Ditadura brasileira

Uma dolorosa sombra na parceria entre Paulo Coelho e Raul Seixas

Escritor, autor de nova biografia de cantor, traz de volta à tona a possibilidade de que músico tenha entregado o escritor para os militares durante a ditadura brasileira

Raul Seixas e Paulo Coelho em show no Canecão, em 1970.
Raul Seixas e Paulo Coelho em show no Canecão, em 1970.Fundação Paulo Coelho

"Fiquei quieto por 45 anos. Achei que levava esse segredo para o túmulo". Assim revelou o escritor Paulo Coelho a possibilidade de que o cantor Raul Seixas —de quem foi amigo e com quem compôs algumas das músicas mais emblemáticas do rock brasileiro— o tenha entregado para os militares durante a ditadura brasileira. Coelho foi detido em 28 de maio de 1974 e sofreu torturas ao longo de duas semanas. A história veio à tona no livro Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia), do jornalista Jotabê Medeiros, que será lançado no dia 1º de novembro e que foi objeto de reportagem da Folha de S. Paulo nesta quarta-feira.

De acordo com a obra, enquanto a dupla desfrutava do sucesso do álbum Krig-ha, Bandolo!, lançado em 1973 e que já tinha vendido 100 mil cópias um ano depois, Raul foi chamado para depor no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) da ditadura militar e chamou Coelho para acompanhá-lo a dar explicações sobre as composições. Medeiros contou à Folha que, ao comparar datas, comprovou que Raul já havia comparecido ao Dops dias antes de voltar ao local com o amigo.

Coelho foi questionado sobre o livreto que acompanha o disco Krig-ha, Bandolo! e a música Sociedade Alternativa, cantada por Raul. Acabou detido, e a polícia foi até seu apartamento, onde prenderam a namorada do escritor, Adalgisa Rios. Um dia depois quando liberado, Coelho pegou um táxi com Raul, mas foi capturado novamente e levado para um local desconhecido, onde foi torturado.

Medeiros chegou à possível traição por meio de um documento do Arquivo Público do Rio de Janeiro. O mesmo papel chegou às mãos de Fernando Morais, autor de O Mago, biografia de Paulo Coelho, mas o documento não é conclusivo, já que diz apenas que “por intermédio do referido cantor”, no caso, Raul Seixas, seria possível chegar até Coelho e sua namorada, suspeitos de serem militantes do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR).

O próprio escritor mantém dúvidas sobre o caso: “Não confirmei e não confirmo nada. Eu apenas vi o documento e me senti abandonado na época. Por isso que não quis dar entrevista", escreveu no Twitter. Coelho teve acesso ao documento recentemente, através de Jotabê Medeiros. À sugestão de uma fã nas redes sociais de que era preciso “cancelar” Raul, o escritor respondeu: “Não faça isso. Eu vi os documentos que Jotabê me enviou, já tinha conversado com Raul a esse respeito (...) e águas passadas não movem moinhos”.

Uma amizade conturbada

De acordo com o que conta Jotabê no livro, os artistas distanciaram-se a partir daquele episódio. Em sua cinebiografia, Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho, o escritor se ressente de que o amigo não o procurara enquanto esteve preso nem depois de ser solto.

O cantor e o escritor se conheceram em 1972, graças ao interesse em comum em ufologia, misticismo e esoterismo. Coelho apresentou Raul —um careta, na época— às drogas, e o aspirante a roqueiro ensinou o mago a compor. Da parceria, que durou até 1976, quando Coelho decidiu dedicar-se exclusivamente à literatura, nasceram músicas como Gita, Tente Outra Vez, Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, Ave Maria da Rua e outras.

O escritor chegou a definir a parceria como um “casamento sem sexo”, porque compunham quase sempre brigando e “quase saindo no tapa”, ainda que ambos admitissem que esse talvez fosse o segredo do sucesso das canções.

O último encontro da dupla aconteceu no Canecão, no Rio de Janeiro, em abril de 1989, em um show da derradeira turnê de Raul Seixas, quando o escritor subiu ao palco para cantar Sociedade Alternativa ao lado do (ex)amigo. Quatro meses depois, Coelho estava no caminho sagrado de Roma quando recebeu uma ligação que informava, sem maiores detalhes, da morte de Raul. “Eu pensei ‘Raul morreu, só vou saber daqui a dois dias o que houve, porque eu não tenho mais moedas, não tenho lugar para telefonar, nem a cobrar nem nada’. E me deu uma imensa alegria. Eu disse ‘porra, que legal, ele viveu a lenda pessoal dele. Daí ele vai virar um mito’”, disse o escritor em entrevistas à época.