Fase Amarela do plano de contingência contra a doença, devido exatamente ao aumento de casos e internações por covid-19. Isso significa novas restrições de funcionamento de comércios e serviços, apesar da tentativa de manutenção da normalidade, como os planos de reabertura das escolas e equipamentos culturais, ainda mantidos.

O sinal amarelo sobre esse novo fechamento já havia chegado ao Planalto. “Se fechar tudo novamente não sei como podemos reagir”, afirmou Jair Bolsonaro à agência Reuters após votar no Rio de Janeiro no último domingo, durante as eleições municipais. O presidente vem reiterando que não é possível “perpetuar” o auxílio emergencial à população. “O auxílio foi endividamento mais de 700 bilhões (de reais)... o Brasil aguenta outra dessa? É como comprar fiado no botequim... chega uma hora se você não paga o cara não vende mais pra você”, afirmou. Voltou ao assunto na terça-feira. “Temos internamente os nossos problemas. Ajudamos o povo do Brasil com alguns projetos por ocasião da pandemia. Alguns querem perpetuar tais benefícios. Ninguém vive dessa forma”, disse em discurso em Foz do Iguaçu.

Marcha lenta

Apesar de, vez por outra, se discutir em Brasília a possibilidade de prorrogar o auxílio, a estratégia de insistir em medidas via tentativas e erros ―como mostram os movimentos de tentar emplacar uma nova CPMF, mudanças no Bolsa Família, retirar verba do Fundo da Educação Básica (Fundeb)―, vem sendo rechaçada politicamente dentro do Congresso. Assim, “mesmo com a recuperação da economia no terceiro trimestre e, possivelmente também no quarto, o início de 2021 ainda é uma incógnita”, afirma Paulo Picchetti, economista do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). “Apesar de a pandemia ser causa principal, ela se deu num contexto em que os graus de liberdade de política econômica para uma recuperação mais rápida já vinham se esgotando”, afirma.

Pichetti lembra que mesmo após a recessão de 2016, o Brasil vinha crescendo pouco. “Praticamente 1% ao ano, o que não foi o suficiente para colocar o país de volta no patamar de 2014”, afirma. Diferentemente do que aconteceu na crise de financeira internacional de 2008. Ali, o país saiu rápido da recessão, com o Governo gastando. “O problema agora não é se o Governo consegue aumentar os gastos a partir de 2021 ― ele não consegue manter nem o auxílio, que foi o que evitou uma crise maior”, disse.

A dimensão externa, que poderia ajudar a acelerar a recuperação do país, como aconteceu no passado, seria formada pela demanda de outras economias servindo de motor para o Brasil. “Mas com a segunda onda, num futuro próximo, essa via está descartada. Os únicos países que estão conseguindo um crescimento mais razoável estão na Ásia, especialmente a China, o que garante uma demanda para os produtos primários do país”, lembra Pichetti.

Juliana Inhasz, do Insper, explica que, assim como a queda em 2020 foi vertiginosa, uma subida rápida depende de dois fatores: uma iniciativa privada confiante na retomada e com interesse em investir, ou um Estado que possa gastar, para ajudar na geração de emprego. “O problema do Brasil é que não temos nem uma coisa nem outra. O Governo não tem capital político ou credibilidade com o setor privado para fazer a economia subir. Por isso, vamos nos recuperar em marcha lenta, depois dos demais”, diz. Pichetti foi taxativo ao explicar a melhor estratégia: “No curto prazo, vamos torcer para termos uma vacina”. A tão falada recuperação da economia no formato de V, desejada pelo Governo, parece seguir nesse momento mais como um desejo do ministro Paulo Guedes do que como um cenário consolidado.

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