Mais de 1.000 presos nos protestos por eleições livres em Moscou

Manifestação contra o veto a candidatos independentes nas municipais não havia sido autorizada

– A polícia russa detém uma pessoa durante o protesto no sábado em Moscou.
– A polícia russa detém uma pessoa durante o protesto no sábado em Moscou.YURI KOCHETKOV (EFE)

Por eleições justas e livres e uma democracia real. Milhares de pessoas protestaram no sábado em Moscou para exigir que os candidatos de oposição possam participar nas eleições locais do segundo semestre desse ano. “Essa é nossa cidade!”, diziam os manifestantes. “A Rússia será livre!”, gritavam em uma manifestação não autorizada no centro da capital russa, sitiada por centenas de policiais e antidistúrbios, que tentavam evitar o acesso à Prefeitura, o ponto principal. As autoridades prenderam 1.127 pessoas, de acordo com a ONG OVD-Info. Antes mesmo do protesto, e para evitar grandes discursos, as autoridades prenderam em suas casas e em seus escritórios os principais candidatos independentes.

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O Serviço Nacional de Segurança (FSB, a antiga KGB) agora investiga a ligação dos principais líderes da oposição extraparlamentar – Lyubov Sobol, da equipe do blogueiro anticorrupção Alexei Navalni; Dmitri Gudkov, ex-deputado; Ilya Yashin e Sergey Mitrokhin, dirigentes do partido liberal Yabloko— com organizações estrangeiras. Algo que, além de custar a eles uma grande multa, os afastaria definitivamente da campanha eleitoral. Os concorrentes independentes que se postulam ao conselho local de Moscou denunciam que as autoridades tentam evitar que participem para continuar controlando politicamente a capital da Rússia.

“É triste que não deixem os candidatos independentes participar das eleições. Não há liberdade de expressão. Não há democracia, e sim autoritarismo”, lamenta Andrei Morozov, estudante de 18 anos, que compareceu com seu amigo Mikhail ao protesto, cuja convocação foi sendo divulgada durante os últimos dias através das redes sociais. “Todos os candidatos de oposição merecem uma cadeira na Duma de Moscou”, acrescentou, cercado de policiais fortemente armados. O desse sábado e os dos dias anteriores são os protestos políticos mais importantes desde as grandes manifestações de 2011 em resposta ao resultado das eleições parlamentares que muitos consideram fraudulentas, diz Andrey Pertsev, analista do think tank Carnegie de Moscou.

Enquanto os manifestantes, em pequenos grupos cercados pela polícia, inundavam as proximidades do Kremlin, o presidente russo, Vladimir Putin, submergia em um novo minisubmarino no Golfo da Finlândia. Depois, se reuniu com familiares dos militares mortos na catástrofe do submarino Losharik há um mês.

“Estamos diante de uma irregularidade repugnante. Um dia todos os que estão agindo dessa forma responderão perante a lei”, afirmou o concorrente de oposição Konstantin Yankauskas no sábado em frente à Prefeitura de Moscou, pouco antes de ser preso. Além disso, o líder da oposição extraparlamentar e conhecido blogueiro oposicionista Alexei Navalni foi condenado a 30 dias de prisão por encorajar a participação em protestos não autorizados.

Há anos, as eleições locais eram um assunto mais “familiar” que interessava a poucas pessoas, diz a professora associada na Academia Presidencial Russa de Economia Nacional e Administração Pública (RANEPA, na sigla em inglês), Ekaterina Schulmann. Isso mudou. Somente 21% dos moscovitas participaram das eleições locais anteriores, em 2014. E há pouco mais de duas semanas, somente 5% da população se mostrou interessada nas eleições de 8 de setembro. Mas a negativa da Comissão eleitoral em inscrever os principais oposicionistas extraparlamentares despertou uma onda de indignação. Agora, 50% dos moscovitas acompanham a polêmica. E 36% têm certeza de que serão irregulares, de acordo com a fundação de análise política de São Petersburgo, e 16,3% dizem que não só ocorrerão irregularidades como, diretamente, uma fraude.

Os protestos pelas eleições moscovitas aumentam a pressão sobre o Governo e sobre o Kremlin em um momento delicado de sua popularidade. Com o passar dos dias, a indignação da população aumenta. E o que está acontecendo às eleições locais de setembro age como um escape ao descontentamento dos russos, diz Schulmann. A crise econômica, a queda do nível de vida e o mal-estar pela gestão do Executivo estão fazendo as pessoas saírem às ruas para pedir direitos sociais.

A Prefeitura de Moscou, onde moram 12,5 milhões de pessoas, tem 45 cadeiras. É responsável por um grande orçamento municipal que agora é controlado pelo Rússia Unida, o partido do Governo. A agrupação, entretanto, está bastante manchada, tanto pela gestão como pela indignação da população, diz Schulmann. De modo que seus candidatos concorrem como independentes, apesar de seu vínculo com o partido.

“Não podem se permitir um resultado incontrolável. Perderam popularidade e nós da oposição podemos ganhar uma grande quantidade de terreno, então o que estão fazendo é evitar diretamente nossa participação”, diz Alexander Soloviov, candidato independente. “Estamos diante de um regime autoritário. E como tal tenta evitar que um dos elementos essenciais de uma democracia, as eleições, seja realizado. É lamentável”, acrescentou antes de ser preso.

Para concorrer nas eleições, os candidatos não respaldados por um partido político representado na Duma Estatal devem reunir 5.000 assinaturas – ou as correspondentes a 3% da população registrada no distrito ou distritos que queiram representar –. Até agora, a Comissão Eleitoral registrou 200, todos respaldados pelo Rússia Unida, o partido do Governo.

As autoridades se recusaram a inscrever candidatos como Soloviov afirmando que suas assinaturas são falsas e inválidas. Rubricas que revisaram durante dias, em um local fechado e sem que os pretendentes pudessem estar presentes. Os oposicionistas denunciam, além disso, que os candidatos respaldados pelo Kremlin não precisaram passar por esse controle extremo. Dizem também que a comissão impede que façam uma auditoria externa desses avais, muitos dos quais suspeitam que são falsificados.

O Kremlin sabe disso, alerta o reputado analista Andrei Kolesnikov. E por isso tenta manobrar não só tentando evitar que os oposicionistas obtenham qualquer migalha de poder, como também tentando impedir que esse descontentamento social seja visível. “Acham que deixar um candidato opositor concorrer seria de alguma maneira romper uma represa de água”, afirma Schulmann.

O presidente do Tribunal de Contas, Alexei Kudrin, afirmou na semana passada que a queda nos rendimentos reais dos lares e a pobreza generalizada provocaria uma “explosão dos protestos” e que somente uma reforma profunda do sistema econômico do país pode evitá-las.

Há cinco anos, antes da Rússia anexar a península ucraniana da Crimeia e das sanções ocidentais, 39% dos russos reprovava a gestão do Governo. Em julho desse ano, 55% declara que não apoia a gestão do Executivo liderado por Dmitri Medvedev, de acordo com o centro independente de análises Levada. Em 2014, somente 14% da população russa dizia não apoiar o presidente Putin; agora é 31%, de acordo com o Levada.

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