Massacre em escola de Suzano

“Escutamos quando eles tentavam atirar na porta. Os policiais chegaram e nos liberaram”

Letícia Nunes, de 15 anos, se recupera em casa do tiro que levou durante o ataque em Suzano. "Pretendo continuar lá. O que aconteceu, infelizmente, poderia ocorrer em qualquer escola"

Letícia Nunes, de 15 anos, sobrevivente do massacre na escola de Suzano.
Letícia Nunes, de 15 anos, sobrevivente do massacre na escola de Suzano.Diego Padgurschi

Na última quarta-feira, 13 de março, a dona de casa Valéria de Melo Oliveira, de 41 anos, escutou uma das mensagens mais assustadoras que alguém pode receber: "Mãe, socorro, está tendo um tiroteio aqui! Mãe, me socorre". Era a sua filha única, Letícia Nunes, de 15 anos, aluna do 1º ano da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, onde dois atiradores realizaram um massacre que ceifou a vida de oito pessoas (seis alunos e duas funcionárias do colégio) e as suas próprias.

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Como a maioria dos estudantes naquele momento, por volta das 9h30, Letícia estava no refeitório quando levou um tiro que atravessou sua lombar, raspando nas costelas. Era a hora da merenda. "Eu e minha amiga costumamos sentar para comer sempre no mesmo lugar, bem na entrada do CEU [Centro Educacional Unificado]. Foi ali que escutamos os tiros, mas achamos que era brincadeira de alguém jogando bombinhas. Quando vimos todo mundo correr, percebemos que era algo sério e tentamos nos esconder, mas não deu tempo. Eles chegaram e começaram a atirar. Um estava com um arco e flecha", conta a adolescente, já no sofá de casa, na sexta-feira, depois de ter recebido alta, um dia antes.

Ao lado da mãe, na sala de estar da casa grande, mas simples, decorada com várias fotos suas durante a infância, Letícia fala com tranquilidade e maturidade superior aos seus anos dos momentos de terror que viveu na escola. Quando os atiradores se afastaram, a jovem e duas amigas fugiram para a sala da secretaria, a última do corredor da escola, e atrincheiraram-se usando cadeiras. "Ainda escutamos eles tentando atirar na porta, mas pouco depois chegaram os policiais e nos liberaram", lembra. Antes disso, viu cair diante de si o colega Caio Oliveira, uma das vítimas fatais do massacre. Foi quando enviou a mensagem para a mãe. "Se eles tivessem entrado naquela última sala, hoje eu estaria chorando com as outras mães", diz Valéria.

Letícia conta que foi só quando saiu do local que percebeu que estava ferida. Foi, acompanhada das amigas e dos agentes de segurança, até o Hospital Santa Maria, na rua ao lado do colégio, onde permaneceu consciente durante todo o atendimento. Sua mãe chegou pouco depois. "Como eu estava chorando muito, tive que me acalmar para poder entrar e vê-la. Quando nos encontramos no hospital, ela já passava mais segurança para mim do que eu para ela. Ela me viu e começou a me tranquilizar, nem parecia que era minha filha que estava passando por isso", lembra Valéria. 

A adolescente começou a estudar na Escola Estadual Professor Raul Brasil há três anos, depois de seus pais tentarem matriculá-la em outros dois colégios. Com uma filha muito estudiosa —que pretende cursar Psicologia ou Astronomia na faculdade, dentro de dois anos—, não queriam "de jeito nenhum" que continuasse na escola da comunidade de classe baixa onde vivem. Com um centro de idiomas e boa estrutura, a Raul Brasil é uma referência na região há 60 anos, conta Valéria. "Fiquei muito feliz quando conseguimos colocá-la lá".

"Uma guerreira"

Valéria Oliveira e a filha Letícia Nunes, sobrevivente do massacre em Suzano, em sua casa.
Valéria Oliveira e a filha Letícia Nunes, sobrevivente do massacre em Suzano, em sua casa.Diego Padgurschi

Apesar dos momentos de pânico que viveu no local, Letícia não pretende mudar de colégio. "É uma escola muito boa. Pretendo continuar lá porque o que aconteceu com a gente infelizmente poderia ocorrer em qualquer escola", afirma. Além disso, é no colégio que ela tem suas grandes amigas. "Muitas delas me escreveram quando estava no hospital, dizendo 'Nossa, achei que eu não ia te ver mais'", relata —e este é o único momento da entrevista em que parece emocionada—.

De família evangélica, o principal hobby da adolescente é tocar violão, instrumento com o qual se apresenta no coro da congregação Brasil para Cristo, em sua comunidade. Ela atribui à fé a força que tem demonstrado nos últimos dias e conta que, quando estava no hospital, lembrou muito do Salmo 91: "Mil cairão ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido".

A mãe conta que Letícia "sempre foi uma guerreira". Valéria perdeu cinco gestações —a última delas de gêmeos— antes de ter a filha. "Quando eu já tinha desistido, descobri que estava grávida de novo. Ela nasceu com oito meses e sofreu um derrame e uma convulsão, mas sobreviveu", conta, diante dos pastores de sua igreja, que vieram fazer uma visita à família. Desde a quarta-feira, a congregação faz orações pela saúde dos sobreviventes e pelas vítimas fatais da tragédia —pelo menos quatro delas faziam parte da igreja—.

Em casa, ainda com algumas dores e tomando remédios para conseguir dormir, Letícia celebra o fato de não estar do outro lado da lista da tragédia. Confia em sua recuperação e diz que Deus lhe dá forças para continuar.