‘Schitt’s Creek’: como uma pequena comédia canadense fez história no Emmy

O boca a boca e a crítica estimularam o fenômeno ‘cult’ criado em torno da série de Daniel e Eugene Levy. Série pode ser vista no Brasil

Eugene Levy e Catherine O'Hara, em um episódio da quinta temporada de 'Schitt's Creek'.
Eugene Levy e Catherine O'Hara, em um episódio da quinta temporada de 'Schitt's Creek'.

“Uma amável recordação de que as séries precisam de tempo e espaço para fincar raízes, se desenvolver e crescer. Em mãos erradas, esta série teria saído do ar em sua primeira temporada por ‘baixo rendimento’.” Daniel Levy, um canadense de 37 anos e com quatro Emmys debaixo do braço, tinha motivos para estar exultante na segunda-feira, depois que a ficção que criou com seu pai, Eugene Levy, e que dirige, produz, escreve e interpreta, fez história na mais importante premiação da televisão.

Schitt’s Creek estava em todas as apostas para levar o troféu de melhor comédia e alguns dos prêmios de interpretação, mas ninguém esperava que arrasasse tanto: nunca antes uma mesma série, comédia ou drama havia saído com todos os prêmios de sua categoria na cerimônia da Academia de Televisão dos Estados Unidos. Os quatro de interpretação, roteiro, direção e melhor comédia.

Se forem somados os outros dois que conquistou nos dias anteriores, o total de nove troféus que recebeu na semana passada coroam Schitt’s Creek como a comédia mais premiada de todos os tempos no Emmy em um mesmo ano. Essa façanha, quase com certeza, não estava nos planos de seus criadores quando em 2015 esta série foi lançada na emissora de televisão pública canadense CBC. Na segunda-feira Levy dedicou no Twitter uma mensagem à CBC e ao pequeno canal pago Pop TV, na qual agradeceu por terem tido uma paciência que muito poucas redes e plataformas demonstram ultimamente e que, se deveria ser algo básico na televisão, é ainda mais no caso das comédias.

A série cult a que os membros da academia norte-americana se renderam começou há cinco anos e meio como a clássica história do peixe fora d'água. A rica família Rose perde tudo. Ficam apenas com uma cidadezinha chamada Schitt’s Creek, que o pai comprou como presente de aniversário para seu filho em uma espécie de piada boba. Acostumados a todos os luxos imagináveis, os quatro membros da família precisam se mudar para um motel de péssima categoria dessa cidade e recomeçar a vida do zero.

Em suas seis temporadas, a série evolui para um hino à família e, como Daniel Levy disse em um de seus muitos discursos de agradecimento no domingo, “os efeitos transformadores do amor e da aceitação”.

Daniel e Eugene Levy criaram a série movidos pela curiosidade sobre como seria a vida para bilionários capazes de excentricidades tais como adquirir uma cidade inteira. Tentaram vender a ideia para diferentes redes abertas e pagas nos Estados Unidos, mas ninguém a comprou.

Por fim, conseguiram reunir o orçamento necessário em um acordo com a rede canadense CBC, a distribuidora europeia ITV Studios e o canal pago Pop TV, propriedade do conglomerado de mídia ViacomCBS e no qual a série foi veiculada nos Estados Unidos após a estreia no Canadá. Mas foi só depois de estar disponível na Netflix em 2017 que começou a ganhar audiência entre o público dos EUA. No Brasil, a série é exibida no canal pago Comedy Central e está disponível nos sites de streaming UOL Play e Amazon Prime Video (com assinatura à parte do canal Paramount+).

Graças ao boca a boca e a uma pequena, mas ruidosa, base de fãs, o público da série aumentou temporada após temporada, algo de que poucas produções de televisão podem se vangloriar. Entre o primeiro e o quarto ano, a audiência dobrou na Pop TV. Com a quinta temporada, alcançou suas quatro primeiras indicações ao Emmy (que não se traduziram em prêmios) e na sexta e última edição, exibida no início deste ano, a série já era um fenômeno cult que recebia a atenção da grande mídia dos EUA. Somando as exibições ao vivo e as posteriores, a última temporada teve uma média de um milhão de espectadores na Pop TV, uma grande conquista para um canal tão pequeno.

Com esta produção, os veteranos da comédia Eugene Levy e Catherine O’Hara conquistaram os primeiros Emmy de interpretação de suas carreiras (ambos haviam conquistado o prêmio como roteiristas). Levy declarou em uma entrevista ao The New York Times que as novas gerações agora o reconheciam nas ruas por seu papel na série e não como o pai de American pie. Algo parecido acontece com O’Hara depois de anos de carreira e papéis tão icônicos como o da mãe de Esqueceram de mim. O sucesso da série serviu como um trampolim para a carreira de Daniel Levy, que em 2019 assinou um contrato de três anos com a ABC Studios para criar séries.

O triunfo de Schitt’s Creek corresponde ao auge da chamada comfort tv, programas que confortam os espectadores, os levam para um lugar seguro e feliz e os ajudam a escapar da realidade. É um tipo de televisão que experimentou um crescimento de demanda durante o confinamento decorrente da covid-19. Além disso, Schitt’s Creek foi aplaudida pelo tratamento respeitoso e progressista à comunidade LGBTI.

Mais informações