Seleccione Edição
Login

Fantasma da greve dos caminhoneiros faz Bolsonaro buscar novas compensações para a categoria

Governo blinda, por ora, política de preços da Petrobras para o diesel, mas anuncia pacote de crédito para categoria. Confederação elogia, mas cobra definição sobre frete

Ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e o Chefe da Casa Civil  Onyx Lorenzoni em anúncio de medidas para caminhoneiros nesta terça-feira.
Ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e o Chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni em anúncio de medidas para caminhoneiros nesta terça-feira. AFP

Desde que o presidente Jair Bolsonaro mandou suspender o aumento de preço do diesel, após forte pressão dos caminhoneiros na semana passada, o Governo enfrenta a missão de se afastar da imagem de intervencionista, mas sem que a atitude gere descontentamento entre os motoristas. Nesta terça-feira, coube, de um lado, ao ministro da Economia, Paulo Guedes, a função de acalmar o mercado financeiro informando que a Petrobras não sofrerá novas intervenções. E, do outro, os ministros da Casa Civil e de Infraestrutura foram incumbidos de anunciar um pacote de medidas para ajudar os caminhoneiros. O plano, no entanto, não agradou a todos da categoria e foi considerando, por alguns grupos, "uma cortina de fumaça" para tentar adiar uma possível greve dos caminhoneiros.   

No fim do dia, Guedes afirmou que a Petrobras é independente para estabelecer os preços dos combustíveis, e que o presidente Jair Bolsonaro já deixou claro entender que seria um erro manipular ou interferir nas decisões da estatal. O ministro afirmou ainda que caberá à petroleira decidir quando retomar o reajuste de 5,7% do preço do óleo diesel, suspenso na semana passada a pedido de Bolsonaro. A decisão de recuar no aumento do preço, na tentativa de evitar uma nova greve da categoria, fez as ações da Petrobras despencarem e a empresa perdeu, só na última sexta-feira, 32 bilhões de reais em valor de mercado.

"É muito claro para todos nós que quem estabelece as práticas de preços é a Petrobras. E o presidente da Petrobras tem o encargo de tornar cada vez mais transparente essa política de preços. A transparência será cada vez maior. Se o próprio presidente da República ficou em dúvida, é por que não está tão transparente", disse Guedes após uma reunião "de esclarecimento" com Bolsonaro e o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco.

Segundo o ministro de economia, a interferência do presidente no aumento de preço teve uma "dimensão política", considerando que "o Brasil praticamente parou" por causa da greve dos caminhoneiros, no ano passado.

Fantasma da greve

Foi parecendo ter esse fantasma em mente que, antes de dar a notícia de que a política de preços da Petrobras não seria modificada, o Governo preferiu divulgar primeiro, pela manhã, um pacote de medidas para conter a insatisfação dos caminhoneiros diante da alta do diesel. Entre as medidas, está uma linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de até 30 mil reais para que caminhoneiros autônomos possam comprar pneus e realizar a manutenção dos veículos.

O anúncio foi feito no Palácio do Planalto pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni e o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, que também prometeram a destinação de 2 bilhões de reais para a conclusão de obras e manutenção de rodovias e eixos viários importantes, como o asfaltamento da BR-163. Também serão construídos pontos de descanso em rodovias federais. Para conseguir liberar os dois bilhões de reais o Governo realizará "um rateio" em que cada um dos ministérios passará "uma cota".

Os dois explicaram que as medidas vêm sendo negociadas desde janeiro quando foi criado um fórum com representantes da categoria. Ficou de fora, no entanto, uma das demandas mais importante cobrada pelos caminhoneiros: a tabela de frete e sua fiscalização.

Em nota, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) disse reconhecer "o esforço do governo", mas cobrou a fixação de um preço mínimo para os fretes e fiscalização. “São medidas importantes, que beneficiam o caminhoneiro e o valoriza como profissional. Porém, ainda aguardamos uma resposta sobre nosso principal anseio, que é o cumprimento da lei do piso mínimo do frete”, diz o presidente da entidade, Diumar Bueno.

Já Ariovaldo Junior Almeida, diretor do Sindicato dos Caminhoneiros de Ourinhos, interior de São Paulo, chamou de "esmola" o crédito oferecido. "É melhor do que nada, mas é esmola. Trinta mil reais não dá para 15 pneus. O caminhoneiro precisava de uma linha de crédito de 200 mil reais", afirmou à Folha de São Paulo.

Em vigor desde julho de 2017, a política de preços da Petrobras tenta alinhar os valores aos cobrados no mercado internacional. Para isso, leva em consideração a variação no barril de petróleo, calculado em dólares. A estratégia divide opiniões. Na avaliação da economista Juliana Inhasz, do Insper, a fórmula é boa e adequada ainda que não favoreça todos os setores. "Com a situação das contas públicas, o Governo não tem como ficar segurando de maneira artificial os preços. Isso incorreria no mesmo erro do Governo de Dilma Rousseff", explica.

Já sobre o investimento de 2 bilhões de reais em infraestrutura, Inhasz avalia que é uma medida de longo prazo e que pode não contribuir para diminuir a pressão dos caminhoneiros sobre o Governo. "Na verdade, ela poder jogar ainda mais gasolina no fogo, já que revela que o Governo definitivamente não irá ceder sobre o valor do combustível, uma das demandas mais fortes da categoria. Pode, inclusive, criar uma tensão maior e acelerar uma eventual greve", completa.

MAIS INFORMAÇÕES