Temporada final de 'Game of Thrones'
Crítica
Género de opinião que descreve, elogia ou censura, totalmente ou em parte, uma obra cultural ou de entretenimento. Deve sempre ser escrita por um expert na matéria

‘Game of Thrones’: Daenerys, a rainha das cinzas

Faltando um capítulo para o final da série, o argumento se encaminha para um novo trono maldito

Jon e Daenerys no quinto capítulo da oitava temporada de ‘Game of Thrones’.HBO (HELEN SLOAN)undefined
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A batalha final de Game of Thrones, exibida na noite passada, começou no tempo da fantasia (os castelos, navios, dragões, cavalos e cavaleiros de sempre sobre o tabuleiro) para acabar de forma abrupta no nosso tempo, com homens, mulheres e crianças cobertos de sangue e cinza, que infelizmente não nos são tão alheios. Um inquietante túnel do tempo em que o diretor do episódio (outra vez o obscuro Miguel Sapochnik) guardou um simples detalhe: em toda a reta final do episódio, nem a Khaleesi nem seu único dragão vivo, Drogon, apareceram em primeiro plano na tela. Ficaram reduzidos assim a um ente desumanizado e abstrato que apenas cuspia terror e fogo. Todas as guerras são iguais, e uma série que gosta de jogar com o espetáculo das estratégias militares tinha pelo menos que reconhecer isso.

Daenerys havia prometido na sétima temporada que ela não seria, como seu pai, a Rainha das Cinzas, mas a fome de poder corrompe tudo, e também a ela, a Destruidora de Correntes. Reduzida a um monstro como seus inimigos, Game of Thrones liquida assim a sua principal heroína. De quase uma década de viagem resta agora apenas o epílogo, e só cabe esperar que os outros personagens vivos, Tyrion, Jon Snow, Arya, Sansa e Bran Stark, fujam de perto dela. No caso dos irmãos Stark, o destino parece claro, o norte. No de Jon Snow, quem dera fosse voltar para o “verdadeiro norte” junto com seu lobo Fantasma (se me perguntarem, o verdadeiro amor de sua vida), mas neste momento ele é a única ameaça ao trono de sua tia; e a Tyrion, cumpridos seus piores pesadelos e sendo o último dos Lannister, só resta viver para contar.

Desde a sétima temporada a ameaça de um final assim, amargo para todos, estava sobre a mesa. A execução do Lorde Varys, “a voz do povo”, nos primeiros minutos do episódio confirmava os piores presságios. Sapochnik, que assinou alguns dos melhores capítulos da série, entre eles A Batalha dos Bastardos e A Longa Noite, voltou a demonstrar sua capacidade de se movimentar em meio ao caos. Novamente um roteiro de poucas palavras, com duelos entre irmãos, multidões encurraladas, onde os escombros de uma cidade enterram tudo. O sonho de um mundo melhor está aniquilado. No único encontro frente a frente entre os dois personagens principais, Jon Snow e Daenerys, o peso da tragédia voltou a cair sobre os ombros do bastardo de Winterfell. A Rainha das Cinzas e seu cinzento particular, um incapaz para a farsa e a felicidade. Sem amor, sua rainha pronunciou seus últimos intuitos: “Então medo”.

Talvez o surpreendente a estas alturas seja que a khaleesi tenha virado um ícone feminista apesar de muitos de seus irritantes defeitos; o principal, sua obsessão em alcançar o trono a todo custo. E que, pelo contrário, não seja assim uma personagem feminina com o dobro da sua inteligência e astúcia: Sansa Stark. Como sua mãe, Catelyn Stark, e diferentemente de sua irmã Arya e da própria khaleesi, Sansa representa a força do bom senso, embora seja mais sexy cavalgar sobre dragões, sair nua e ilesa de uma pira de fogo e acreditar ser a proprietária e senhora de tudo. Os rumos autoritários da Mãe dos Dragões vêm de várias temporadas atrás, não é algo enfiado à força na última hora. Na sétima temporada é o próprio Tyrion quem diz a Cersei que a diferença entre a Khaleesi e ela é que a primeira teme a si mesma. Pouco mais.

Trailer do capítulo final de ‘Game of Thrones’.

A batalha final foi letal para os Lannister. Uma Cersei às lágrimas contemplava incrédula a brutalidade do ataque aéreo, consciente de que seus inocentes escudos humanos não serviam de freio à ira do inimigo. Sozinha, com sua guarda aniquilada e as torres de sua Fortaleza Vermelha desabando a seus pés, encontrou o consolo final (generosos os roteiristas com ela) de seu irmão e amante, Jamie, liberado por Tyrion em uma das sequências mais tristes do episódio. O enorme anão, abraçado a seu irmão mais velho, despedia-se entre lágrimas do único que sempre o amou: “Se não fosse por você jamais teria sobrevivido à minha infância. Você foi o único que jamais me tratou como um monstro”. Nada deu certo para Tyrion. Ele, Jon Snow e Arya são os sobreviventes de uma catarse da qual são horrorizadas testemunhas.

O pior do final de Game of Thrones é justamente isso, a necessidade de concluir uma história que nem seu próprio autor fechou e cuja espera ultrapassa todas as fronteiras e limites. Não teria sido má ideia que os criadores da série tivessem optado por uma ridícula solução interativa como no episódio Bandersnatch de Black Mirror. E que cada um se empanturre com os seus.

Faltando um capítulo para o fim da série, o argumento se encaminha para um novo trono maldito. Seja se reinar a Khaleesi, ou se assumir o trono o verdadeiro herdeiro, Jon, condenando assim o personagem à desgraça de um poder e uma vida que ele renega. A esta altura, procurar a reviravolta surpresa que contente os espectadores (se é que isso faz algum sentido) seria estapafúrdio. Guardadas as proporções, e sem querer cair em odiosas — e neste caso absurdas — comparações, Game of Thrones padece da síndrome de Apocalipse Now, a obra-prima de Coppola sobre o inferno do Vietnã, cujo final costuma suscitar um interessante debate sobre se estava ou não à gigantesca altura do resto do filme, algo a que o próprio Coppola, que o alterou e improvisou no último minuto, não era alheio. Coppola, isso sim, tinha um ás na manga, Marlon Brando, que só estava preocupado em receber o cachê e ir embora, e que se apresentou tão gordo que obrigou o diretor a rodar a sequência em meio a sombras. Seja como for, consciente de suas limitações para essa catarse final, Coppola soube tirar partido da lenda. Mas aqui não há um Brando para sentar-se no trono, qualquer trono, e manter o público quieto e calado. Quando muito Drogon, você sabe, as garras do horror, o horror…

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