Pandemia de coronavírus

Escalada do coronavírus no Brasil põe demissões e recessão à vista

Governo projeta crescimento próximo de zero em 2020, mas estimativas do mercado chegam a 4,4% negativos. Setor cultural já registra cortes evarejo e atividades de lazer podem ser as próximas afetadas

No Rio de Janeiro, bares e restaurantes não têm caixa para atravessar crise.
No Rio de Janeiro, bares e restaurantes não têm caixa para atravessar crise.Tomaz Silva (Agência Brasil)

Há nove dias, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o surto da Covid-19 como uma pandemia e o Brasil confirmava 52 casos da doença no país, o Governo de Jair Bolsonaro revisava o crescimento brasileiro deste ano de 2,4% para 2,1%. Nesta sexta-feira, com 11 mortes, 904 casos confirmados e um decreto de estado de calamidade pública no país, a revisão dos cálculos da equipe econômica foi bem mais drástica: o país caminha para a estagnação e irá crescer próximo de zero, 0,02%, em 2020. Já os mercados e instituições privadas estimam números bem mais pessimistas. Segundo previsão da Fundação Getulio Vargas (FGV), a economia brasileira poderá ter contração de 4,4% em 2020, com riscos de a atividade ainda sentir efeitos negativos “significativos” até 2023.

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Vem aí recessão e demissão. Bares e restaurantes, empresas da área cultural e varejo são dos primeiros a começar a fazer seus cálculos. Em São Paulo, por exemplo, o Estado proibiu o funcionamento do comércio a partir desta sexta, o que deve impactar a taxa de desemprego, que hoje já é alta, de 11,2%, com uma população desocupada de 11,9 milhões de desempregados. É uma urgência não só no Brasil, como no mundo. A crise gerada pelo Covid-19 pode aumentar o número de desempregados em quase 25 milhões, segundo estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e uma perda de rendo do trabalhador de 3 trilhões de dólares.

Por ora, algumas empresas no Brasil tentam adiar o inevitável. Companhias aéreas, por exemplo, optaram por reduções de jornada e salário. A Gol Linhas Aéreas, por exemplo, decidiu reduzir as horas trabalhadas e os salários para funcionários e diretores diante da crise no setor, que é hoje um dos mais afetados com a redução de voos. A jornada dos colaboradores internos e aeroviários será reduzida em 35%, assim como as remunerações e benefícios. Já os diretores, vice-presidentes e o CEO terão uma redução salarial de 40%, válida para os meses de abril, maio e junho. A empresa não descarta, no entanto, revisão da medida a depender da evolução da crise gerada pela pandemia. Segundo o Sindicato Nacional dos Aeroviários (SNA), as companhias aéreas apresentaram seus programas sem dar qualquer possibilidade de colocar as propostas em assembleia para a categoria.

O Governo também quer permitir que as empresas afetadas pela crise do coronavírus cortem temporariamente metade da jornada e dos salários dos trabalhadores. Nos próximos dias, uma medida provisória (MP) deve ser editada para flexibilizar normas trabalhistas durante o estado de calamidade pública. “Não é algo simples, mas a ideia é preservar o emprego. Muito mais grave, diante de uma crise dessa, é a pessoa perder o emprego e sobreviver sem salário”, justificou o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco. Segundo ele, a ideia é que o trabalhador tenha uma renda de subsistência durante o estado de calamidade. Atualmente, a legislação permite, que por motivos de força maior, as empresas reduzam até 25% da jornada e do salário dos funcionários. Enquanto a proposta não sai do papel, empresários consultam advogados trabalhistas para saber qual caminho tomar.

Mas alguns, já começaram seus cortes assim que a epidemia deu as caras no Brasil. Funcionária de um restaurante inaugurado há apenas seis meses no Museu de Artes de São Paulo (Masp), Fernanda (nome fictício) recebeu na última terça-feira, um comunicado de que ela e seus 30 colegas estavam sendo cortados num processo de demissão coletiva. Na véspera, todos já tinham sido dispensados de ir trabalhar, já que o museu anunciou seu fechamento por tempo indeterminado. Nesta sexta, porém, ela foi informada que a demissão está suspensa por uma semana, já que o restaurante espera um último posicionamento do Governo sobre o setor para tomar a decisão final. “Os museus foram os primeiros a serem fechados e serão os últimos a voltarem, porque não se trata de um serviço essencial e gera aglomeração”, constata a funcionária ainda anestesiada com a situação de demissionária. Ela sabe que sua situação é difícil. “O local é novo, ainda não tem caixa para possibilitar férias coletivas, e se viu obrigado a fechar, a chefia não teve outra opção, muito triste”, conta . Outro funcionário de uma empresa também da área de cultura contou ao EL PAÍS que com o cancelamento e adiamento de vários eventos, um grupo grande foi demitido da companhia em que trabalha.

As grandes fábricas também já começam a fazer seus ajustes e a parar. Várias montadoras, como a Ford, Volkswagen, a General Motors e a Mercedes-Benz, anunciaram que irão suspender a produção nos próximos dias por tempo indeterminado e darão férias coletivas para os funcionários. Juntas somam mais de 50.000 funcionários que estarão em casa recolhidos por conta da disseminação da doença.

A equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou nesta semana que pretende pagar uma parcela do seguro-desemprego a trabalhadores que tiverem o salário e a jornada reduzidos pelos empregadores para amenizar os efeitos da Covid-19 na atividade econômica. No último dia 16, Guedes já tinha anunciado um pacote de estímulos de quase 150 bilhões de reais, além de prometer descomprimir o Bolsa Família.

De acordo com a pasta, as pessoas que recebem até dois salários mínimos (2.090 reais) e tiverem a redução de salário e jornada, receberão uma antecipação de 25% do valor de seguro-desemprego a que teriam direito mensalmente. O ministério informou que o menor benefício que será pago será de 261,25 reais e o maior, de 381,22 reais.

Há dúvidas sobre a eficiência da política do Governo que entrou com a promessa de enxugar o Estado, e agora se vê às voltas com as decisão de aumentar o gasto público numa situação de emergência. Guedes anunciou, por exemplo, que a meta fiscal deste ano está suspensa. “As medidas de Paulo Guedes são interessantes, mas acabam beneficiando as grandes empresas e indústrias. E os pequenos?”, questiona o professor Otto Nogammi, do Insper. “Quem tem problema de fluxo e estrutura enxuta não tem saída. As medidas não ajudam a sociedade como um todo”, avalia o professor.

Na avaliação da corretora XP investimentos, a magnitude das medidas da equipe de Guedes ainda parece “aquém considerando o tamanho da urgência na área da saúde e da desaceleração econômica em curso". “O Governo parece reticente em avançar no gasto fiscal, apesar da flexibilização do primário decorrente da oficialização do estado de calamidade pública”, avalia a corretora em relatório.

A manutenção do emprego é um desafio no mundo inteiro neste momento.Na França, por exemplo, o Governo vai pagar aluguéis de empresas e até os salários de funcionários de empresas que não são necessários na crise.

Aos informais, 200 reais

No início da semana, a equipe econômica do Governo anunciou um pacote de 147,3 bilhões de reais para atenuar os efeitos da crise, com suporte principalmente às empresas. Nesta quinta, garantiu apoio para as pessoas sem contrato formal de trabalho, que representam quase metade da força produtiva do país. O Governo Bolsonaro propôs uma ajuda de 200 reais por três meses para trabalhadores informais que estão no Cadastro Único, o que atingiria 38 milhões de pessoas.

A decretação de estado de calamidade pública, aprovada pelo Senado nesta sexta-feira, é avaliado por Nogammi também como um importante passo para dar maior flexibilidade financeira para o Governo Federal, que poderá gastar um pouco mais do que a meta fiscal que se havia imposto. “ Será preciso abrir mão de tudo que foi conquistado fiscalmente nos últimos dois anos. Mas, quando tudo voltar ao normal e com um planejamento bem claro, as contas públicas voltarão aos patamares de hoje”, diz.

O professor alerta, no entanto, que os problemas podem perdurar mais do que dois meses, como estimado pelo ministro Paulo Guedes. Para ele, a crise afetará principalmente pequenos, micros e médios empresários e avalia que dar um bônus de 200 reais é tapar o sol com a peneira. “O que manteve a economia em pé foi o consumo por via de crédito nos últimos anos. Com a paralisia, como ficará o endividamento das famílias, que será potencializado por mais desemprego? Vamos ter esse outro problema”, conclui.


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