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Moro tira dias de descanso em meio ao fogo cruzado da Lava Jato

O ex-juiz sofre desgaste por revelações que apontam a que atuou irregularmente no caso Lava Jato. A popularidade do presidente Bolsonaro também se ressente

Naiara Galarraga Gortázar
Sergio Mouro, ministro de Justiça, na semana passada em Brasília.
Sergio Mouro, ministro de Justiça, na semana passada em Brasília.Eraldo Peres (AP)

O Governo Bolsonaro perde temporariamente o seu ministro mais popular. O ex-juiz Sergio Moro deixará a pasta da Justiça durante alguns dias (de 15 a 19 de julho) para resolver “assuntos particulares”. Moro se afasta enquanto continua o gotejo de informações que ampliam a suspeita de que agiu irregularmente quando era juiz federal no caso Lava Jato. Quando na sexta-feira o presidente Jair Bolsonaro foi perguntado sobre as revelações do site The Intercept Brasil, respondeu que Moro o acompanharia à final da Copa América no Rio e acrescentou: “O povo dirá se estamos certos ou não”. E o povo falou no Maracanã. Uma parte da arquibancada vaiou o presidente quando ele pisou no gramado para entregar o troféu à sua seleção, que ganhou no Peru. Moro assistiu à partida na tribuna de honra, à direita do chefe do Estado.

A vaia, em meio a aplausos de outro setor de torcedores, pode ser um sintoma de que o descontentamento com o Governo encabeçado pelo ultradireitista também avança entre seu eleitorado mais fiel, uma classe média majoritariamente branca, com suficiente dinheiro para pagar o ingresso da final, mas ainda tem capital político. O presidente perde popularidade, e o juiz símbolo da luta contra a corrupção, a quem encarregou de combater de dentro do Governo esse problema e a criminalidade que tanto preocupa a opinião pública, também viu sua imagem ser abalada pela revelação de mensagens trocadas entre ele e a equipe de promotores do caso Lava Jato.

Nesta segunda-feira, uma pesquisa do Datafolha pôs cifras ao descontentamento num país onde o cisma político se consolida. Para 33%, Bolsonaro é um presidente ruim ou péssimo nestes seis meses de mandato, para 31% ele é regular, e os 33% restantes o consideram bom ou ótimo. São índices que o colocam como o mandatário pior avaliado a esta altura do mandato desde 1990.

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Novas mensagens vazadas levam escândalo com Moro e Lava Jato à Venezuela

O The Intercept há um mês vem revelando informações exclusivas oferecidas por uma fonte anônima. Apesar de ter começado sozinho, o veículo fundado pelo jornalista norte-americano Glenn Greenwald se aliou aos principais meios locais – o jornal Folha de S.Paulo e o semanário Veja – para analisarem juntos as mensagens trocadas durante anos pelo aplicativo Telegram entre Moro e o chefe dos procuradores da Lava Jato, Deltan Dallagnol, e sua equipe.

O assunto levou Moro a comparecer à Câmara de Deputados e ao Senado, e milhares de seguidores deles saíram às ruas no último dia 30 em defesa da sua cruzada anticorrupção. O ministro baseou sua defesa em alegar que as mensagens talvez estejam manipuladas, que ele estaria sendo vítima de um grupo de criminosos interessados em reverter os feitos na luta contra a corrupção política e em acusar o The Intercept de sensacionalismo. Green Greenwald já falou sobre o caso na Câmara e nesta semana deve ser sabatinado no Senado.

Tudo indica que as revelações não irão parar tão cedo. O que já foi publicado até agora é uma pequena parte do material. Vários exemplos revelados nos últimos dias: o juiz supostamente ocultou informação do então ministro do STF, Teori Zavascki, para que o caso de um executivo não passasse a uma instância superior, em julho de 2017. Diante de rumores a respeito de um acordo de delação do ex-deputado Eduardo Cunha, Moro se mostrou contrário a que o Ministério Público aceitasse. Um mês depois, em 5 de agosto de 2017, Moro escreve a Dallagnol que “talvez seja o momento de tornar pública a denúncia da Odebrecht sobre subornos na Venezuela”, uma informação que estava sob segredo de Justiça. “Isso está aqui ou na Procuradoria Geral da República?”, pergunta ele. Justamente nesse dia, o venezuelano Nicolás Maduro destituiu a então procuradora-geral Luisa Ortega e havia a intenção de Moro e da força-tarefa de interferir na opinião pública do país vizinho.

Que um semanário como a Veja – identificado com a direita e grande defensor da atuação de Moro à frente de Lava Jato – diga já no título que “Moro orientava ilegalmente ações da Lava Jato” mostra que as suspeitas de imparcialidade vão muito além do entorno afim ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu Partido dos Trabalhadores. O STF retomará em agosto, após o recesso, a análise de uma ação dos advogados de Lula para considerar Moro parcial e anular a sentença do ex-presidente.

Moro e o caso apelidado de Vaza Jato tiraram nas últimas semanas o protagonismo do projeto-estrela do Governo, a reforma da Previdência, que tramita no Congresso e é considerado crucial para atrair investimentos e fazer a economia decolar. Na pesquisa Datafolha, embora a maioria (58%) considerem que o comportamento de Moro foi inadequado, 54% não veem motivos para que deixe definitivamente o cargo. O mesmo levantamento mostra que 54% consideram que a sentença ditada por Moro contra Lula foi justa, enquanto 42% a consideram injusta.

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