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Com Lagarde no Banco Central, Europeu começa a corrida por sucessão no FMI

O número dois do Fundo, David Lipton, assumirá de forma interina, enquanto a francesa é confirmada e começa o processo de seleção em Washington

Christine Lagarde ao chegar à cúpula do G-20 em Osaka.
Christine Lagarde ao chegar à cúpula do G-20 em Osaka. AFP

O vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), David Lipton, assumirá o comando do organismo com sede em Washington depois da nomeação da francesa Christine Lagarde como futura presidenta do Banco Central Europeu (BCE). Lagarde, cujo mandato como diretora-gerente terminaria em 2021, anunciou a renúncia às suas responsabilidades na terça-feira enquanto o processo de confirmação para o BCE se desenvolver, mas não se demitiu formalmente do cargo no FMI, razão pela qual o processo de seleção de seu substituto ainda não pode ser iniciado.

O comitê executivo do Fundo, formado por 24 países ou grupos de países-membros, é responsável pela abertura do prazo e pela triagem das candidaturas apresentadas para chegar a uma lista de três finalistas, que serão entrevistados pessoalmente na sede para tomar a decisão. O peso de seus votos é ponderado de acordo com seu peso na instituição, com os Estados Unidos à frente com 16,5% do percentual de voto.

Ainda assim, desde sua fundação, o FMI teve 11 diretores-gerentes, todos eles europeus, começando com o belga (Camille Gutt, 1946-1951) e terminando com a francesa Lagarde. Uma lei não escrita estabelece que enquanto os Estados Unidos controlam o Banco Mundial, o timão do Fundo corresponde ao outro lado do Atlântico. Mas a questão de se essa norma deve continuar a reger o futuro do organismo se abriu anos atrás com o impulso das economias emergentes, que pedem mais protagonismo.

Na abrupta substituição de Dominique Strauss-Kahn, preso por estuprar uma mulher em 2011, Agustín Carstens, então governador do Banco Central do México e atualmente gerente-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS na sigla em inglês), se apresentou como candidato. O americano-israelense Stanley Fischer, ex-vice-presidente da Reserva Federal, foi descartado por sua idade na ocasião, 67 anos. Segundo a normativa do Fundo, os diretores-gerentes devem ter menos de 65 anos quando são nomeados e não podem completar 70 anos no cargo.

Lagarde ganhou no meio daquela primavera turbulenta: tinha boa reputação como ministra das Finanças, a França mantinha “o lugar” e a instituição colocava à frente uma mulher depois do escândalo de Strauss-Khan, uma maneira de tentar compensar o desastre também com a imagem. A partir daquele ano, o Fundo impôs normas éticas mais severas no contrato dos diretores-gerentes, não apenas exigindo-lhes “os mais altos padrões” em matéria de ética, mas instando-os a evitar “qualquer aparência de conduta inapropriada”.

O requisito parece dirigido exclusivamente ao período no cargo, já que a diretora-gerente não teve nenhum problema para ser ratificada para um novo mandato em 2016, apesar de seu envolvimento no caso Tapie quando era ministra das Finanças. Um juiz a acusou por ter pago de forma arbitrária uma compensação financeira de 404 milhões de euros (cerca de 1,744 bilhão de reais) –a cargo do erário público– a Bernard Tapie, um empresário amigo do presidente Nicolas Sarkozy. A decisão do judicial veio quando Lagarde já tinha sido ratificada para mais cinco anos: o tribunal a culpou de negligência, embora não tenha havido condenação penal. Uma carta dela a Sarkozy, revelada pelo Le Monde em 2013, a deixou em uma posição muito ruim: “Estou do seu lado para te servir. Utilize-me”, escreveu ao seu chefe.

Agora, entre os nomes que circularam no passado como possíveis diretores-gerentes figuram o de Carstens, o do governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, cujo mandato termina em janeiro, e o do acadêmico Raghuram Rajan, governador do Banco Central da Índia entre 2013 e 2016, entre outros.

O sucessor ou sucessora deve lidar com a nova crise na Argentina e a ressaca da grande hecatombe grega: um resgate financeiro de condições draconianas que prejudicou ainda mais a recuperação do país. A troika formada pelo Fundo, a Comissão Europeia e o BCE subestimou o dano de tanta austeridade, acabou reconhecendo o organismo com sede em Washington, e começou a defender a necessidade de uma redução da dívida. Com a eclosão da nova crise argentina há um ano, o Fundo aprovou o maior empréstimo de sua história para o país, 50 bilhões de dólares aos quais, pouco depois, acrescentou outros 7. Por conta do ciclo econômico, o novo diretor-gerente também terá de encarar a próxima crise. Lagarde viveu a lentíssima saída da crise e um crescimento vigoroso nos últimos anos.

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