‘1917’ é a grande surpresa no Globo de Ouro 2020

Drama bélico de Sam Mendes e ‘Era uma vez em... Hollywood’, de Quentin Tarantino, triunfam em uma noite desastrosa para os filmes da Netflix e para ‘O Irlandês’, de Scorsese

O diretor Sam Mendes recebe o prêmio por melhor filme na categoria drama com '1917'
O diretor Sam Mendes recebe o prêmio por melhor filme na categoria drama com '1917'HANDOUT / Reuters

Assim se esquenta uma estreia. O longa 1917, que só poderá ser visto a partir da próxima sexta-feira, ganhou neste domingo o prêmio de melhor drama no Globo de Ouro de 2020. O drama bélico de Sam Mendes, inspirado na experiência do seu avô na Primeira Guerra Mundial, levou o troféu mais cobiçado da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, num ano em que a lista de indicados era de altíssimo nível. Era uma vez em... Hollywood, a carta de amor de Quentin Tarantino a uma Los Angeles idealizada no verão de 1969, foi certamente o outro grande ganhador da noite. Levou o prêmio de melhor filme na categoria de comédia e musical, uma classificação discutível, mas que serve ao seu propósito. Além disso, venceu nas categorias de melhor roteiro e melhor ator coadjuvante (Brad Pitt), e deixou claro que de novo a indústria adora se ver refletida na tela, especialmente com essa qualidade.

As decisões do Globo de Ouro abalaram os dois filmes com mais indicações deste ano, O Irlandês e História de um Casamento. O drama de Martin Scorsese, com um legendário elenco de mafiosos, não recebeu nenhum dos cinco prêmios que disputava. Já o filme de Noah Baumbach sobre um divórcio estava indicado em seis categorias, mas ganhou só uma, o de atriz coadjuvante, para Laura Dern no papel de uma advogada especializada em divórcios.

A plataforma Netflix levou uma surra. Tinha instituído um marco na irrupção de novos criadores em Hollywood, com um total de 17 indicações para seus filmes e outras 17 para as séries. Quatro dos 10 longas com indicações eram da Netflix, que no entanto levou só dois prêmios: para uma atriz em cinema, outra de televisão.

A melhor atriz em drama foi Renee Zellweger, outra interpretação que impactou a indústria e a colocou como favorita a todos os prêmios deste ano. Zellweger interpreta Judy Garland na fase decadente em Judy. O discurso da atriz foi emocionante porque ela tinha sido praticamente despejada pela indústria, e nesta temporada impactou a crítica com seu trabalho. “Vocês estão muito bem 17 anos depois”, disse no palco. “Obrigada por me convidar de volta a esta reunião familiar. O topo não importa. O importante é a viagem e o trabalho.”

Antonio Bandeiras havia sido indicado a melhor ator de drama, por Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, junto a Joaquin Phoenix. “Todos sabemos que não há uma porra de uma competição entre nós. Sou um pupilo de vocês”, disse Phoenix ao receber um prêmio para o qual já era tido como ganhador há vários meses. O que fez Phoenix em Coringa, de Todd Phillips, é uma das interpretações mais celebradas dos últimos anos.

A lista de estrelas que se reuniu no domingo à noite, nos primeiros prêmios importantes de Hollywood nesta temporada, é irreproduzível sem deixar uns 20 nomes de fora. Uma confluência de fatores juntou no placo do Hotel Beverly Hilton de Los Angeles uma quantidade de star power impactante inclusive para esta cidade. Havia uma rara concentração de filmes de primeiro nível indicados – e não só para fazer número – e com elencos estelares. Além disso, os indicados em televisão há bastante tempo são as mesmas estrelas do cinema. Com a guerra do streaming, todo mundo está trabalhando em alguma coisa. E a cerimônia, ainda por cima, coincidiu com o período de votação do Oscar, cujos finalistas serão anunciados na próxima segunda-feira, 13 de janeiro. O difícil era dizer quem não estava neste Globo de Ouro. “Estar lá sentada vendo todo mundo é muito emocionante”, disse Olivia Colman. “Ficamos o tempo todo: 'Olha quem é esse, olha quem é aquele”.

É verdade que, quando Elton John subiu ao palco com seu parceiro artístico, o letrista Bernie Taupin, toda a elite de Hollywood ficou em pé para aplaudi-los. Tagon Egerton, o ator que o interpreta em Rocketman, foi premiado como melhor ator em sua categoria. John e Taupin voltaram a subir ao palco para receber o prêmio de melhor canção.

Neste ano, os filmes em língua estrangeira foram especialmente celebrados em Hollywood, especialmente Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho, e Dor e Glória, do espanhol Pedro Almodóvar. Era um dos grandes duelos da noite, e o prêmio foi para a comédia de Bong. Parasita também havia sido indicado nas categorias de direção e roteiro, o que indicava de saída certa preferência. Ambas continuam sua promoção com vistas ao Oscar.

A categoria com maior concentração de talento de primeiro nível era provavelmente a de ator coadjuvante. Brad Pitt, por Era uma vez em... Hollywood, Anthony Hopkins por Dois Papas, Al Pacino e Joe Pesci por O Irlandês, e Tom Hanks por Um Amigo Extraordinário. Ganhou Pitt, por um dos melhores papéis da sua vida. Durante a apresentação de um prêmio anterior, ele disse: “Quando perguntei a Quentin como queria que interpretássemos dois velhos astros do cinema em fim de carreira, ele me disse: ‘Sejam vocês mesmos’”. O prêmio é discutível. Pitt qualificou todos os seus rivais como “deuses”, e é isso que são. Mas talvez em Pitt se junte que, além de estar brilhante, não ostenta um status de lenda à altura dos outros, e isso o torna mais gratificante.

A cara de Martin Scorsese enquanto Tarantino subia para receber o prêmio de melhor roteiro revelava sua perplexidade. Tarantino lhe deu a razão: “Não consigo acreditar que ganhei de Steve Zaillian (roteirista de O Irlandês)”. A competição entre dois dos maiores criadores de Hollywood teve uma surpresa, entretanto, no prêmio de melhor direção. Em uma lista com Tarantino, Scorsese, Bong Joon-ho e Todd Phillips, o melhor diretor foi Sam Mendes, por 1917, um drama bélico que ainda não estreou nos Estados Unidos, mas que impressionou os críticos por sua técnica: Mendes faz que o filme inteiro pareça um só plano-sequência. “Não há um diretor nesta sala nem no mundo a quem Martin Scorsese não faça sombra”, disse Mendes para suavizar a surpresa.

Além dos 25 troféus do Globo de Ouro para lançamentos da temporada, a cerimônia inclui também dois prêmios honorários, o Cecil B. de Mille, como homenagem a uma carreira no cinema, e, desde ano passado, o prêmio Carol Burnett, para profissionais da televisão. A segunda pessoa a receber esse prêmio foi, neste domingo, a apresentadora e comediante Ellen Degeneres. Ela se tornou um símbolo dos direitos civis em 1997, quando, no auge da sua carreira, com uma série própria levando seu nome, revelou ser homossexual. Degeneres foi demitida. Hoje, é um dos rostos mais importantes da televisão. No palco, fez um magnífico monólogo cômico que fica para o YouTube. O prêmio Cecil B. De Mille, por sua vez, foi entregue neste ano a Tom Hanks. Só o vídeo de introdução com seus melhores momentos na tela já era o suficiente.

Na televisão, o Globo de Ouro rompeu sua tradição de descobrir novas séries para o público. Tampouco havia muita margem para isso, já que as séries que venceram no ano passado continuam reinando. O melhor drama foi Succession, da HBO, e a melhor comédia Fleabag, da Amazon. Não houve nenhuma dúvida, a ponto de o melhor ator ser Brian Cox e a melhor atriz Phoebe Waller-Bridge. Apenas a terceira temporada do The Crown competiu seriamente com eles. Olivia Colman, a nova rainha Elizabeth, ganhou o prêmio de melhor atriz. A melhor minissérie foi Chernobyl. Os críticos só puderam repetir o prêmio Emmy e se permitiram apenas uma excentricidade, que foi recompensar Ramy Rousseff, criador de Ramy, como melhor ator de comédia. “Sei que vocês não viram a minha série”, disse no palco.

O melhor ator de minissérie foi Russell Crowe por interpretar o fundador da Fox News em The Loudest Voice in The Room. Crowe estava na Austrália “protegendo sua família dos incêndios”, disse Jennifer Aniston. Ele enviou uma mensagem dizendo que a terrível onda de incêndios é consequência da mudança climática. Foi um detalhe em uma cerimônia em que a luta contra a mudança climática foi um dos assuntos que os organizadores queriam colocar na televisão. Por exemplo, tudo o que foi servido no jantar era vegano.

A decisão de contratar Ricky Gervais mais um ano para apresentar a cerimônia tinha toda a chance de ser repetitiva e cansativa. Gervais foi brilhante, com uma introdução na qual zombou de Scorsese (por não ser alto o suficiente para desfrutar de um parque de diversões) e de Joe Pesci (que chamou de “Baby Yoda”). Houve suspiros de horror quando mencionou o pedófilo Jeffrey Epstein e ainda assim conseguiu continuar a piada e colocar o príncipe Andrew. Gervais fez poucas intervenções, não tentou sequestrar o espetáculo e deixou a bile bem no limite para fazer rir muito.

Gervais reservou o último tapa para o final: “Sandra Bullock atuava em Birdbox, um filme em que fazia como se não visse nada. O mesmo que trabalhar com Harvey Weinstein”. Estupor na sala. “Foram vocês, não eu!”.