JUAN ARIASOpinião
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A estranha paixão do presidente Bolsonaro por juízes e magistrados

Talvez o juiz Bretas, que é um grande leitor da Bíblia, tenha visto que no Antigo Testamento os juízes não se diferenciavam dos governantes

Juiz Federal da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, fala durante Simpósio de Combate à Corrupção, na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.
Juiz Federal da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, fala durante Simpósio de Combate à Corrupção, na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Tomaz Silva (Agência Brasil)

O Presidente Jair Bolsonaro é famoso por usar a paixão como imagem para as mais variadas circunstâncias. Já disse publicamente que havia começado a se apaixonar pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, apesar de ter vários atritos com ele. Disse a mesma coisa sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. E não precisa confessar sua paixão pelo presidente do Supremo, Dias Toffoli. Entre eles são só elogios recíprocos.

Que ele se apaixonou, antes ainda de ser eleito Presidente, pelo juiz e principal nome da Lava Jato, Sérgio Moro, ficou claro quando o chamou para oferecer-lhe o importante Ministério da Justiça. Agora, na verdade, parece que esses amores estão em crise.

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Em compensação, Bolsonaro abriu um novo caminho de paixão com o outro juiz mais famoso depois de Moro, Marcelo Bretas, juiz da Lava Jato do Rio, com fama de ser tão ou mais duro em suas condenações do que Moro. E com uma particularidade: confessou que, como evangélico devoto, sua grande conselheira é a Bíblia, que ocupa um lugar especial em sua mesa de trabalho. O ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, que chegou a ser imaginado por Lula como candidato à Presidência da República, foi condenado por Bretas a 216 anos de prisão.

O primeiro vestígio de um início de paixão do presidente com o temido juiz Bretas apareceu na segunda-feira passada, quando o juiz descobriu que Jair Bolsonaro havia entrado em sua conta do Twitter. E não faltaram palavras ao rígido juiz da Lava Jato do Rio para mostrar em publico sua surpresa e seu agradecimento. Escreveu: “honrado por ter entre os seguidores dessa conta do Twitter o presidente da República do Brasil. Gratidão!”.

É possível, entretanto, que essa paixão tenha sido recíproca por interesse. O juiz savonarola do Rio não excluiu que, como seu amigo o ex-juiz Moro, poderia deixar a jurisprudência para tentar a sorte na política. E, principalmente, não descartou que gostaria de ocupar uma cadeira no Supremo.

Os dois sonhos de Bretas estão hoje nas mãos de Bolsonaro. O Presidente nesse primeiro mandato terá que mudar, de fato, dois ministros do Supremo, e já disse que gostaria de alguém “terrivelmente evangélico”. Quem mais evangélico do que Bretas que não esconde que sua grande conselheira ao emitir sentenças é a Bíblia, sempre em cima de sua mesa de trabalho? E pelo modo como andam as relações entre o Presidente e seu ministro Moro, logo o ministério da Justiça poderia ficar livre. Que melhor momento para o sonho de Bretas de entrar na política?

Não é estranho que evangélicos como Bolsonaro, Moro e Bretas, para quem a Bíblia é vista sobre o prisma do Antigo Testamento em que tudo gira ao redor de um Deus vingativo, não vejam uma separação clara entre a Justiça e a Política

Talvez o juiz Bretas, que é um grande leitor da Bíblia, tenha visto que no Antigo Testamento os juízes não se diferenciavam dos governantes. No Livro dos Juízes fica claro, por exemplo, como em todo o mundo de Israel “julgar era sinônimo de reinar”. Os juízes acabaram sendo os caudilhos do povo de Israel. No discurso de São Paulo na Sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos,13,20) fica claro que os juízes haviam sido colocados por Deus “para que se abstivessem de condenar o que Deus havia disposto”. E foi o juiz, Samuel, o encarregado de ungir Davi como rei de Israel.

Não é estranho que evangélicos como Bolsonaro, Moro e Bretas, para quem a Bíblia é vista principalmente sobre o prisma do Antigo Testamento em que tudo gira ao redor dos desígnios de um Deus vingativo, não vejam uma separação clara entre a Justiça e a Política.

Há quem prefira ver também nessas paixões entre o presidente do Brasil e os juízes e magistrados com poder um interesse especial que é mais político do que religioso. Moro foi levado ao Governo por Bolsonaro porque ele sabia que tinha uma grande força popular. É possível que essa aproximação do Presidente com Bretas tenha a ver com os interesses que Bolsonaro e toda a sua família tiveram e têm na política do Rio, em que se formaram e cresceram e na qual estão envolvidos em litígios judiciais por suas estreitas relações com as milícias e com o assassinato, ainda sem mandantes, da vereadora Marielle Franco.

E Bretas não pode, além disso, deixar de ser cortejado por Bolsonaro já que existia uma foto dele que, ao mesmo tempo em que foi duramente criticada pela opinião pública democrática, não pôde deixar de ser aplaudida pelo Presidente da República mais apaixonado pelas armas que já existiu. Nessa foto, o juiz Bretas aparece com um moderno fuzil nas mãos. Precisou explicar que era para se formar em aulas de tiro para defesa própria, por ele sua família estarem gravemente ameaçados pelos que levou à cadeia.

É possível que sejam puras elucubrações de corredores políticos, mas não há dúvida de que se trata de um grande paradoxo. Bolsonaro, que em sua campanha enfatizou o fato de acabar com a velha política e reforçar a experiência da Lava Jato encarnada nos juízes Moro e Bretas, pode acabar, pelo contrário, arrancando-os da Justiça para colocá-los na política. Um, Moro, já está, e Bretas poderia chegar.

Para Bolsonaro, quando ao chegar à Presidência precisou constatar que seu filho, o senador Flávio, havia sido descoberto em práticas de corrupção política quando era deputado do Rio, sua maior preocupação não foi lutar contra a corrupção, eliminar a velha política dos conchavos e interesses pessoais, lutar por manter viva a separação entre os diferentes poderes para que uns não se contaminem com os outros. Sua paixão agora são os juízes e magistrados, principalmente os que podem ajudar seu filho e talvez parte de sua família a salvar-se da fogueira.

Há quem me pergunte por que colocaram o nome Jair no Presidente Bolsonaro, descendente de imigrantes italianos e alemães. Dado sua paixão por juízes e magistrados, há quem imagine que foi simbólico, já que Jair é o nome de um dos 14 juízes de Israel. Na verdade foi algo mais prosaico. Quando o futuro Presidente do Brasil nasceu havia um famoso jogador de futebol chamado Jair que fazia aniversário nesse mesmo dia. Sua mãe acrescentou o segundo nome de Messias a Jair porque contou que o parto de seu filho foi tão difícil que somente um milagre o fez nascer.

É verdade, entretanto, que Jair, que significa em hebraico “homem que foi iluminado por Deus”, é também o nome de um dos juízes da Bíblia. Mas pertence ao grupo dos chamados “juízes menores”. Por isso recebe na Bíblia somente três versículos no capítulo X, do Livros dos Juízes, apesar de ter exercido a profissão de juiz por tantos anos. Tudo o que se diz dele é: “Após Tola, Jair de Galaad foi juiz durante 22 anos. Tinha 30 filhos que andavam de burro, e possuía 30 cidades, que ainda se chamam as aldeias de Jair”. Era uma para cada filho.

Eram os tempos em que a tribo de Israel, que era constituída por nômades à procura de terra para fixar sua moradia e reinar sobre ela, chegou à fértil Palestina e à base de guerras e batalhas e de recaídas nos ídolos pelas quais eram castigados, se transformou afinal no povo escolhido por Deus.

Uma vez que Bolsonaro sempre pareceu, como católico e evangélico, mais do Velho Testamento do que do Novo, do Deus da espada e dos trovões do que do Deus acolhedor e criador de paz, não é estranho que tenha ficado, herdado de seu nome de velho juiz de Israel, com seu espírito combativo e armado e que lhe seja tão difícil a linguagem do diálogo com os diferentes e tão longe do mandato do Novo Testamento do “Bem aventurados os semeadores da paz”.

Todo o reinado, ainda breve, do capitão reformado, o Presidente Jair Messias Bolsonaro, que recebeu milhões de votos daqueles a quem prometeu lutar sem trégua contra a corrupção, está se revelando de um paradoxo singular. Pode acabar sendo, pelo contrário, o reinado em que será realizado o funeral da velha Lava Jato. As revelações, de fato, do The Intercept Brasil publicadas por alguns jornais, entre eles o EL PAÍS Brasil, que revelaram o modo pouco constitucional que Moro e seus procuradores chegam às condenações de políticos e empresários, estão produzindo uma profunda crise ética e de identidade.

O paradoxo feliz é que isso poderia servir para que ressurja um modo novo e mais limpo de julgar e condenar que, sem deixar de ser severo como exigem certos pecados de corrupção, que são afinal pecados contra os mais pobres, possa mostrar sua cara de verdadeira justiça, sem mesclas espúrias entre juízes e políticos. O Brasil vive, de fato na Justiça, um dos momentos mais delicados e graves de sua história. Seu futuro em boa parte dependerá de como ele será capaz de resolver esse enigma. O Brasil joga tudo hoje na crise da política contaminada pela Justiça, ou o contrário.

Os tempos em que os juízes eram, no passado, caudilhos e políticos foram varridos pela moderna legislação mundial que, em nome da democracia, separou rigorosamente os diferentes poderes para evitar essa contaminação entre eles que o Brasil sofre nesse momento.

Alguns chegam a chamar de bíblico esse abraço bolsonarista de contaminação entre a Justiça e a política e para isso gostariam até de modificar a Constituição, essa sim a bíblia dos novos tempos, em que já não cabem livres e escravos, fiéis e infiéis. Na bíblia laica da Constituição deveríamos ser todos filhos da liberdade que salva, e não da violência. Essa, desde a antiguidade, serviu mais à morte do que à vida, usada principalmente contra os escravos e os mais desamparados, inermes diante dos que se apresentavam como justiceiros enviados por Deus.

Juan Arias é autor de A Bíblia e Seus Segredos. Ed.Objetiva (Grupo Companhia das Letras).