Análise
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A política que trata o oponente como inimigo enfraquece a Europa

Ultrapartidarismo, a renúncia sistemática ao diálogo e ao compromisso com o adversário político, enfraquece paulatinamente muitas sociedades europeias

O Governo britânico de unidade nacional, em 1931 em Londres.
O Governo britânico de unidade nacional, em 1931 em Londres.Getty Images

Quase três anos depois de assumir o comando do Governo britânico e a gestão do Brexit, a poucos dias do abismo de uma saída da UE sem acordo, Theresa May deu essa semana uma guinada abrupta anunciando que procuraria um entendimento com a oposição trabalhista. Até então, em todos os momentos desde que assumiu o comando e até mesmo após ficar em minoria no Executivo após fracassadas eleições antecipadas, havia anteposto sem nenhum complexo o medo de romper seu selvagem partido ao ideal de formar uma ampla maioria parlamentar de apoio a algum modelo de Brexit —em um país em que 48% recusou a saída, e 52% a apoiou sem ter nenhuma ideia de como seria—. A História a julgará por isso.

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Dadas as circunstâncias, é terrível a suspeita de que pode se tratar de um mero giro tático, dirigido somente para assustar a vertente conservadora de seu partido (para que apoie in extremis o plano negociado pelo Governo com a UE) e hipnotizar os membros do clube europeu (para que concedam na reunião de quarta-feira outra prorrogação graças à miragem de uma solução bipartidária). Veremos. Seja como for, a mudança pode ser vista como um eloquente epitáfio de certa maneira de se fazer política: de costas ao Parlamento, ignorando a oposição.

É difícil encontrar exemplos com dramatismo igual na Europa atual, mas a doença do ultrapartidarismo —essa degeneração tumoral do que é a saudável representação democrática partidária— é um mal que apodrece muitos tecidos no continente. A política de embate, de trincheiras, de descrever o oponente como inimigo, até mesmo como traidor, prospera. Seu florescer enfraquece nossas sociedade, porque no lugar de juntar forças e facilitar sintonias, divide e exaspera.

Há algumas exceções, sem dúvida. No passado e no presente. A venerável democracia britânica, em ocasiões diferentes, exibe o caso dos Governos de unidade nacional liderados por Ramsay McDonald de 1931 a 1935, que uniu políticos conservadores, liberais e do setor trabalhista diante das consequências da crise de 29. Na Alemanha, Merkel dirige sua terceira grande coalizão entre partidos de esquerda e direita da divisória política central, o que é prova fidedigna de maturidade política. A aliança governamental holandesa, eminentemente liberal-conservadora, inclui um partido com traços progressistas em algumas matérias. Esse país, como por exemplo a Finlândia, tem um longo histórico de Governos de coalizão, em algumas circunstâncias bem heterogêneos. Macron incluiu em seu Executivo figuras do socialismo e da direita moderada.

A Itália é um caso especial, que em meio a uma política frequentemente caótica e ineficaz exibiu, entretanto, capacidade de união e convergência em momentos críticos. Como o Gabinete Ciampi de 1993, em plena tempestade econômica sobre a lira, respaldado por amplíssima maioria parlamentar. Aconteceu a mesma coisa com o Governo Monti de 2011. O Executivo atual, à sua maneira, é uma experiência política que também precisou de extraordinárias doses de flexibilidade: une um partido (Liga) que representa eminentemente os interesses do rico Norte que quer menos impostos e menos transferências ao Sul com outro (Cinco Estrelas) que representa em grande medida um Sul que quer subsídios.

Esses episódios de superação das trincheiras partidárias, entretanto, são minoria. A política tribal triunfa. O espetáculo britânico é um cenário privilegiado, mas não é difícil encontrar sintomas em outros lares. Há argumentos para afirmar que a Espanha está entre os protagonistas dessa dança tribal. O Cidadãos descartou radicalmente se aliar ao PSOE de Sánchez (enquanto o partido liberal de Macron vê isso como uma possibilidade no tabuleiro europeu). O PP resume seu plano de Governo com um “tirar Sánchez”. Em qualquer parte do hemiciclo se ouve retórica incendiária. No passado ocorreram alguns casos de entendimento entre as partes (mais pelo disposição do PSOE, como no caso da aplicação do artigo 155 da Constituição da Catalunha e o respaldo à política terrorista anti-ETA). Mas qualquer estrangeiro nota a virulência do debate político na Espanha e a pouca propensão à construção comum fora das áreas de proximidade ideológica tradicional.

O panorama é ainda mais triste no Leste, onde em muitos casos vemos não só a falta de diálogo como também estratégias de assédio e derrubada do oponente.

E, entretanto, o compromisso é uma virtude. A Europa, mais uma vez, é vista como solução orteguiana aos problemas nacionais. Na Eurocâmara é muito mais habitual o diálogo e a construção comum entre famílias socialdemocratas, democratas-cristãs e liberais. Infelizmente, não se nota grande efeito contagiante.

Uma citação apócrifa atribuída a Giulio Andreotti diz que na política espanhola “manca fineza”. A sensação é que, na política europeia em geral, falta nobreza. Costuma funcionar melhor do que a teimosia.

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