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Condores ameaçados de extinção têm crias por reprodução assexuada, apesar da proximidade de machos

Fêmeas já tinham tido descendência por via sexual em numerosas ocasiões. É o primeiro caso de partenogênese conhecido em qualquer espécie de ave na qual a fêmea tinha machos por perto

Condores California reproduction
Um condor da Califórnia chamado ‘Molloko’, fotografado no San Diego Zoo Safari Park, onde foram descobertos dois filhotes desta espécie que nasceram de ovos não fertilizados.MIKE BLAKE (Reuters)
Laura Camacho

Os condores da Califórnia estão há anos sob ameaça de extinção. Há três décadas, cientistas do San Diego Zoo Wildlife Alliance fazem estudos genéticos para determinar o parentesco entre os filhotes e seus progenitores. A surpresa chegou quando descobriram dois casos em que o filhote descendia de uma fêmea de condor, mas não estava relacionado geneticamente com nenhum macho e, portanto, era biologicamente órfão de pai. Para evitar possíveis erros, repetiram a prova genética em numerosas ocasiões. A conclusão a que chegaram é que esses dois filhotes tinham sido produzidos por partenogênese, uma forma de reprodução assexuada. O que despertou a atenção é que as mães destas aves, que se encontravam em cativeiro, conviviam com machos e já haviam se reproduzido por via sexual. Desta maneira, a descoberta, publicada agora na revista Journal of Heredity, representa o primeiro caso de partenogênese em condores e o primeiro de qualquer espécie de ave em que a fêmea tinha acesso a um macho.

Cynthia Steiner, diretora-associada no laboratório de genética de conservação de San Diego Zoo Wildlife Alliance e coautora do estudo, define a partenogênese como “reprodução assexuada na qual as fêmeas podem produzir filhotes sem a contribuição de um macho. Os ovos não são fertilizados pelos espermatozoides. Há uma duplicação do material genético da fêmea, e é a que vai contribuir a produzir o filhote”. É importante distinguir entre a partenogênese obrigada e a facultativa. A partenogênese obrigada se dá em muitas espécies, especialmente alguns lagartos, em que o desenvolvimento de um novo indivíduo ocorre exclusivamente sem a contribuição masculina. O caso dos condores californianos é facultativo, já que são fêmeas que normalmente se reproduzem sexualmente, mas, por motivos que estes cientistas desconhecem, ocasionalmente o fazem de forma assexuada. Jesús Gómez-Zurita, cientista do Instituto Botânico de Barcelona e que anteriormente trabalhou no Instituto de Biologia Evolutiva, qualifica o nascimento destes indivíduos como “um erro biológico que não deveria acontecer” e acrescenta que a própria genética das espécies tem “mecanismos” para evitar que isto ocorra.

Estas duas aves descobertas – dois machos – nasceram em lugares e anos diferentes. SB260 nasceu no Zoológico de San Diego em 2001, e SB517 no Zoológico de Los Angeles em 2009. Ambos morreram precocemente, já que a expectativa de vida destes grandes abutres em cativeiro ronda os 60 anos, segundo Steiner. O primeiro deles faleceu logo antes de completar dois anos, depois de ser solto na natureza e não se adaptar a ela; tinha uma forma física frágil, com um corpo de menor estatura e peso que os de sua espécie. SB517 viveu quase oito anos, até alcançar a maturidade sexual. Nunca foi liberado, e os veterinários que o cuidavam descrevem que, além de ser menor, tinha escoliose e um comportamento mais dócil, pouco comum entre os machos.

Suas progenitoras se reproduziram sexualmente com um par de machos antes do nascimento dos partenotos, nome que qualifica os indivíduos que nascem por partenogênese. Em concreto, a mãe de SB260 teve 11 filhotes por reprodução sexual com o mesmo macho, e a de SB517 teve 23 filhotes anteriormente da mesma maneira, e outros dois depois.

Segundo dados do final de 2019, o condor da Califórnia conta com uma população de 525 indivíduos, 219 deles em cativeiro e os demais em liberdade. Apesar de continuarem sob grave risco de extinção, conseguiram superar o gargalo que atravessaram em 1982, quando estiveram com uma população mínima de apenas 22 aves. Isto foi possível conservando a variação genética mediante o emparelhamento de indivíduos com parentesco baixo. Desde 1988, quando teve início o programa que permitiu a detecção destes partenotos, mais de 1.000 filhotes nasceram.

Os perigos da partenogênese

A partenogênese já foi observada em mais de 80 espécies desde sua descoberta por Charles Bonnet, em meados do século XVIII. As condições necessárias para isto não estão totalmente claras. Enrique Font é catedrático na Universidade de Valência, onde leciona herpetologia (répteis e anfíbios), um ramo cujos animais são caracterizados por este tipo de reprodução, e explica que a partenogênese obrigada está associada à hibridação entre um macho e uma fêmea de diferentes espécies, resultando em “alterações que fazem que, a partir desse único emparelhamento, a fêmea se torne partenogenética e dê lugar a um clone. Com isto se estabelece uma espécie na qual a partir desse momento já não há machos”. Quanto à partenogênese facultativa, que foi documentada em quatro grupos taxonômicos muito diversos como aves, tubarões, lagartos e cobras, o cientista explica que se cogitou um caráter adaptativo ou, coincidindo com Gómez-Zurita,uma “aberração”.

Este processo de reprodução assexuada poderia ser visto como uma opção para ajudar as cifras de populações que estão em perigo de extinção, mas isso é muito complexo, porque se trata de um processo que ocorre naturalmente, segundo os biólogos, e não o consideram algo factível. Steiner sugere que pode ser um mecanismo para começar novas populações quando migram a outras áreas. Porém, recorda que os partenotos se caracterizam por ter uma variabilidade genética muito baixa, já que portam duas cópias exatas dos genes da mãe: “Tampouco é completamente benéfico para uma população que todos os indivíduos sejam produzidos por partenogênese, porque há uma diminuição da variabilidade genética”. Esta variabilidade genética permite ter “um colchão de resistência” para enfrentar mudanças ambientais. Além disso, em alguns animais as fêmeas partenogenéticas só produzem machos, o que dificultaria ainda mais a expansão da espécie, pois estes sozinhos não podem se reproduzir.

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