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A ostentação milionária de Cabelo Duro, gerente do tráfico internacional do PCC

Wagner da Silva se passava por empresário do ramo musical e tinha bens em nome de terceiros.

Foi morto no ano passado, acusado de participar dos assassinatos de integrantes da cúpula da facção

Wagner ‘Cabelo Duro’ Ferreira e, à direita, momento em que foi executado em frente a um hotel de luxo na zona leste de São Paulo.
Wagner ‘Cabelo Duro’ Ferreira e, à direita, momento em que foi executado em frente a um hotel de luxo na zona leste de São Paulo.

Carros importados; apartamentos milionários; passeios de helicópteros e lanchas; hospedagens em mansões em praias paradisíacas; patrocínio de festas caríssimas e presença constante em camarotes em shows de artistas famosos. Essa era a vida de ostentação de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, principal gerente do tráfico de drogas internacional do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Foi ele quem coordenou e participou dos assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, em 16 de fevereiro de 2018 na região metropolitana de Fortaleza, no Ceará. Investigações da Polícia Civil cearense apontaram que Gegê e Paca , dois integrantes do alto escalão do PCC, estavam desviando milhões de reais da facção e por isso foram mortos em uma emboscada.

A ordem para matá-los partiu de Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, um dos maiores narcotraficantes do Brasil, foragido da Justiça e braço direito de Marco Willians Herbas Camacho, líder máximo do PCC. Cabelo Duro, no entanto, teve o mesmo fim de Gegê e de Paca. Como vingança pela morte dos dois, ele acabou executado a tiros de fuzil, no Tatuapé, zona leste de São Paulo, em 22 de fevereiro de 2018 (veja vídeo do momento do crime).

Momentos da vida luxuosa desfrutada por Cabelo Duro foram detalhados minuciosamente por um piloto de helicóptero que prestava serviços para ele, em depoimento no Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado). A testemunha foi ouvida em 8 de março de 2018 pelo delegado Fábio Sanches Sandrin, responsável pelo inquérito aberto para apurar crimes de ocultação de bens e lavagem de dinheiro cometidos por integrantes do PCC.

O delegado Sandrin apurou que Cabelo Duro era dono de uma cobertura duplex de 559 metros quadrados e vagas para quatro carros na rua Torrinha, no Tatuapé, avaliada em 3 milhões de reais. As investigações apontaram que o gerente do tráfico do PCC também era dono de um apartamento de 320 metros quadrados na Rua Marechal Barbacena, Tatuapé, avaliado em 1.255.947,00 de reais. Além dos imóveis — segundo a Polícia Civil — Cabelo Duro tinha ao menos três helicópteros, duas lanchas e carros importados, como um Corolla cinza escuro blindado, um Hyundai HB20 azul e outro de cor preta.

Dois dias depois de matar Gegê do Mangue e Paca, Cabelo Duro retornou a São Paulo e, no dia seguinte, contratou o piloto para levá-lo até Angra dos Reis, no litoral Sul fluminense. Cabelo Duro foi curtir o sol e o mar em um de seus helicópteros, um Esquilo, preto, de prefixo PR-PSA. Ele pagou 1 milhão de reais em dinheiro e quitou o restante da dívida (total de 3 milhões de reais) cedendo ao vendedor outra aeronave e mais dos veículos de luxo, em 2017.

A bordo do Esquilo PR-PSA pilotado pela testemunha, estavam André Luís da Costa Lopes, o Andrezinho da Baixada, e Erick Machado Santos, o Neguinho Rick. Ambos também ajudaram a matar Gegê e Paca. O outro helicóptero de Cabelo Duro é um Esquilo modelo B04, prefixo PR-YHB. O Deic apurou que o traficante adquiriu a aeronave em setembro de 2017 por 3 milhões de reais. Os dois helicópteros foram usados para transportar os integrantes da quadrilha de Cabelo Duro, responsável pelas mortes dos dois homens da cúpula do PCC.

O piloto Felipe Ramos Morais conduziu o Esquilo PR-PSA até Fortaleza levando a bordo Gegê e Paca ao local onde ambos foram emboscados. Ele presenciou o crime e, por isso, também foi indiciado pelos homicídios. No depoimento ao delegado Sandrin, o piloto admitiu que conduziu o Esquilo PR-YHB até Fortaleza. Foram com ele um casal de amigos, outro amigo e mais duas pessoas (mãe e filho). As duas últimas pessoas também foram indiciadas pelas mortes de Gegê e Paca.

O piloto que prestou depoimento ao Deic não teve envolvimento no crime. O piloto deixou o helicóptero em Fortaleza e retornou a São Paulo em um avião da Avianca. Ele apenas foi contratado por Cabelo Duro, mas não sabia do plano do traficante para executar os dois chefes do PCC. Soube das mortes pelos noticiários. O piloto também revelou ao delegado que fez outros voos para Fortaleza, sempre a pedido de Cabelo Duro. Acrescentou que já o levou para o Balneário Camboriú, em Santa Catarina; Ribeirão Preto, Monte Mor, Barretos (em uma das mais tradicionais Festas do Peão) e Olímpia, no interior paulista.

Outras viagens foram feitas para Ilhabela, no litoral norte de São Paulo e para Angra dos Reis. Nessa última cidade fluminense, o piloto levou diversas vezes Cabelo Duro, a família e amigos do traficante. Em apenas um dia, ele foi três vezes para Angra dos Reis. Uma foi para levar Cabelo Duro e a família dele. Nas outras viagens ele levou os parentes de Andrezinho da Baixada e de Neguinho Rick. Em Angra dos Reis, Cabelo Duro e seus convidados ficavam hospedados em mansões à beira-mar. O traficante e sua turma faziam passeios em embarcações de luxo. Cabelo Duro também contratou o piloto para levá-lo ao Rio de Janeiro, para a cidade de Aparecida e também Piracaia, ambas no Vale do Paraíba.

Em Piracaia, Cabelo Duro alugou uma mansão para comemorar seu aniversário, em setembro de 2017. O piloto revelou ao delegado que chegou a buscar no Rio de Janeiro cantores de funk e pagode contratados pelo traficante para animar a festa. Na ocasião, o profissional também teve de fazer diversos voos panorâmicos para os convidados na região de Piracaia. O Deic apurou ainda que ninguém desconfiava de Cabelo Duro porque ele se apresentava para as pessoas como empresário do setor musical e dono de uma produtora de eventos. Na realidade, Cabelo Duro gerenciava o tráfico de drogas do PCC para a Europa, via porto de Santos. Eram enviadas toneladas por mês.

Os bens adquiridos por ele eram registrados em nome de outras pessoas. O helicóptero Esquilo PR-PSA foi comprado em nome de um advogado, cujo filho foi ouvido no Deic. Ele alegou que o pai fez compra porque acreditou que Cabelo Duro fosse realmente empresário do ramo musical. O filho do advogado acrescentou que já foi com Cabelo Duro em camarotes em shows de artistas como Anitta, Ludmila, Gustavo Lima, Grupo Pixote, MC Gui, entre outros.

Cabelo Duro foi casado e depois manteve relacionamentos com outras duas mulheres. Uma delas, uma jovem de 25 anos, da Baixada Santista, costumava se hospedar com ele um flat de luxo no Tatuapé. Foi na porta desse flat que o traficante acabou executado. As aeronaves compradas por Cabelo Duro foram apreendidas pela Justiça a pedido do Deic e da Polícia Federal. O DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) investiga o assassinato do traficante.

Matéria originalmente publicada no site da Ponte Jornalismo

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