Acidente rodoviário

Itaí, uma cidade de luto pela maior tragédia em 20 anos em uma rodovia de São Paulo

Município de 27.000 habitantes, que perdeu 39 deles em acidente rodoviário, fez velório em ginásios. Mesmo com a pandemia, 4.174 pessoas morreram nas estradas federais em todo o país até outubro

Vítimas do acidente são sepultadas no Cemitério Municipal de Itaí, interior de São Paulo, nesta quinta-feira.
Vítimas do acidente são sepultadas no Cemitério Municipal de Itaí, interior de São Paulo, nesta quinta-feira.Luciano Claudino/Folhapress

Mais informações

A pequena cidade de Itaí, localizada na fronteira entre São Paulo e Paraná, passou a madrugada desta quinta-feira em claro se despedindo de 39 de seus cerca de 27.000 habitantes, vítimas do acidente entre um ônibus e um caminhão na região da vizinha Taguaí. Outras duas pessoas ―de Taquarituba (SP) e do Paraná― somam-se ao número de mortos do acidente, já considerado o mais fatal do Estado nos últimos 20 anos.

A tragédia em Taguaí consegue impressionar até a estatística de cerca de 20 mortes em estradas por dia no país. Mesmo com a pandemia do coronavírus, só neste ano, 4.174 pessoas morreram nas rodovias federais em todo o país, segundo dados do Datatran, da Polícia Rodoviária Federal, até outubro. Outras 57.572 ficaram feridas, uma leve redução em relação ao mesmo período em 2019, quando foram registrados 64.784 feridos e 4.353 mortes. De 2007 a 2019, o Brasil acumula cerca de 1,8 milhão de acidentes onde 94.081 pessoas morreram, conforme dados consolidados pela Confederação nacional de Transportes (CNT).

Na mais recente tragédia, à medida que os corpos iam sendo liberados pelo Instituto Médico Legal de Avaré, onde uma força tarefa foi montada para identificação, os velórios eram iniciados nos dois ginásios disponibilizados pela prefeitura local para abrigar famílias e amigos. O tempo era curto, conforme determinam as medidas de distanciamento social da pandemia. Algumas pessoas preferiram manter a tradição de velório em casa, segundo informou uma assessora da Prefeitura de Itaí.

Dez pessoas ficaram feridas no acidente e continuam em atendimento em hospitais da região, que pedem ajuda para repor os estoques de sangue. Dentre os sobreviventes está o motorista do ônibus, que teve ferimentos leves e já deu seu depoimento à polícia. Segundo ele, um ônibus freou bruscamente à sua frente, o que o obrigou a desviar, invadindo a pista no sentido contrário. Uma falha no freio teria feito com que o ônibus batesse no caminhão, de acordo com o UOL. O motorista do caminhão chegou a ser socorrido, mas morreu a caminho do hospital.

Um sobrevivente afirmou que a maioria dos passageiros dormia sem cinto no momento do acidente. “Lembro que antes de chegar neste local (...). Vi que tinha um ônibus e um caminhão muito devagar na frente. Não sei se falhou o freio, mas chegou muito perto do caminhão, que estava devagar, e o motorista tirou o ônibus. Nisso veio a carreta na pista contrária”, disse Elian Marcos em entrevista ao portal de notícias G1.

As vítimas eram trabalhadores da Stattus Jeans, uma das muita empresas do pólo têxtil da região. O advogado da companhia, Emerson Fernandes, disse ao UOL que o ônibus da empresa Star Turismo e Viagem, que fazia o trajeto no quilômetro 172 da Rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho ― uma via de mão dupla que liga as cidades de Taguaí e Taquarituba ―, era uma espécie de “lotação” paga pelos próprios funcionários.

Desde que a reforma trabalhista de 2017, acidentes durante o percurso deixaram de ser considerados acidentes de trabalho. Isso abre novas perguntas: alguém será responsabilizado na esfera criminal e cível pelas 41 vidas perdidas? Como será o comportamento da Justiça trabalhista pós-reforma?

De acordo com a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), a empresa de ônibus operava ilegalmente desde outubro de 2019, tendo sido multada três vezes só neste ano por transporte clandestino de passageiros. A reportagem não conseguiu o contato da empresa de ônibus. Também tentamos falar com o advogado da confecção, mas sem retorno.

O nome das vítimas que tiveram sua história interrompida:

Adriel Calebe Alves de Oliveira

Aline Fernanda de Oliveira Antunes

Ana Claudia dos Santos

Andressa Aparecida Espadia

Beatriz Monteiro da Silva

Bruno de Oliveira Faustino

Camila Cristina Franco Vergueiro

Carolina Coelho Batista

Claudinei Carlos Barboza

Edina Madalena da Silva

Edna Aparecida Lobo Batista

Elisângela Aparecida Mingote

Fabiana Gois Vieira

Fernanda Estefany Silva Pereira

Francis Kelly Aparecida Nunes

Geison Gonçalves Machado

Gustavo Ferreira de Oliveira

Ivonaldo da Silva Custódio

Jean Soares Alves

Josiel Aparecido Alves

Joyce dos Santos Flores

Leandro Maximo Pereira

Leda Aparecida Estevam

Leonardo José Leme

Luciana da Silva Soares

Lucielem Firmino dos Santos

Lucineia Benedita Soldeira de Melo

Marciele Pedroso Nunes

Marcio Lima de Freitas

Maria Lúcia Martins Rocha

Niveo dos Santos Venâncio

Osani Lucio

Ramon Pereira de Lima

Regina Gonçalves Domingues

Ronivan Vilhena Augusto

Rosana Rodrigues de Oliveira

Tais Aparecida de Oliveira Ceara

Tiago Aparecido Aulfs

Valquíria de Oliveira Cruz

Vanessa Carolina Vieira dos Santos

Wellington Aparecido Corrêa

Mais informações