O fotógrafo que capturou as muitas almas de São Paulo

No aniversário da cidade, o Instituto Moreira Salles inaugura uma retrospectiva de Peter Scheier, que retratou a pujança e a desigualdade da metrópole

Foto para a reportagem “Santo Amaro, refúgio de paulistanos”, em 1948.
Foto para a reportagem “Santo Amaro, refúgio de paulistanos”, em 1948.Peter Scheier / Acervo IMS

Do famoso circo do Palhaço Piolim, no centro da cidade, passando pela ocupação dos bairros de Santo Amaro e do Brás, até a construção do Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) e a primeira Bienal de São Paulo. Poucos retrataram a maior cidade do Brasil como Peter Scheier, alemão de origem judaica, que aportou no país em 1937 como refugiado do regime nazista. Comerciante e contador na pequena cidade alemã de Glogau, Scheier profissionalizou no Brasil o que antes era apenas um hobby: sua paixão pela fotografia. Durante 35 anos, viajou de norte a sul, registrando o crescimento e as contradições do país e construindo um acervo de 35 mil negativos. Neste 25 de janeiro, quando São Paulo comemora 466 anos, o Instituto Moreira Salles (IMS) inaugura a primeira retrospectiva de Scheier em 50 anos, com 300 obras, entre fotografias, publicações e documentos, com destaque para sua produção na capital paulista. Os visitantes poderão vê-la até 24 de maio.

Scheier retratou especialmente o crescimento urbano da região entre os anos 1940 e 1950 como fotojornalista da revista O Cruzeiro, onde fez cerca de 100 reportagens sobre esportes, religião, saúde e problemas sociais. Na curadoria feita por Heloisa Espada, chamam a atenção os registros de crianças brincando nos cortiços de imigrantes italianos no Brás ou a venda dos primeiros lotes de terrenos residenciais no bairro de Santo Amaro. “Ele tinha uma coisa meio Cartier-Bresson, uma facilidade para fotografar pessoas, transmitia uma empatia”, comenta a curadora.

Espada reconhece, no entanto, que, durante o período n’O Cruzeiro, cujas narrativas eram por vezes sensacionalistas, Scheier retratava muito o ponto de vista da classe média urbana branca e “olhava para as outras camadas da sociedade brasileira de um jeito bem pejorativo”. “Tinha um flash bem expressivo, bem dramático, para causar impacto”, comenta ela.

Espada também destaca seu apurado olhar técnico, com uma sofisticação para compor diferentes planos. Daí nasceu a relação de Scheier com a arte e a arquitetura modernas. Destacou-se nessas áreas ao colaborar com nomes como Lina Bo Bardi, Rino Levi, Gregori Warchavchik e Carlos Bratke.

Também fez importantes registros do Masp, desde sua criação, em 1947, até 1955, ao lado de Pietro Maria Bardi, então diretor do museu. Ali, documentou obras do acervo, exposições, cursos e diversos eventos sociais.

Em 1951, fotografou a primeira Bienal de Arte de São Paulo: imagens dos bastidores, como a vistoria de artistas e diretores de museus, transporte das mais de 1800 obras e limpezas das salas são alguns dos registros históricos do evento que podem ser vistos no IMS.

“Muitas de suas imagens constroem o que se considerou os ‘anos dourados’ do Brasil. Por outro lado, seu trabalho como fotojornalista explicita as contradições do processo de crescimento urbano e econômico da cidade”, resume Espada.