Luiz Inácio Lula da Silva deixa a prisão

Lula sobre Guedes: “Duvido que o demolidor de sonhos durma com a consciência tranquila”

Ex-presidente chama Moro de "canalha", ataca Globo como o presidente e faz escalar polarização. Inelegível, petista se lança numa precoce campanha por 2022

"Eu estou de volta", lançou Luiz Inácio Lula da Silva um dia depois de sair do cárcere, fazendo explodir neste sábado uma multidão de militantes e admiradores em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, seu berço político na Grande São Paulo. Por quase uma hora, em cima de um caminhão e com transmissão pelas TVs fechadas e pela Internet, o ex-presidente brasileiro fez um discurso duro e formatado a animar seu eleitores fiéis com ataques a Jair Bolsonaro e em especial sua política econômica, a Sergio Moro, e à TV Globo. Em seu retorno às ruas após 580 dias preso em Curitiba, sua aposta foi escalar a polarização política, embarcando em uma precoce corrida presidencial. Inelegível por causa da Lei da Ficha Lima, foi explícito: "Se a gente tiver juízo e souber trabalhar, em 2022 a chamada esquerda de que o Bolsonaro tem tanto medo vai derrotar a ultradireita".

Mais magro, ao lado da namorada nova, com quem anunciou que vai se casar, e notadamente mais bronzeado do que nas imagens disponíveis de quando estava preso, Lula alternou declarações em que negava querer vingança com acusações diretas. "Eu quero construir este país com a mesma alegria de quando governamos", disse o líder petista. Acusou Bolsonaro diretamente de governar "para a milícia", numa referência aos grupos paramilitares formados por ex-policiais que controlam o território e o crime em grandes áreas do Rio de Janeiro. "Sobre o procurador-chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, que pediu sua condenação por corrupção e lavagem de dinheiro, disse que era o "líder de uma quadrilha que roubou a Petrobras." Chamou Sérgio Moro de "canalha".

"Canalha", aliás, foi também a palavra usada por Bolsonaro para qualificar o petista. Horas antes de que Lula falasse aos seus seguidores neste sábado, o ultradireitista quebrou o silêncio que mantinha desde a sexta-feira sobre o adversário e usou as redes sociais para dizer que o ex-presidente estava "momentaneamente livre", "mas carregado de culpa". Nas ruas, movimentos de direita também protestaram em São Paulo. Em poucas horas de liberdade, Lula já havia atiçado o tabuleiro político.

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Quem esperou um Lula mais moderado, buscando pontes ao centro e até à direita para construir uma aliança com Bolsonaro, uma sorte de "frente democrática" como pedem intelectuais e analistas no país desde a eleição, se decepcionou —pelo menos até o momento. Lula agradou seus seguidores, com discurso social contra as políticas liberais do czar da economia governista Paulo Guedes, mas não deve ter decepcionado os adversários com seu tom. Como Bolsonaro, Lula também atacou a TV Globo, mas criticou Record e SBT por estarem próximas do atual Governo. 

Paulo Guedes na mira e Chile como espelho

O ex-presidente discursou olhando para o o panorama da América Latina. Arrancou aplausos ao falar da vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner na Argentina e utilizou a onda de protestos no Chile para dizer que o país é o modelo econômico que Guedes, quem ele chamou de "demolidor de sonhos", quer implementar no Brasil. "Eu duvido que o ministro demolidor de sonhos, destruidor de empregos e empresas públicas, chamado Guedes, durma com a consciência tranquila que eu durmo", disse, e desafiou os governistas a viverem com 413 reais por mês, como a metade do país. Cobrou que é preciso “atacar e não apenas se defender”, como nas manifestações chilenas. "Não tem ninguém que conserte este país se vocês não quiserem que conserte. Não adianta ficar com medo com as ameaças que eles fazem na televisão de que vai ter miliciano, que vai ter AI-5", disse, em referência à criticada frase de Eduardo Bolsonaro de que seria necessário um decreto como o da ditadura se a esquerda protestasse como no Chile. 

O petista pediu solidariedade aos venezuelanos e fez, talvez pela primeira vez de forma mais clara, uma ressalva diante do Governo Maduro. "É normal que cada um de nós aqui possa ter crítica a qualquer Governo do mundo. Agora, quem decide o problema do país é o povo do seu país".  Também quando criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aliado por Bolsonaro: "Que o Trump resolva o problema dos americanos e nao encha o saco dos latino-americanos".

No palco apinhado, o petista fez questão de manter ao lado e citar Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e substituto de última hora de Lula nas eleições passadas, enquanto acenava para os também esquerdistas  PSOL e PCdoB (No entanto, Manuela D'Ávila, vice de Haddad na campanha, não estava). Com o olho nas corrida eleitoral, embora siga legalmente inelegível, Lula disse que a pressão agora é por anular suas condenações, um caso que também está nas mãos do Supremo brasileiro.

Encerrado o discurso, o ex-presidente prometeu percorrer o país e repetiu o gesto de abril passado, quando foi detido. Fez questão de descer para ser carregado nos braços a militância, garantindo a foto épica e viralizável nas redes sociais. Entre os que esperavam no entorno do edifício, no cinturão industrial de São Paulo onde banquinhas vendiam camisetas e outros apetrechos do petista, estava a aposentada Leda Silva, de 61 anos. Ela contava que esteve por seis vezes junto com a militância acampada ao lado do carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula esteve preso, para dar bom dia, boa noite e até feliz ano-novo para ele Assim como no dia da prisão, neste sábado ela estava novamente em São Bernardo para apoiar o petista: "É um momento importante, que marca o fim de uma prisão política."