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Uma polêmica constrangedora para a Nike

Estrelas do esporte feminino nos EUA, como Allyson Felix, denunciam a redução nos contratos com a marca depois de se tornarem mães

Allyson Felix, em 2017, em Birmingham
Allyson Felix, em 2017, em Birmingham Cordon press

Poderoso, emotivo, inspirador. “Just do it.” Mas a glória pode ser efêmera quando a mensagem não é real e só busca aproveitar a crista da onda de um movimento imparável para vender algo tão simples – mas lucrativo – como calçados esportivos. O anúncio feminista da Nike foi definido como uma carta de amor visual a todas as mulheres que se atrevem a romper barreiras. É narrado por Serena Williams, e o fio condutor é um conceito em suas diversas acepções: “Louco, loucura”; “Sonhe o impossível”. “Se demonstramos emoção, nos chamam de dramáticas”, diz Williams. “Se queremos competir contra os homens, loucas. Se pretendermos igualdade de oportunidades, é que deliramos. Se brigarmos pelo que é justo, somos desequilibradas. Se nos irritamos, somos umas histéricas ou estamos malucas.”

A voz de Williams é enérgica, robusta, corajosa. E as imagens ainda mais. Mulheres que suam e deixam sangue e lágrimas no caminho para chegar aonde desejam em um mundo, como tantos outros, majoritariamente masculino. Mulheres que a Nike incentiva a não parar. Diz a própria Serena Williams: “Ganhar 23 slams, ter um bebê e voltar [às quadras de tênis] querendo mais”. Louco.

Louco, louco, louco. E aí radica o problema: na loucura de querer desenvolver-se em ambos os mundos, o profissional e o pessoal. Em querer ser mãe quando você está no topo, quando está batendo recordes e... quando a Nike a contrata para vender sua marca. E depois a pune se você tira uma licença-maternidade. Aí estava a linha vermelha do just do it (“simplesmente faça”). Essa era a linha invisível que a Nike havia traçado e que acaba de ser exposta por diversas atletas que estão na folha de pagamento da marca esportiva.

A primeira a denunciar o que considerava ser uma hipocrisia foi Alysia Montaño, atleta olímpica e tricampeã norte-americana em provas de média distância. Com oito meses de gestação, ficou conhecida como “a corredora grávida”. Mas descobriu que seu desejo de ser mãe causou-lhe uma considerável redução salarial por parte da empresa que a patrocinava, e sem direito a licença-maternidade. Sua reação foi explosiva e pública, através do jornal The New York Times. O título da reportagem não poderia ser mais explícito: “A Nike me disse para ter sonhos loucos, até que eu quis um bebê”.

Depois, somaram-se a Montaño a também corredora olímpica Kara Goucher e uma dúzia de outras atletas, agentes e pessoas familiarizadas com uma indústria multimilionária, que elogia as mulheres publicamente por quererem formar uma família, mas que nos contratos privados não lhes garante um salário durante sua maternidade e os meses posteriores ao parto. O NYT também foi o veículo escolhido por uma estrela do atletismo norte-americano, Allyson Felix, para fazer sua denúncia. Única mulher a ganhar seis ouros olímpicos no atletismo, publicou nesta quarta-feira, 22, um artigo no jornal nova-iorquino dizendo que a Nike lhe ofereceu um contrato de menor valor depois que ela decidiu ser mãe, em 2018.

“As atletas têm muito medo de dizerem publicamente que se tivermos filhos corremos o risco de nossos patrocinadores reduzirem nosso salário durante a gravidez e depois", escreveu Felix no Times. "É um claro exemplo de uma indústria esportiva em que as regras parecem majoritariamente feitas por homens", acrescenta ela no artigo. Felix diz que a Nike, ao saber da sua gravidez, lhe ofereceu um novo acordo 70% inferior ao anterior. "Se acham que é isso que eu valho agora, aceito", disse. Mas impôs uma condição: Felix fazia uma advertência à Nike e pedia garantias de que não seria penalizada se rendesse abaixo de seu nível nos meses imediatamente anteriores e posteriores ao parto. A resposta da empresa esportiva foi negativa, e Felix não tinha como não se perguntar: “Se eu, uma das atletas mais comercializadas da Nike, não podia conseguir essas proteções, quem poderia? A Nike recusou. Estamos parados desde então", finaliza.

A Nike respondeu às críticas na semana passada afirmando que estabelecerá salários-padrão para as atletas durante a gravidez, e reconheceu que a companhia podia “ir além". A empresa não respondeu aos contatos feitos por este jornal. O assunto chegou ao Congresso dos Estados Unidos, onde dois legisladores pediram ao diretor-executivo da Nike, Mark Parker, que esclareça a postura discriminatória da empresa. Recordem, Serena Williams – em cujo contrato a Nike não mexeu uma só palavra quando ela engravidou – deixa muito claro no vídeo publicitário ao avisar: “Querem loucura? Então, vamos mostrar a vocês o que as mulheres com sonhos loucos somos capazes de fazer”.

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