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Termina o mistério do pica-pau que inspirou o desenho animado: extinto com outras 23 espécies

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos propõe a remoção dessas variedades da lista de animais e plantas ameaçadas de extinção porque sua recuperação não é mais possível

Clemente Álvarez
Servicio Pesca y Vida Silvestre EEUU
Um casal de pica-paus-bico-de-marfim, em um desenho feito pelo histórico ornitólogo John James Audubon.

O pica-pau-bico-de-marfim (Ivory-billed woodpecker) era o maior pica-pau dos Estados Unidos e uma de suas aves mais icônicas —que inspirou o personagem do desenho animado. Durante 77 anos, sua existência provocou um debate acalorado: foi visto pela última vez oficialmente em 1944 em uma floresta conhecida como Singer Tract, no nordeste da Louisiana, mas ornitólogos documentaram avistamentos muito mais tarde e até mesmo algumas imagens pouco nítidas foram apresentadas como evidência. A discussão terminou esta semana. O pica-pau-bico-de-marfim (campephilus principalis) é um dos 23 nomes que o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA (FWS, na sigla em inglês) agora propôs remover da Lei de Espécies Ameaçadas (Endangered Species Act) do país porque não vale a pena continuar tentando sua recuperação: sua extinção é dada como certa. Além da espécie bico-de-marfim, também é certificada a extinção de 10 outras aves, um morcego, dois peixes, uma planta e oito moluscos.

Como assinala o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, o objetivo da Lei de Espécies Ameaçadas é proteger e recuperar variedades em risco de extinção e os ecossistemas dos quais dependem, mas para esses 23 animais e plantas as medidas “chegaram tarde demais”. “No caso do pica-pau-bico-de-marfim, ele foi incluído em 1967 em uma das primeiras leis de proteção da fauna e da flora do país, que mais tarde daria lugar à Lei das Espécies Ameaçadas. Mas, apesar das ações adotadas para recuperar e proteger as florestas onde se abrigava, já fazia muito tempo que não havia sido registrado nenhum avistamento autenticado.

Deb Haaland, chefe do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, disse: “Com as mudanças climáticas e a perda de áreas naturais empurrando mais e mais espécies à beira do precipício, agora é a hora de conduzir esforços proativos, colaborativos e inovadores para salvar a vida selvagem dos Estados Unidos. A Lei das Espécies Ameaçadas tem sido muito eficaz para evitar a extinção de espécies e também inspirou ações para conservar as espécies ameaçadas e seu habitat antes que fossem classificadas como em perigo ou ameaçadas”.

Apesar dessas 23 perdas para sempre, esta agência dos EUA acredita que a Lei das Espécies Ameaçadas está trabalhando com sucesso para evitar a extinção de mais de 99% das espécies a serem protegidas que aparecem na lista, na qual estão incluídas 1.677 variedades desde 1967. De fato, de acordo com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem, durante esse período 54 espécies abandonaram esta classificação porque se recuperaram e outras 56 passaram de “em perigo” para “ameaçadas”.

Das outras espécies oficialmente declaradas extintas, há oito pássaros que viviam apenas no Havaí —como o Kauai akialoa (akialoa stejnegeri), o kawa’i nukupuru (hemignathus hanapepe) e o Maui ākepa (Loxops ochraceus) —e um exclusivo da ilha de Guam —o bridled white-eye (zosterops conspicillatus)—, também no Pacífico. Como aponta o Serviço de Pesca e Vida Selvagem, “as espécies endêmicas das ilhas enfrentam um maior risco de extinção por causa de seu isolamento e pequena escala geográfica”. Isso é um grande problema, já que o Havaí e as ilhas do Pacífico abrigam mais de 650 animais e plantas na lista de espécies em perigo nos Estados Unidos, mais do que qualquer outro Estado. E a maioria dessas variedades não pode ser encontrada em nenhum outro lugar do mundo.

Um casal de pica-paus-bico-de-marfim fotografado em 1935 na floresta do Trato Singer.
Um casal de pica-paus-bico-de-marfim fotografado em 1935 na floresta do Trato Singer. Arthur A. Allen

Também se considera desaparecida a vermivora bachmanii, ou Bachman’s warbler, uma ave canora que crescia no sudeste dos EUA e passava o inverno em Cuba. Incluída na lista de espécies em perigo de extinção em 1967, foi vista nos Estados Unidos pela última vez em 1962 e em Cuba não há registros desde 1981. Para o Governo dos Estados Unidos, já deixou de existir.

As outras espécies perdidas são um morcego que não era visto desde 1968 —Little Mariana fruit bat (pteropus tokudae) —, um peixe só encontrado no Texas —o gambusia de San Marcos—, outro de um rio de Ohio —o bagre de Ohio (noturus trautmani) —, uma planta de Hawaii —phyllostegia glabra var. lanaiensis—e oito moluscos de água doce.

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