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Oscar 2019, o que importa no ano mais louco da premiação

Evento de domingo, o mais aberto das últimas edições, chega após inúmeras decisões polêmicas na organização de uma premiação que, mais do que nunca, caminha à diversidade

Oscar 2019
Yalitza Aparicio e Marina de Tavira, atrizes de 'Roma' chegam à cerimônia.
Madrid / Los Ángeles

Poucas horas antes do começo da 91ª edição do Oscar, a mais aberta dos últimos anos em sua luta pelo grande prêmio da noite, o de melhor filme, é um bom momento para relembrar a trajetória da Academia de Hollywood ao evento: aos trancos e barrancos, tomando decisões das quais voltou atrás dias depois, fazendo com que seus próprios membros se aborrecessem com ideias como entregar quatro Oscar durante os intervalos comerciais da transmissão pela televisão.

Oscar ao filme mais popular. No começo de agosto a Academia anunciou uma nova categoria. E não era para o melhor especialista ou para atores de motion capture, profissionais que há anos pedem seu reconhecimento. Não, era para o filme mais popular. Sem explicar como seria escolhido – por bilheteria? Por votação de espectadores? – a estatueta contradizia o espírito dos prêmios: premiar a qualidade. Que não briga com a quantidade de espectadores, como demonstra o Oscar dos anos setenta. No fundo parecia um movimento da Disney, proprietária da Marvel, para que Pantera Negra estivesse na cerimônia. Mas não foi para isso que se aumentou o número de candidato ao Oscar de melhor filme? Um mês depois, a Academia recuou com um comunicado com frases como “A concessão de um novo prêmio produziu uma ampla gama de reações e reconhecemos que é preciso uma discussão maior com nossos membros”.

Sem apresentador. Em época de redes sociais, é bom verificar com lupa o passado digital de qualquer profissional no momento de oferecê-lo um novo trabalho. Kevin Hart parecia aos olhos da Academia uma grande decisão para apresentar o Oscar no começo de dezembro como comediante afro-americano muito popular em seu país – no resto do mundo não tem tanto apelo –. Ninguém, entretanto, havia olhado suas publicações no Twitter: no começo de sua carreira escreveu várias com piadas homofóbicas. Em dois dias, renunciou ao cargo, e o Oscar não terá apresentador. Não é a primeira vez, ainda que desde 1989 – o evento que começou com um número musical em que Rob Lowe dançava com a Branca de Neve – isso não acontecia. No Los Angeles Times, os produtores da premiação, Donna Gigliotti e Glenn Weiss, afirmam que em outubro já pensavam em não ter apresentador. Na verdade, será bom para eles se quiserem que o evento dure menos de três horas.

Canta ou não canta? Primeiro a Academia anunciou que seriam interpretadas ao vivo somente duas das cinco músicas indicadas ao Oscar. Mas quem faria a seleção? Recuou em sua decisão e decidiu que as cinco serão tocadas, com a favorita, Shallow, de Nasce uma Estrela, interpretada por Lady Gaga e Bradley Cooper. Por fim, serão somente quatro, porque Kendrick Lamar e SZA não estão disponíveis para cantar All the Stars, de Pantera Negra. O evento começará com uma apresentação do Queen, defendida pelos produtores do espetáculo com essa frase: “Bohemian Rhapsody arrecadou mais de 800 milhões de euros (3,5 bilhões de reais) em todo o mundo, 100 deles (425 milhões de reais) no Japão”.

Quatro Oscar durante os comerciais. A Academia de Hollywood anunciou no ano passado que alguns prêmios seriam dados nos intervalos comerciais da transmissão da tevê. E em fevereiro confirmou: serão os de montagem, fotografia, maquiagem e cabelos e curta de ficção (em que compete o espanhol Madre, de Rodrigo Sorogoyen); nas próximas edições seriam outros. Por que começar por esses quatro, dois dos quais – montagem e fotografia – considerados dos importantes? por que não outros, menos importantes, como melhor edição de som? Curiosamente, a rede ABC, que transmite o evento, pertence ao conglomerado Disney. E as produções Disney foram indicadas em todas as categorias, menos em quatro: montagem, fotografia, maquiagem e cabelos e curta de ficção. Uma legião de cineastas bradou contra a injustiça e há dez dias a Academia voltou atrás: todas as estatuetas serão entregues durante a transmissão.

Netflix e o Oscar principal. Nas últimas décadas, nunca houve uma corrida tão aberta pelo Oscar de melhor filme. Os eventos de prêmios anteriores que servem como pista não foram homogêneos: o grêmio de diretores escolheu Roma como melhor filme (assim com o Bafta britânico); os escritores cinematográficos, Eight Grade (que sequer está no Oscar) e Poderia Me Perdoar? (que não foi indicado à estatueta principal); os atores, Pantera Negra; os produtores, Green Book: O Guia; e os montadores, Bohemian Rhapsody e A Favorita. Roma é o melhor colocado? A Netflix só ganhou outro Oscar em longa-metragem – no ano passado com o documentário Ícaro – e o The New York Times conta que se o filme custou 15 milhões de dólares (56 milhões de reais), a plataforma digital gastou o dobro nessa corrida ao Oscar, contratando para a campanha Lisa Taback, publicitária vinda da Miramax, e portanto mestra nas artimanhas de Harvey Weinstein. De qualquer forma, Hollywood já abraçou a Netflix como um dos seus: em janeiro admitiram a plataforma na MPAA, a associação que agrupa os seis grandes estúdios – agora sete –, a patronal de Hollywood.

Um ano de #MeToo. Não se passou nem um ano e meio desde a explosão do caso Weinstein, e parece que se passou um século. Algumas coisas, entretanto, não mudaram apesar da ajuda do #MeToo. Nesse ano existem 51 mulheres candidatas – se não forem consideradas as categorias marcadas pelo gênero, como as de melhor atriz, e a de filme de língua estrangeira, quantificado pelo país –, melhorando o ano passado, que teve 44 indicadas. É um avanço, mas minúsculo: os homens são 75% dos candidatos. Em 2006 as mulheres representavam somente 18%, segundo um estudo do Women’s Media Center. Curiosamente, 40% dos 100 filmes de maior bilheteria de 2018 tinham uma mulher como protagonista e coprotagonista.

Prêmios inclusivos. Esse é o ano em que mais negros ocuparam papéis principais em filmes em mais de uma década, de acordo com um estudo da Universidade do Sul da Califórnia que começou a fazer essa análise em 2007. Nesse ano, os negros eram 13% dos protagonistas. Nos 10 principais filmes do ano passado, a porcentagem de papéis interpretados por negros subiu a 28%. Na bilheteria, filmes como Pantera Negra e Podres de Ricos quebraram recordes, com uma segunda leva de filmes como Infiltrado na Klan e Green Book: O Guia, além do fato do filme mais admirado, comentado e indicado do ano ser Roma, 100% mexicano e com uma protagonista indígena. Em 2019 existem 15 indicados negros entre os 212 no total. É a primeira vez que dois trabalhos indicados a melhor filme (Pantera Negra e Infiltrado na Klan) são dirigidos por afro-americanos. Não há indicados negros a melhor ator e atriz principal. Mas Mahershala Ali e Regina King são os grandes favoritos para o Oscar como atores coadjuvantes. Ali pode ser o primeiro ator negro – e muçulmano – da história a ganhar dois Oscar nessa categoria. Ruth Carter pode ser a primeira mulher negra a ganhar o Oscar de melhor figurino por Pantera Negra. Também nesse filme, Hannah Beachler é a primeira mulher negra indicada a melhor direção de arte. Jordan Peele, produtor de Infiltrado na Klan, é o primeiro negro a ser indicado duas vezes como produtor de melhor filme (o único a ganhar foi Steve McQueen por 12 Anos de Escravidão). Depois de três décadas fazendo cinema e um Oscar de honra, Spike Lee foi indicado a melhor diretor pela primeira vez. Seria o primeiro afro-americano na história a levar o prêmio. Terence Blanchard foi indicado a melhor trilha sonora pelo filme de Lee. Esse Oscar não vai a um compositor negro desde Herbie Hancock em 1986. Outro diretor, Peter Ramsey, é o primeiro diretor negro indicado a melhor filme de animação por Homem-Aranha: No Aranhaverso.

Quando a Academia mudou suas regras em 2016 declarou que seu objetivo era duplicar o número de mulheres e minorias étnicas entre seus membros para 2020. Eram, à época, 6.200 e hoje são por volta de 7.000. a Academia não revela números de sua composição, mas um estudo do Los Angeles Times indicou que nessa ocasião 94% dos que votam no Oscar eram brancos, 77% homens, e a média de idade era 62 anos. A produção de Hollywood desse ano, a bilheteria desse ano e as indicações mostram que algo deve estar mudando.

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