Eleições Brasil 2020

Prefeita de Carlinda diz que lotes em assentamento foram comprados de cooperativa

Carmelinda Martins Coelho declarou ao TSE terrenos que estão dentro de área de assentamentos do município. A política tenta se reeleger neste domingo

Árvore parcialmente queimada no Pantanal, em Poconé, no Mato Grosso.
Árvore parcialmente queimada no Pantanal, em Poconé, no Mato Grosso.AMANDA PEROBELLI / Reuters
Mariana Ramos

A prefeita de Carlinda (MT), Carmelinda Leal Martins Coelho (DEM), afirmou que os quatro lotes que possui em assentamentos do município foram adquiridos da antiga Cooperativa Agrícola Cotia, e não do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Ela declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) patrimônio de 2,88 milhões de reais, sendo que 226.000 reais correspondem aos terrenos.

Candidata à reeleição, Carmelinda foi citada na matéria “Terras da reforma agrária vão parar na mão de políticos”, publicada pelo EL PAÍS a partir de levantamento do De Olho Nos Ruralistas. A reportagem tentou contato com ela desde terça, e só conseguiu na quarta-feira (11) às 9h32 da manhã com a secretária de administração da prefeitura de Carlinda, antes da publicação do texto. Foi informado o teor do texto e o prazo da publicação (quinta-feira), mas ela disse que só falaria na semana que vem, depois da eleição.

“Essas terras grandes que tinha lá eram da Cotia. Depois que a Cotia passou para o Incra, mas quando compramos elas estavam parceladas no Incra para pagar”, afirma. O próprio município mato-grossense nasceu de um assentamento, em 1981. “São lotes de 120 alqueires. Eu tenho o recibo do primeiro comprador da época. Nunca peguei terra de ninguém, nem eu e nem meu marido”, prossegue, embora em nenhum momento a reportagem tenha dito que ela tomou terra de alguém. A cooperativa que ela menciona foi dona das terras no passado. A apuração se baseou apenas em informações públicas declaradas pela prefeita ao TSE.

A prefeita argumentou que sua imagem foi prejudicada. “Deu a impressão na matéria que eu sou uma bandida, uma rica bandida e que estou assentada. Isso cabe um processo grande. Eu nunca ganhei terra de ninguém. Não faço parte desse governo de petistas que fica dando coisas pros outros. Eu até tenho raiva desse governo vagabundo”.

A candidata também reclamou que teria sido chamada de milionária. Na verdade, foi mencionado um “patrimônio milionário” declarado de 2,88 milhões de reais em bens, conforme dados declarados por ela ao Tribunal Superior Eleitoral, que são dados públicos para qualquer cidadão. “Já viu milionário lavar louça, limpar casa, varrer casa, carpir, roçar?”, disse ela.

Ela garantiu, ainda, ser “a única pessoa da região que declara o que tem” ao Tribunal, porque é “justa”. “Compramos (a terra) com suor e estamos lá até hoje. Inclusive eu sou prefeita e vou e volto todo dia. Sou dona de casa também. Nem empregado nós temos na terra. Colocaram até o tanto de vaca que eu tenho”, criticou. A prefeita possui, em parceria com o companheiro, Pedro Carlos Martines Coelho, um rebanho de 566 cabeças de bois, que valeriam 1,48 milhão de reais, conforme informações que também constam no TSE.

Carmelinda chamou a imprensa de oportunista e acusou a reportagem de ter recebido dinheiro de seus adversários políticos. “É algum adversário que mandou fazer isso. Mas deve ser algum adversário vagabundo, preguiçoso, que não tem bosta nenhuma. Eu tenho mesmo. E vou ter mais agora. Eu crio vaca. Naquela época da minha declaração eram 500 e poucas. Agora deve ter mais de 600”. Nem o De Olho nos Ruralistas nem o EL PAÍS aceitam dinheiro de terceiros para publicar reportagens pagas de ataque a alguém.

A prefeita se mostrou irritada por acreditar, segundo ela, que é tratada como “ladra” ao longo do texto. Em nenhum momento ela foi adjetivada dessa forma no texto.

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