Trump anuncia acordo parcial com a China para frear guerra comercial

Presidente dos Estados Unidos aceita avançar na negociação por fases, concluindo as partes já decididas

O vice-primeiro-ministro chinês, Liu Hei, com o secretário de Estado dos EUA, Steven Mnuchin, nesta sexta-feira em Washington.
O vice-primeiro-ministro chinês, Liu Hei, com o secretário de Estado dos EUA, Steven Mnuchin, nesta sexta-feira em Washington.José Luis Magana (AP Photo)

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Os Estados Unidos e a China começam a fechar acordos em aspectos nos quais já há um caminho avançado, para assim tentar frear uma guerra tarifária que dura 15 meses e ameaça descarrilar a economia global. Trata-se, na verdade, de um acordo preliminar que ficaria ainda distante do grande tratado comercial que Donald Trump procurava. O presidente norte-americano encenou a aproximação na presença do vice-primeiro-ministro chinês, Liu Hei.

É um primeiro passo, que evita uma escalada do litígio como aconteceu depois da reunião de alto nível ocorrida mais de dois meses atrás. Trump definiu esse pacto como “um acordo substancial na primeira fase” e explicou que levará três semanas para que seja colocado no papel. Inclui acordos em matéria de propriedade intelectual, serviços financeiros e taxas de câmbio, assim como compras de produtos agrícolas norte-americanos num valor de 50 bilhões de dólares.

A consequência imediata é que não entrará em vigor o aumento de tarifas previsto para a próxima terça-feira, dia 15, e que já havia sido adiado há três semanas. “A segunda fase” da negociação, acrescenta Trump, “começaria imediatamente depois que o primeiro pacto preliminar estiver assinado”. Citou inclusive uma terceira fase. Em termos mais concretos, porem, o presidente se limitou a dizer que houve avanços no âmbito das transferências tecnológicas, um dos pontos mais espinhosos.

O secretário norte-americano do Tesouro, Steven Mnuchin, comentou depois que "há um entendimento em questões fundamentais", mas que “resta muito trabalho por fazer”. Também comentou que a suspensão na implantação de novas tarifas se limita por enquanto ao aumento que estava previsto para a semana que vem, e tampouco interfere neste momento na designação da China como país manipulador do câmbio.

Pela manhã, Trump já havia usado as redes sociais para comentar, com um tom excepcionalmente otimista, que estavam acontecendo “coisas boas nas conversas comerciais com a China”. Disse inclusive que o “sentimento” se parecia mais com o dos velhos tempos. “Todos nós gostaríamos de ver acontecer algo significativo”, afirmou, enquanto os indicadores de Wall Street ricocheteavam quase 2% na sessão, embora a alta tenha se moderado no fechamento, quando os detalhes circularam.

O presidente olhou inclusive mais longe e, numa segunda mensagem, disse que o bom de um acordo com a China é que não seria necessário passar pelo longo e complexo processo de ratificação no Congresso, como está acontecendo com o novo tratado de livre comércio com o México e Canadá. “Quando o acordo estiver plenamente negociado”, disse, “eu mesmo o assinarei em nome do país. Rápido e limpo”.

Os gestos eram importantes. Horas antes de Trump receber Liu no Salão Oval, anunciava-se em Pequim o calendário para começar a eliminar em 2020 os limites de propriedade a estrangeiros. A imprensa oficial chinesa, enquanto isso, levava dias noticiando o interesse em chegar a um acordo parcial para romper o atual bloqueio. "É importante para os EUA, a China e para o mundo inteiro", avaliou Trump aos jornalistas. "Estamos muito contentes."

Sob a presidência de Trump, os EUA ativaram tarifas a um total de produtos importados da China num valor superior a 360 bilhões de dólares. Começaram a entrar em vigor em meados de 2018, e recentemente o republicano autorizou que sua ampliação a partir de 15 de dezembro para abranger os 160 bilhões restantes, de modo a cobrir todos os bens e produtos chineses importados pelos EUA.

A escalada tarifária, entretanto, elevará os custos para as empresas que necessitam de componentes chineses em seus processos de produção, e potencialmente também ao consumidor. Pequim, além disso, respondeu com medidas que afetam produtos norte-americanos num valor de 120 bilhões de dólares, especialmente agrícolas. A incerteza atinge também o setor industrial.

O relaxamento da disputa se produz, além disso, pouco antes do início da temporada de compras natalinas. A China, por sua vez, elevou nas últimas semanas as compras de carne de porco. A disputa ameaça desacelerar ainda mais a economia global e força as grandes multinacionais a reverem a estrutura de suas cadeias de suprimento, transferindo a produção para países alternativos à China.

Pequim se mostrou, em todo caso, muito reticente em introduzir as reformas que Washington exigia em sua política industrial. Isso levaria o presidente Xi Jinping a rebaixar suas ambições. Os EUA acusam a China de estar roubando sua tecnologia e segredos comerciais em uma tentativa de se tornar uma potência líder em indústrias avançadas como as telecomunicações, a robótica e a mobilidade.