Pandemia de coronavírus

“Em meio à pandemia, fomos tratados como números”, diz professor demitido da Uninove

Universidade enviou mensagens eletrônicas em massa para docentes, avisando que eles foram desligados sumariamente. Segundo sindicato, número de afetados pode chegar a 300

A Universidade Nove de Julho (UNINOVE) possui cinco unidades na capital paulista.
A Universidade Nove de Julho (UNINOVE) possui cinco unidades na capital paulista.

Na última segunda-feira, dez minutos antes de começar uma aula no curso de Direito, a professora Ana Cristina* não conseguiu ter acesso a plataforma de ensino à distância da Universidade Nove de Julho (Uninove) que vinha utilizando desde que as classes presenciais foram suspensas em meio à pandemia do coronavírus. Ela foi surpreendida por uma mensagem de pop-up, que anunciava sua demissão.

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“Atenção! Prezado (a) professor (a), comunicamos que em 22 de junho de 2020, fica V. Sa. dispensada de prestar serviço a esta empresa sem obrigatoriedade inclusive do cumprimento do aviso prévio previsto em lei, o qual ser-lhe-á pago em conformidade com o que estabelece a legislação trabalhista pertinente”, dizia o texto. A mensagem sequer trazia o nome da professora. “Foi cruel abrir a tela e ver isso. Tanto a forma como foi feita, totalmente impessoal e sem explicações, como o contexto em que se deu foram surpreendentes. A gente teve que se desdobrar nos últimos meses para fazer funcionar esse novo sistema à distância. Demos nosso sangue e chega no fim do semestre e somos tratados assim?”, questiona. O texto informava ainda que os profissionais deveriam comparecer ao departamento de Recursos Humanos para efetuar a devolução de “crachá, cartão de acesso, cartão de estacionamento, carteirinhas de assistência médica e/ou odontológica” e dar prosseguimento à baixa na carteira de trabalho.

O anúncio que chegou ao sistema de Ana Cristina foi disparado para outras dezenas de professores de diversos dos 80 cursos oferecidos pela instituição. Segundo o Sindicato de Professores de São Paulo (Sinpro-SP), até o início da manhã desta quarta-feira, mais de 120 professores mandaram mensagens avisando que foram demitidos no início da semana pela Uninove. Os profissionais são de diferentes departamentos, alguns trabalhavam há anos na instituição e outros foram recentemente contratados. “Certamente esse número deve ser maior, já que não temos o contato de todos os professores da Uninove. Falam em 300. A demissão em massa é grave e gera forte impacto”, afirma Silvia Barbara, uma das diretoras do sindicato.

Ela explica, entretanto, que esses desligamentos fazem parte de um processo de reestruturação que várias universidades já estavam fazendo para diminuir a folha de pagamento. E ressalta que, desde que uma portaria do Ministério da Educação (MEC), de dezembro do ano passado, permitiu que cursos superiores ofertados na modalidade presencial ofereçam até 40% de sua carga horária total através da modalidade a distância (EAD) ― antes era permitido apenas 20%―, professores vem sendo demitidos e o número de alunos por sala aumentado bastante. “Gasta-se muito menos com a folha de pagamento, num trabalho muito mais precário, em que se sobrecarrega os professores”, diz. O sindicato protocolou um dissídio coletivo no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) na terça-feira, 23, para pedir a anulação dos desligamentos.

A Uninove não revelou o número de docentes que perderam seus empregos no início da semana, mas disse, por meio de nota, que diante da pandemia tiveram que se adaptar situação e foram ao limite para manter o quadro funcional e todas as obrigações contratuais em dia. “Salários dos professores foram garantidos pontualmente e vultosos investimentos em tecnologia realizados. As mensalidades estão sendo renegociadas, tendo em vista a perda do poder aquisitivo de nossos alunos e seus familiares. Todas as medidas de readequação foram necessárias para preservar o sonho dos futuros profissionais que aqui se formarão”, diz a nota.

Para o SinproSP e professores ouvidos pela reportagem, a pandemia está sendo usada pela Uninove para acelerar o processo de reestruturação baseada na redução da folha de pagamentos e maximização dos lucros. Ainda segundo o sindicato, o fato das demissões terem acontecido em meio à pandemia e da instituição não ter manifestado nenhuma intenção de negociar ou amenizar o problema, agrava ainda mais a situação.

Sem negociação

Ricardo, professor de Comunicação, que também recebeu o aviso do seu desligamento da Uninove na segunda-feira, chegou a pensar que tudo não passava de um erro. Apesar de demissões pontuais acontecerem no fim dos semestres, ele não imaginou que algo em massa pudesse acontecer em meio à crise sanitária sem nenhum tipo de diálogo. “Foi constrangedor. Sabemos que é um momento econômico complicado para empresas, para os alunos que perderam emprego, mas é um momento de compreensão e de tentar amenizar a situação. Poderiam ter discutido algum tipo de redução salarial e de carga horária”, diz.

Ana Cristina também avalia que uma negociação poderia ter sido utilizada e que a justificativa de investimentos em equipamentos é uma mera desculpa. “Eles não tiveram prejuízo, eles forneceram aos professores apenas um telefone celular e chip com internet para alguns alunos e as mensalidades não caíram. Além de professores, eles já tinham demitido muitos funcionários que trabalhavam nas unidades. Eles só pensam em fechar as contas, em lucrar. Foi cruel, fomos tratados como meros números no meio da pandemia. Ainda querem a devolução da carteirinha do plano de saúde ilegalmente, já que temos direito a um mês mais do benefício”.

Os próprios alunos não entenderam o que estava acontecendo quando as aulas dos professores demitidos foram canceladas, de acordo com a professora. “Alguns foram direcionados para uma live de uma palestra motivacional do Padre Fábio de Melo para mascarar a situação. Eu consegui falar com os representantes de turma para esclarecer algo”, disse.

A demissão em massa gerou forte crítica entre os estudantes que se expressaram nas redes sociais em apoio aos professores. “A forma que eles foram demitidos, por mensagem automática, sem aviso prévio foi uma injustiça muito grande, estamos muito insatisfeitos com essa abordagem”, afirma Maria*, uma estudante de medicina, que viu oito dos seus professores perderem o emprego nesta semana. “Foi um semestre muito sofrido para os professores que tiveram que se virar para se adaptar a essa nova realidade à distância ainda mais em Medicina”, diz. A estudante também afirmou à reportagem que o discurso de cortes não faz sentindo em um momento em que a instituição está gastando menos com a manutenção dos gastos fixos das instalações ―internet, luz, água― e as mensalidades continuam iguais. “Os professores eram ótimos, é preocupante que a qualidade de ensino caia”, diz a aluna.

Em protesto, estudantes criaram um abaixo-assinado online para pedir a revisão da medida, classificada por eles como uma “enorme falta de empatia e total desrespeito da pessoa”, diz o texto. “Ainda pedimos [para] reconsiderar, onde possível, as demissões das professoras e dos professores, e reintegrá-los, se for pelo menos de jeito parcial, no corpo dos docentes”, escreveram.

Retorno às aulas presenciais

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o secretário de Educação, Rossieli Soares, anunciaram nesta quarta-feira o plano de retomada da educação pública e privada “pós-covid”, visando o retorno de 13,5 milhões de alunos às aulas presenciais do Estado. O plano determina que as instituições poderão ser abertas a partir do momento em que todas as cidades de São Paulo completarem 28 dias na fase 3, a chamada fase amarela, do plano São Paulo de flexibilização das atividades econômicas. Desta forma, a ideia é que a retomada aconteça de forma uniforme em todas as cidades paulistas. Até hoje, nenhum município alcançou esta etapa de flexibilização, mas o Governo idealiza como previsão para a reabertura das escolas o dia 8 de setembro. O MEC estendeu a autorização de aulas a distância em universidades federais até 31 de dezembro de 2020, em substituição às aulas presenciais. Apesar das instituições terem autonomia para definir o formato e cronograma das aulas, a portaria dá mais segurança para que elas mantenham o ensino à distância sem que sejam questionadas posteriormente. Até o fechamento desta edição, a Uninove não informou qual o cronograma para o segundo semestre.

*Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.

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