67ª Festival de San Sebastián

Kristen Stewart, uma voz para toda uma geração

“Como muitos norte-americanos, me sinto atacada por meu Governo”, afirmou a atriz na apresentação de ‘Seberg contra todos’, que estreia nesta quinta-feira, em San Sebastián

Kristen Stewart, na apresentação de ‘Seberg’ em San Sebastián.
Kristen Stewart, na apresentação de ‘Seberg’ em San Sebastián.Javier Etxezarreta / EFE

Kristen Stewart (Los Angeles, 29 anos) diz que quando leu o roteiro de Seberg contra todos, que estreia nesta quinta-feira no Brasil, sentiu que era uma história que tinha que ser contada, mas a atriz não vai além, nem aprofunda os evidentes paralelismos entre ambas as artistas, ela e Jean Seberg, norte-americanas que encontraram na França diretores que as entenderam e um tipo de cinema onde suas vozes tiveram uma função, e ambas, inclusive, mulheres ultravigiadas: Stewart pelos meios de comunicação e as redes sociais, Seberg pelo FBI. Disso trata o filme, sobre como o órgão então ainda dirigido por Hoover decidiu destroçar a protagonista de Acossado quando ela começou a financiar uma obra social destinada a crianças negras, inicialmente, e depois aos Panteras Negras (partido radical afro-americano). “Não acredito que Seberg tentasse romper regras nos anos sessenta”, conta a um grupo de jornalistas a atriz de Acima das Nuvens, Personal Shopper e, pois é, Crepúsculo. “Simplesmente, quis encontrar seu lugar no mundo, e naquela época em sua motivação por ser artista encontrou na França uma paisagem existencialista que explorou no cinema. Hoje vivemos outras culturas, sobretudo quanto à juventude e as mulheres.”

Em Seberg contra todos, que inaugurou a seção Perlak do Festival de San Sebastián (Espanha) em setembro do ano passado, o diretor Benedict Andrews mostra ―com certa falta de brio― a espionagem à qual foi submetida a atriz em suas estadias nos EUA no final da década de 1960, quando rodou Os Aventureiros do Ouro, Aeroporto e Macho Callahan, anos em que se envolveu na luta antirracista da população afro-americana. Talvez até demais: teve um caso com o líder Hakim Jamal, primo de Malcom X, e seu talão de cheques sempre disponível para os Panteras Negras chamou a atenção do FBI, que fez o possível para arruinar sua vida profissional e pessoal ―naquele momento estava casada com o escritor Romain Gary. “Não me sinto atacada de maneira específica, como aconteceu com Seberg”, observa a atriz, “mas de maneira mais geral, como muitos norte-americanos, me sinto atacada por meu Governo”. E prossegue: “Os Estados Unidos estão em guerra consigo mesmos. Às vezes é difícil reconhecer o meu país no panorama atual. Entretanto, estou esperançosa, há eleições em breve. Quando as pessoas são infelizes, se desconectam do resto. É hora de nos religarmos.”

Fazer o papel de Jean Seberg pode inclusive ter sido terapêutico para Stewart. Uma atriz poderia se sentir reconfortada ao ouvir seus medos na personagem de outra atriz que ela encarna: “Na arte, as coisas ficam interessantes quando você sente medo. É o primeiro passo para qualquer conversa filosófica, e para que se sinta comprometido com o que faz. Também reconheço que o presente de poder compartilhar um trabalho com o público é maravilhoso. Se você se fecha, se protege, cria algo chato e sem interesse, que não vale a pena. Minha sorte é que distingo muito bem meu trabalho da minha vida, tenho-as claramente compartimentadas e não necessito uma vida alternativa no cinema para completar a minha. Não confundo. Mas insisto: quando algo te assusta, costuma valer a pena”, responde. Stewart usa vários colares, um deles com um cadeado. Sua sombra de olhos é uma mancha negra retangular que salienta um olhar que solta faíscas. Os diretores que trabalharam com ela falam de alguém doce, tímida, com muito critério e uma cabeça muito bem mobiliada. Nas entrevistas, prefere as respostas longas, mesmo que na metade do seu discurso pare porque duvida, e se corrija. Nessa forma de se expressar, lembra muito Robert Pattinson, seu ex-colega de Crepúsculo.

Kristen Stewart gosta de trabalhar em histórias que considere necessárias para os espectadores. “Esta era. Não tanto por contar de maneira muito específica o que Seberg viveu, mas porque através dela chegamos a um tempo e um lugar.” Mas Seberg foi uma das pioneiras em usar sua posição de estrela para ser porta-voz de causas sociais, algo que hoje em dia se tornou habitual. “E acho bom que todos usemos os alto-falantes, as plataformas que nos cercam para deixarmos claras nossas opiniões”, afirma. “Não me refiro só a atores e atrizes famosos, mas a todo mundo. Para isso estão aí as redes sociais, ou para isso deveriam servir, para sermos nós mesmos. Na verdade, não sei por que estou falando destas redes, se nem as tenho. Admito que vivo em um lugar privilegiado e me beneficio disso. Nem sequer tenho que erguer a voz: vocês, jornalistas, me fazem as perguntas. Bom, não sou especial e acredito que com as redes sociais o diálogo se abriu a todo mundo.”

Quando lhe perguntam se se sente espionada no mundo atual, Stewart brinca, de maneira temerária, sobre as intenções da produtora do filme, a Amazon Studios. Então fica séria e entra no assunto: "Nem toda sociedade é um conjunto fechado. E por isso devemos nos incomodar se alguém tem uma opinião contrária à sua [Stewart gesticula como se gritasse]. Às vezes você está aí projetando suas próprias inseguranças nos outros”.