Frio

Massa de ar polar derruba temperaturas até no Amazonas e provoca onda de solidariedade pelo país

Madrugada de quinta-feira teve recorde de temperaturas mínimas em diversas cidades; onda deve durar até o domingo, mas especialistas alertam que novas massas de ar polar devem chegar ao Brasil quinzenalmente até o final do inverno

Moradores de rua dormem no chão do Pátio do Colégio, centro de São Paulo, na última quinta-feira.
Moradores de rua dormem no chão do Pátio do Colégio, centro de São Paulo, na última quinta-feira.Toni Pires
Marina Rossi|Isadora Rupp|Flavio Ilha|Toni Pires
São Paulo / Curitiba / Porto Alegre - 30 jul 2021 - 20:40 UTC

Até o Amazonas sentiu a onda de frio que se instalou pelo Brasil nesta semana. Na manhã desta sexta-feira, os termômetros em Manaus registraram 23,4 graus, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A friagem, como o fenômeno é chamado no Norte, é um reflexo da derrubada de temperatura no Sul e Sudeste nos últimos dias, onde as temperaturas chegaram a ficar negativas. A queda nos termômetros é fruto de uma massa de ar polar com atuação do La Niña, que intensifica as características do inverno nas regiões mais frias do país. ‘’Como já estávamos com dois a três anos sem essas massas de ar polar tão potentes, as pessoas esquecem. Mas é normal o frio intenso no Sul’', explica Cléber Souza, meteorologista do Inmet. Ele lembra que devem ocorrer novas massas de ar polar vindas da Antártica pelo Sul a cada 15 dias até o inverno acabar, em setembro.

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Na cidade de São Paulo, onde os termômetros marcaram a menor temperatura nos últimos cinco anos, 4,3 graus, na madrugada desta sexta-feira (30), a noite da quinta-feira começou movimentada na região central. Enquanto servidores da Defesa Civil trabalhavam no convencimento da população de rua para que fossem para os abrigos da prefeitura, dezenas de pessoas distribuíam cobertores, roupas e alimentos a esses moradores espalhados pelos cartões postais da cidade, como o Pátio do Colégio, Anhangabaú, Praça da Sé e Largo São Bento.

Os alertas dos institutos meteorológicos de que o final de julho seria marcado por uma intensa massa de ar polar, com intensidade sobretudo no Sul do país, levou prefeituras das cidades dessas regiões e outras entidades da sociedade civil a mobilizarem esforços no acolhimento a pessoas em situação de rua.

Por isso, no início desta semana, a Prefeitura de São Paulo havia se preparado para distribuir 10.000 cobertores, além de sacos de dormir, agasalhos e colchões. Os dados mais recentes apontam que vivem nas ruas da cidade ao menos 24.000 pessoas. Edvanio da Silva, 40, é uma delas. Na rua há dois anos, para onde foi depois de ter se separado, ele contou à reportagem que a noite gelada desta quinta-feira seria enfrentada ao lado dos amigos e de uma das filhas que, embora tenha casa, foi visitá-lo e passaria a noite com ele.

A estação do metrô Pedro II estava aberta ao longo de toda a madrugada para servir de abrigo. Sob o comando do padre Julio Lancelotti, que coordena a Pastoral do Povo de Rua, a Paróquia São Miguel Arcanjo, na zona leste da cidade, também abriu suas portas nas últimas madrugadas para acolher quem não tem onde morar. Em uma rede social, padre Julio publicou fotos preparando a igreja para receber os desabrigados, e depois com a paróquia em pleno funcionamento como abrigo.

O mesmo se repetiu em Porto Alegre, com a estrutura de atendimento montada pela prefeitura da cidade no Ginásio Gigantinho, no centro da cidade. Na terça-feira (27), quando o frio chegou com maior intensidade no Rio Grande do Sul, a estrutura ultrapassou a sua capacidade. “Montamos uma estrutura para receber 100 pessoas e recebemos 112″, conta o secretário municipal de Desenvolvimento Social da cidade, Léo Voigt. Segundo ele, o excedente de pessoas foi absorvido em outras estruturas, e ocorreu também encaminhamentos para unidades de saúde. A procura fez a cidade criar uma nova retaguarda em paróquias, o que possibilitou a abertura de 125 novas vagas.

Segundo Voigt, o abrigo no Gigantinho e nas paróquias continua a princípio até o domingo (1°), quando a onda de frio deve arrefecer. Haverá um balanço da prefeitura para definir a interrupção ou continuidade da operação, que tem como objetivo abrigar uma população que vem crescendo a cada ano. Dado divulgado em março pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) ao jornal Zero Hora apontou que a população de rua na cidade é, em média, de 3.8000 pessoas, um crescimento de 38% em relação a 2019.

Fora da capital, ao menos 30 cidades do Estado tiveram registro de neve entre a tarde de quarta-feira (28) e a madrugada de quinta-feira (29). Houve nevascas de média e alta intensidade na Serra gaúcha e Norte do Estado, com destaque para São Francisco de Paula, Caxias do Sul, Bom Jesus, Vacaria e Passo Fundo. Na manhã desta sexta, Vacaria registrou -7,2 graus, a menor temperatura do Estado.

De acordo com a Metsul Meteorologia, a onda de frio se equiparou às precipitações recordes de 2013 e atingiu até regiões onde o fenômeno é raro, como o Litoral Sul e a Campanha. Mais de 50 municípios registraram temperaturas negativas no período, que ocasionou também chuva congelada e graupel –pequenas bolas de gelo similares ao granizo.

População de rua só cresce

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em fevereiro de 2020 quase 222.000 brasileiros viviam nas ruas, concentrados sobretudo em capitais do Sul, Sudeste e Nordeste, um crescimento de 140% em relação ao ano de 2012. Estima-se, porém, que esse número tenha aumentado, impulsionado pela pandemia. Ainda não há novos dados oficiais, mas a situação salta aos olhos de quem vive em grandes cidades, ou que trabalha no atendimento dessa população. ‘’Temos sentido um aumento espontâneo na procura por nossos serviços, o que coincidiu com o começo da pandemia. As pessoas estão buscando acolhimento, e há uma mobilização maior da sociedade’'’, diz o presidente da Fundação de Ação Social (FAS) de Curitiba, Fabiano Vilaruel.

A capital paranaense também intensificou a abordagem das equipes nas ruas para que os moradores aceitem a ida aos abrigos. Já na terça-feira (27), 1.099 pessoas dormiram nas unidades de acolhimento. ‘’O que a gente procura ao máximo é evitar o óbito por hipotermia. Não queremos perder ninguém para o frio’'’ pontua Vilaruel. Em 8 de julho de 2019, um morador de rua foi vítima de hipotermia na cidade. Ele chegou a ser socorrido pela Polícia Militar, mas não resistiu.

Para aumentar a adesão, a fundação criou uma parceria com o Movimento Nacional de Pessoas em Situação de Rua, e abriu 150 vagas extras na sede administrativa da FAS. ‘’Isso vai nos ajudar a mobilizar as pessoas que são mais resistentes’', frisa Vilaruel. Nesta e em outras unidades de abrigo na capital, os moradores contam com cama, chuveiros, alimentação e atendimento de saúde. A cidade hoje, segundo dados da FAS baseados no CadÚnico do Governo Federal, tem uma população de rua em torno de 1.900 pessoas, o que flutua, de acordo com Vilaruel, com a chegada e partida de estrangeiros vindos de países vizinhos e de pessoas da Região Metropolitana.

Iniciativas individuais

Com os alertas dos institutos meteorológicos para a chegada da onda de frio, a idealizadora do projeto Sopão Curitiba, Larissa Isadora Ribeiro, intensificou o pedido de ajuda nos perfis da iniciativa que entrega comida para pessoas em situação de rua em Curitiba. Ela criou o projeto em junho de 2018. “Eu estava saindo do trabalho em um dia de chuva e tinha um rapaz numa marquise pedindo ajuda. As pessoas estavam ignorando a existência dele. O que infelizmente é muito normal, mas me marcou demais. Em casa, falei com a minha mãe, fizemos um sanduíche e voltamos para entregar a ele. Mas pensamos que deveríamos fazer algo’', rememora. Hoje, o Sopão entrega cerca de 200 marmitas aos sábados e lanches diariamente. A distribuição é itinerante e busca atender aos moradores que não se concentram na região central da cidade, onde ficam os equipamentos da prefeitura e outros projetos sociais.

Além de pessoas em situação de rua, o projeto vem centrando seus esforços em atender famílias que sofrem com insegurança alimentar, algo que se intensificou na pandemia e já atinge mais da metade dos domicílios brasileiros, de acordo com estudo da Universidade Livre de Berlim em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade de Brasília. ‘’Tem gente que tem onde morar, mas vai atrás de comida para poder usar o pouco que ganha para pagar uma conta. A pandemia escancarou isso de uma forma absurda, e temos atendido cada vez mais pessoas nesta situação’'’, relata Ribeiro.

Especificamente para esta onda de frio, o Sopão Curitiba, além das entregas diárias de alimentos, conseguiu montar kits com café, leite, achocolatado e meias infantis, que foram distribuídos em bairros vulneráveis como a Ocupação Nova Tiradentes, comunidade Jardim Santos Andrade e no bairro Caximba.

Na capital gaúcha, projetos particulares em parceria com a prefeitura também atendem a necessidade de alimentação, e houve um crescimento “estupendo”, segundo o secretário Léo Voigt, de doações da sociedade, de alimentos a cobertores. “Estamos até com dificuldade de processar tantas doações. A solidariedade da sociedade é impressionante’'’.

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