Acordo improvável na Itália derrota Salvini e evita, por ora, novas eleições

Centro-esquerdista PD e o populista Movimento 5 Estrelas comunicaram ao presidente italiano sua vontade de formar um Executivo de coalizão isolando o atual ministro do Interior

Luigi Di Maio depois de seu encontro com o presidente da República no Palácio do Quirinal.
Luigi Di Maio depois de seu encontro com o presidente da República no Palácio do Quirinal.REMO CASILLI (REUTERS)

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Os últimos 15 dias mostraram em todo o seu esplendor a histórica confusão da política italiana. Matteo Salvini, o líder da Liga, o homem que dominava a cena institucional e midiática, o gênio das redes sociais, detonou todo o seu capital político fazendo o Governo ruir enquanto passeava pelas praias italianas tomando mojito. O ex-premiê Matteo Renzi, e Beppe Grillo, do M5S, dois grandes inimigos, assinaram uma trégua e possibilitaram um acordo de Governo, algo que era impensável semanas atrás e confirmou o quanto foi ridícula a atuação de Salvini. Giuseppe Conte, um advogado desconhecido que chegou à chefia do Conselho de Ministros em junho de 2018, voltará a ocupar o cargo.

O primeiro-ministro, graças ao acordo comunicado nesta quarta-feira ao presidente da República, terá agora alguns dias de margem para negociar com o PD e o M5S uma equipe de Governo que satisfaça aos dois partidos, mas que seja capaz de enfrentar os meses complicados que se aproximam com a nova lei de orçamento e de melhorar a relação com a UE.

Conte, que se manteve no cargo pelo período indicado pela média de seus antecessores, já é um dos grandes vitoriosos deste tempestuoso verão italiano. Se Conte conseguir formar um novo Governo, entrará no capítulo da história da política italiana onde estão os primeiros-ministros que ocuparam esse cargo em diferentes Governos. Longe de Giulio Andreotti (sete vezes) e Silvio Berlusconi (quatro), sua vitória continua sendo insólita para um homem com uma carreira política inexistente que teve de se limitar a cumprir ordens durante seu último mandato. Fontes do Palácio Chigi, sede da chefia do Conselho de Ministros, explicaram ao EL PAÍS que Conte não quer repetir um papel exatamente igual ao que teve no Executivo anterior e buscará ter maior participação na tomada de decisões. Especialmente na escolha da equipe que o rodeará, algo que não aconteceu da última vez, quando teve de aceitar as imposições de Liga e do M5S.

O novo papel de Conte, na verdade, pode preocupar mais o líder político do M5S, Luigi Di Maio, do que o PD. Os cargos de vice-primeiro-ministro — que até agora eram ocupados por Matteo Salvini e pelo próprio Di Maio — são outro ponto da discussão entre os dois partidos. O PD considera que Conte, apesar de sua insistência em se apresentar como uma figura neutra de consenso, é um homem escolhido pelos grillinos, e que por isso caberia ao partido centro-esquerdista apontar um único vice-primeiro-ministro. Andrea Orlando, ministro da Justiça no Executivo de Renzi, seria o escolhido.

O PD, além disso, quer uma revolução no Conselho de Ministros e pretende controlar algumas das pastas mais importantes, como as de Economia e Interior. Seu secretário-geral, Nicola Zingaretti, anunciou, depois da reunião com Mattarella, que o partido aceitava Conte como líder do novo Executivo, mas com algumas condições. O novo Governo, exige o PD, deve representar uma ruptura com o anterior e com a “temporada do ódio que ele abriu”, assinalou, referindo-se a Salvini.

Pouco depois, Luigi Di Maio, líder do M5S, também confirmou o acordo e criticou duramente Salvini, seu antigo parceiro, acusando-o de colocar seus interesses à frente dos interesses italianos. Di Maio também revelou que há alguns dias Salvini lhe propôs que fosse primeiro-ministro, numa tentativa de voltar atrás e recuperar o acordo de governo com a Liga. “Sessenta milhões de italianos viveram na incerteza absoluta neste verão. Caiu sobre a cabeça de suas famílias uma crise provocada por uma força política que cravou uma estaca em Giuseppe Conte. Na política, há duas categorias: os que a fazem e os que se aproveitam dela”, afirmou Di Maio, referindo-se a Salvini.

O líder grillino, além disso, preparou o terreno para as previsíveis críticas das bases de seu partido ao pacto com o PD. Di Maio repetiu que sua sigla não é “de direita nem de esquerda”, mas “pós-ideológica”. “Não há soluções de direita ou esquerda. Esses esquemas estão amplamente superados. Os verdadeiros protagonistas são os programas, os temas e as decisões”, insistiu. A discussão que se abre agora, no entanto, não terá nada a ver com nenhum desses assuntos.

Salvini atribui a um complô a crise que ele iniciou

Matteo Salvini, único autor de uma histórica manobra suicida que provocou a queda do Governo italiano e a provável passagem do dirigente ultradireitista à oposição, atribuiu nesta quarta-feira a crise a um complô vindo de "Paris, Berlim e Bruxelas". O líder da Liga saiu visivelmente nervoso de seu encontro com o presidente da República, Sergio Mattarella, e exigiu que fossem convocadas eleições, em um pronunciamento transformado em comício. "Sinto que há um projeto que vem de longe, não da Itália: o de entregar o futuro do país a poderes que não são italianos, o que seria uma falta de respeito com o povo italiano", afirmou Salvini, culpando um suposto complô europeu por uma crise que tem apenas a sua marca.

O ainda ministro do Interior criticou duramente seu parceiro de Governo e o Partido Democrático. Acusando ambos de pensar "apenas nas cadeiras" do Parlamento e de começar a se destruir antes mesmo de ser formado o novo Executivo. Salvini, no entanto, vem tentando até o último minuto voltar atrás em sua decisão de derrubar o Governo, chegando a oferecer a Luigi Di Maio, como revelou o líder do M5S, ser o primeiro-ministro se este voltasse a apoiá-lo.

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