Incêndios

A eterna catástrofe na Amazônia

Cientistas afirmam que os múltiplos incêndios deste inverno não são uma exceção, e que ainda é cedo para falar em recorde

Colunas de fumaça cerca de Porto Velho, no Estado brasileiro de Rondonia, o 21 de agosto.
Colunas de fumaça cerca de Porto Velho, no Estado brasileiro de Rondonia, o 21 de agosto.REUTERS/Ueslei Marcelino

“Nossa casa está em chamas. Literalmente. A selva amazônica —os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta— está em chamas. É uma crise internacional”, proclamou na quinta-feira o presidente francês, Emmanuel Macron, na sua conta do Twitter. Alguns especialistas consultados são mais precavidos. “O que mostram nossos dados é que houve uma intensidade diária de incêndios acima da média em algumas partes da Amazônia durante as duas primeiras semanas de agosto”, diz Mark Parrington, do Copérnico, o programa europeu de observação da Terra. “Mas, em geral, as emissões totais [de CO2 gerado pelos incêndios] estimadas para agosto estiveram dentro dos limites normais: mais altas que nos últimos seis ou sete anos, porém mais baixas que no começo da década de 2000”, salienta.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil detectou mais de 76.620 focos desde o começo do ano, quase o dobro que no mesmo período de 2018 (41.400), mas uma cifra não tão distante dos 70.625 registrados em 2016. “O número de incêndios aumentou com relação aos últimos anos e está perto da média de longo prazo”, explica Alberto Setzer, pesquisador do INPE.

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A NASA também é cautelosa. "Não é incomum ver incêndios no Brasil nesta época do ano, devido às altas temperaturas e à baixa umidade. O tempo dirá se este ano é um recorde ou simplesmente está dentro dos limites normais", tranquiliza a agência espacial norte-americana em seu site. A NASA recorda que os incêndios na bacia amazônica são muito raros no resto do ano, mas seu número aumenta a partir de julho, durante a estação seca, quando muitos fazendeiros utilizam o fogo para manter seus cultivos ou para limpar a terra para pastos ou outros fins. Os incêndios costumam alcançar seu pico em setembro e desaparecem em novembro.

“É verdade que a floresta amazônica sofre incêndios regularmente, mas de maneira nenhuma isto significa que seja normal. A Amazônia não evoluiu com incêndios frequentes. Os incêndios recorrentes não são um elemento natural na dinâmica da selva tropical, como em outros entornos, como o Cerrado”, adverte a bióloga brasileira Manoela Machado.

“A Amazônia queima durante as secas, mas não por causa secas. É queimada porque há uma demanda por pastos e terras de cultivo, e o Governo atual [presidido por Jair Bolsonaro] não só não inclui o desenvolvimento sustentável em seus planos como também estimula o desmatamento e restringe as ações sistemáticas contra ele”, lamenta Machado, pesquisadora da Universidade de Sheffield (Reino Unido) que estuda os impactos das atividades humanas nas selvas tropicais. “Não podemos saber exatamente e imediatamente como são os padrões atuais de incêndios comparados com os de outros anos, mas não deveríamos ver isto como algo normal, absolutamente”, alerta.

“Acredito que este ano, até agora, esteja normal em média, embora a gravidade dos incêndios varie por regiões. A diferença é que neste ano os meios de comunicação repercutiram a queima da Amazônia, o que é ótimo”, opina o ecólogo David Edwards, chefe do mesmo laboratório da Universidade de Sheffield. O pesquisador recorda que as queimadas na bacia amazônica são especialmente graves quando ocorre o El Niño, um fenômeno meteorológico natural e cíclico, vinculado a um aumento das temperaturas na parte oriental do Pacífico tropical. Os 70.625 focos registrados em 2016 coincidiram com um El Niño potente. Neste ano, entretanto, o fenômeno é fraco e, apesar disso, detectaram-se mais incêndios.

A selva amazônica abriga 10% de todas as espécies conhecidas de animais e plantas e armazena 100 bilhões de toneladas de carbono, uma quantidade dez vezes superior à emitida a cada ano pelo uso de combustíveis fósseis, segundo os cálculos da Universidade do Estado de Oregon (EUA). Edwards adverte que se trata de um peixe que morde o próprio rabo. “O problema é que a mata incendiada perde carbono à medida que as árvores queimadas vão morrendo lentamente, o que provoca uma maior mudança climática e uma maior perda da biodiversidade”, aponta.

“Em última instância, o fogo significa que as florestas têm mais probabilidades de voltar a queimar. E poderíamos acabar vendo essas florestas tropicais úmidas se transformarem em um sistema de savanas”, lamenta Edwards, que recorda que o problema não é exclusivo da Amazônia. “Enormes superfícies de Bornéu e Sumatra [no Sudeste Asiático] também sofrem incêndios, especialmente durante anos com um fenômeno potente do El Niño.”

A progressiva transformação da selva em cerrado é uma ameaça real, conforme alertou em 2016 uma equipe de cientistas brasileiros encabeçada pelo climatologista Carlos Nobre, da Academia Nacional de Ciências dos EUA. Em um artigo publicado na revista PNAS, os pesquisadores advertiam que a região amazônica se aqueceu em um grau Celsius nos últimos 60 anos, enquanto perdia 20% de sua superfície pelo desmatamento. Os modelos matemáticos sugerem que chegar a 40% representaria um ponto de inflexão. “Se esse limite for ultrapassado, poderia ocorrer a savanização em grande escala da maior parte do Sul e Leste da Amazônia”, diziam os cientistas.

O holandês Pepijn Veefkind dirige o instrumento Tropomi, um sensor a bordo do satélite europeu Sentinel-5P que é capaz de identificar pontos quentes de gases poluentes na atmosfera. “É verdade que os incêndios em grande escala na região amazônica ocorrem todos os anos. Embora as condições meteorológicas possam desempenhar um papel, é preciso salientar que a maioria desses focos é provocada pelo ser humano”, afirma. “Nossas observações confirmam: a maior parte dos incêndios tem lugar nas beiradas da floresta tropical. Se 2019 terá uma temporada recorde de incêndios é algo que só poderemos saber no final da estação seca.”