Na espiral do coronavírus, o juro mais baixo no Brasil encontra o dólar mais caro da história, a 5,20 reais

Moeda americana atinge maior patamar, enquanto Copom reduz juro de 4,75% para 3,25%. Real é a moeda que perde mais valor no continente, e BC “queima” reservas internacionais

Notas de dólar.
Notas de dólar.Sebastiao Moreira / EFE

Nesta segunda-feira, o dólar fechou pela primeira vez na história cotado acima de 5 reais, quebrando uma barreira psicológica no câmbio. Era só um prenúncio do que viria em seguida. Após mais um dia de pânico nos mercados financeiros, refletindo a crise da pandemia de coronavírus, a moeda norte-americana fechou em 5,1976 nesta quarta, depois de alcançar 5,238 ao longo do dia. O valor recorde fez a moeda brasileira acumular uma desvalorização de 21,11% neste ano (até o dia 18 de março). Comparada a outras divisas dos países emergentes, tirando o rublo russo (-23,40%), o real é hoje a que mais se depreciou em 2020, seguida pelo pelo peso colombiano (-20,08%) e o peso mexicano (-20,55%).

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Embora a valorização do dólar em todo o mundo seja fruto da aversão a risco do mercado com a disseminação do Covid-19 e seus efeitos na atividade global, o desempenho do real frente à moeda americana já se mostrava pior que a de outras economias bem antes do coronavírus se tornar a maior preocupação mundial. Na avaliação de especialistas escutados pelo EL PAÍS, alguns fatores domésticos fazem o dólar, um dos investimentos mais seguros do mundo, ficar mais caro no Brasil.

Um deles são os constantes cortes da taxa de juros brasileira dos últimos anos. A redução da Selic para patamares mínimos históricos tornou muitos investimentos atrelados a essa taxa menos atraentes para investidores estrangeiros, o que fez muito do dinheiro especulativo sair do país, desvalorizando o real. Nesta quarta-feira, diante dos impactos da pandemia do coronavírus, o Banco Central anunciou um corte de 0,5 ponto percentual da Selic, o que levou a taxa básica de juros a um patamar recorde de 3,75% ao ano.

A previsão da atividade estagnada por força da quarentena imposta pelo coronavírus já deixa claro que o crescimento do país para 2020 será, com sorte, acima de 1%. Mas não é só a Covid-19 quem traz essa perspectiva. “Antes mesmo do coronavírus, o que começou a ficar claro neste começo de ano é que a continuidade da agenda de reformas estava ficando muito difícil. O presidente não encampa a ideia com ardor, se desentende com o Congresso e não apresenta as reformas”, afirma o professor João Luiz Mascolo do Insper. O professor teme que diante da pressão de uma crise global e de uma tentação eleitoreira, o Governo encontre como saída eliminar o teto de gastos, o que aumentaria o problema fiscal brasileiro gerando um novo quadro de incertezas.

“O Brasil só começa depois do carnaval e quando o Congresso voltou a funcionar houve vários fatos controversos, como o presidente chamando o protesto contra o Legislativo, que derrubou veto de Bolsonaro ampliando gastos, inviabilizando o teto [de responsabilidade fiscal]”, explica Evandro Buccini, diretor de renda fixa e multimercados da Rio Bravo. “Isso tudo fica muito estranho para quem olha o país de fora e aqui dentro também gera uma incerteza grande”, completa.

Silvio Campos, da Tendências Consultoria, concorda que o componente doméstico sobre o futuro do crescimento do país pesa bastante na desvalorização do real e ressalta que, para além do coronavírus e da política, o preço das commodities, principalmente do petróleo, que viu seu preço despencar após disputa entre Arábia Saudita e Rússia, também tem influência nessa equação. “As moedas que têm ligação com o petróleo passaram a sofrer como o real. Rubro russo, peso colombiano e mexicano. Se a gente pega um corte desde o início da crise do coronavírus, em janeiro, as moedas de emergentes e de países que têm uma ligação maior com commodities foram as que sofreram mais”, explica.

Queima de reservas

Com o dólar nas alturas, o Banco Central brasileiro tem feito alguns movimentos na tentativa de reduzir a desvalorização da moeda brasileira. Para conter a escalada da moeda norte-americana, o BC vendeu na semana passada 7,2 bilhões de dólares à vista aos agentes financeiros. Na prática, significa que o Governo “queimou” parte das reservas internacionais, que atualmente são de 367 bilhões de dólares, para segura o preço do dólar. Segundo o jornal Estado de S. Paulo, o BC vendeu 28 bilhões de reais à vista ao longo de todo o segundo semestre do ano passado para enfrentar as flutuações da divida. Só, na semana passada, no entanto, precisou vender um quarto desse montante.

“Elas servem para isso. Na época que vivemos uma bonança, como foi no boom de commodities, em 2011 e 2012, você acumula reservas para uma situação de crise. Para você ter esse tipo de munição e segurar os impactos nos momentos de dificuldade. É o que está sendo feito. Temos atualmente cerca de 370 bilhões, o que é muita coisa e só estamos usando uma parcela”, diz Campos da Tendências.

Mascolo, do Insper, concorda que as reservas ainda estão em níveis confortáveis, já que representam quase três vez o valor da dívida externa brasileira, mas diante de um panorama de incerteza pela frente não acha recomendável baixar as reservas. “Não é prudente gastar reservas em um país que não tem uma confiança internacional grande, que não existe confiança nas reformas e nem certezas sobre as políticas do futuro. Queimar reservas é uma temeridade”, explica. O professor avalia, no entanto, que o BC continuará nesse movimento por uma questão de imagem, de não querer permitir uma pressão na inflação, que diminua a liberdade do banco baixar os juros, e também para não afetar as contas da balança comercial.